Euler de França Belém
Euler de França Belém

Americanos fizeram o impossível para censurar Trópico de Câncer, de Henry Miller

Até o escritor ficou desanimado com a fúria organizada dos reacionários. Mas um editor corajoso conseguiu pôr a obra nas livrarias

Trópico de Câncer: o romance de Henry Miller chegou a ser proibido em vários países

O romance autobiográfico “Trópico de Câncer” (José Olympio, 294 páginas, tradução de Beatriz Horta), do escritor norte-americano Henry Miller (1891-1980), é uma espécie de “O Amante de Lady Chatterley” dos Estados Unidos. Os dois livros foram perseguidos pela sanha moralista. A história travada para publicá-los e liberá-los na Justiça está contada no delicioso “A Hora Terna do Crepúsculo — Paris nos Anos 1950, Nova York nos Anos 1960: Memórias da Era de Ouro da Publicação de Livros” (Biblioteca Azul, 574 páginas, tradução de Cid Knipel), do editor norte-americano Richard Seaver.

Depois de publicar “Lady Chatterley”, do prosador e poeta inglês D. H. Lawrence — que provocou uma guerra na Justiça e na imprensa americana —, o norte-americano Barney Rosset (1922-2012), dono da Grove Press, editora de pequeno para médio porte, e o editor Seaver decidiram partir para uma briga de tubarões. Se o romance anterior havia provocado uma tempestade, o de Miller resultou num furacão. “Trópico de Câncer”, considerado obsceno, estava proibido em outros países. Por isso, cauteloso, Seaver sugeriu ao seu patrão, o homem responsável por eventuais indenizações, que esperasse a crise amainar. Barney disse que “não” e que deveriam seguir em frente.

Quando um exemplar de “Trópico de Câncer”, oriundo de Paris, era liberado da Alfândega, nos Estados Unidos, era uma festa — tal a raridade. O próprio Miller, morando na Califórnia e escrevendo “Nexus”, não estava muito interessado na publicação, dada a possibilidade de escândalo e possível perseguição. O escritor tinha, então, quase 70 anos. Ante a resistência, o sempre atrevido Barney ofereceu 50 mil dólares de adiantamento. Uma quantia, diz Seaver, “enorme” para a Grove e para a época. Miller respondeu que havia feito um compromisso com outra editora e que achava “toda tentativa de publicar estes livros [“Trópico de Câncer” e “Trópico de Capricórnio”] prematura”.

Henry Miller: histórias sobre sexo, com linguagem nua e crua, chocou o conservadorismo norte-americano

Numa carta, mais simpática, Miller escreveu para Barney: “Esta manhã chegou ‘Lady Chatterley’… Parece bom. E é, claro, um grande passo adiante. Mas como tudo segue devagar. O ‘Câncer’ terá 25 anos de idade em setembro. Logo eu estarei morto. Vivi tanto tempo sem meus ganhos legítimos que já estou acostumado. Alguém tem que morrer primeiro, se você notar, antes que a bola comece a rolar”.

Maurice Girodias, editor francês, ajudou a convencer Miller ao sugerir que, no caso de processos, a Grove arcaria com as custas. Inicialmente, o escritor hesitou, mas depois aceitou assinar um contrato. A editora não estava bem financeiramente, mas o destemido Barney, sempre disposto a editar autores seminais, decidiu bancar a publicação. “Os romances de Miller eram muito mais difíceis de defender que ‘Chatterley’. (…) Por muito que se o admirasse, ele era um sujo lutador de rua comparado ao gentleman inglês”, escreve Seaver.

Barney e Seaver produziram uma capa “recatada” para “Trópico de Câncer” e encomendaram uma introdução a Karl Shapiro, crítico literário respeitado nos Estados Unidos. “Considero Henry Miller o maior autor vivo”, escreveu Shapiro, numa tentativa de advertir os possíveis censores. Publicado em 1960, o romance provocou furor pelo país. “Autoridades locais em dezenas de Estados tomaram medidas contra o livro, raramente judiciais, pois uma visita ou telefonema para uma livraria ou atacadista geralmente era o bastante para encerrar a venda. (…) Em Rhode Island, o promotor público pediu aos atacadistas para ‘voluntariamente’ devolverem as caixas do livro fechadas. Deste modo, das 3.380 cópias despachadas para Rhode Island voltaram 3.380. Em outros Estados, chefes de polícia, xerifes, promotores municipais, comissões de literatura (leia-se censores) ou vigilantes paramilitares pressionavam livrarias e bibliotecas para não colocarem o livro à venda ou para retirarem-no de suas prateleiras”.

Barney Rossett, dono da Grove Press, o corajoso editor que publicou a obra de Henry Miller

No Texas, os livros eram destruídos. “‘Trópico de Câncer’ estava, como seu nome sugere, devorando o tutano de nossos ossos”, relata Seaver. A Grove teve de mover várias ações para defender a si e livreiros.

Na conservadora Boston, em setembro de 1961, a Justiça decidiu contra a Grove. O juiz disse que o livro de Miller era “imundo” e “asqueroso”. Quase um ano depois, em julho de 1962, a corte de apelações de Massachusetts “absolveu ‘Trópico de Câncer’ da acusação de obscenidade”. Sexo e linguagem crua deixaram os conservadores em polvorosa.

Na Filadélfia, com o livro apontado como “obsceno”, a editora perdeu. Em Chicago, Barney ganhou o processo. Perdeu um e ganhou outro na Califórnia. “Em Syracuse, Nova York, três livreiros tinham sido presos e condenados por um júri, segundo se presumia, de seus pares”, registra Seaver. O caixa da Grove, dados tantos processos judiciais, estava cada vez mais pobre.

Mais tarde, a Grove venceu em Wisconsin e Califórnia. “Estávamos agora em 1963, dois anos depois de o livro ser publicado e, mais uma vez, como receávamos, tivemos que abandonar a edição de capa dura e rapidamente lançar um livro em edição brochura, pois os piratas, ainda mais vorazes, haviam lucrado com o não envolvimento do Correio e a dubiedade dos direitos autorais para apressar suas próprias edições em brochura. (…) eles eram os únicos que estavam fazendo o proverbial dinheiro rápido, enquanto a Grove estava se recuperando. Nossa própria edição em brochura estava vendendo bem, mas não o suficiente para cobrir nossos custos legais crescentes”, anota Seaver.

Os advogados da Grove queriam levar os casos para a Suprema Corte, mas não conseguiram durante parte do tempo. Quase no fim de 1963, a Suprema Corte decidiu julgar um processo da Flórida. “A Corte derrubou a decisão negativa da Flórida por 5 a 4.” Dono, editores, funcionários e advogados da editora estavam exaustos.

[Texto publicado no Jornal Opção na edição de 9 a 15 de março de 2014]

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