Euler de França Belém
Euler de França Belém

Advogado diz que encontrou o código que prova que Capitu traiu Bentinho

Livro de Miguel Matos sustenta que a personagem era “amante” de Escobar. A crítica especializada ressalta a suposta traição, mas aponta nuances

Na biografia “Machado de Assis — Um Gênio Brasileiro” (Imprensa Oficial, 413 páginas), o jornalista e crítico Daniel Piza, comentando o romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, assinala: “Tal como Otelo, o personagem de Shakespeare, mas sem ser negro e guerreiro como ele, Bentinho [Bento Santiago] passa a sentir ciúmes intensos de Capitu e Escobar [Ezequiel de Souza Escobar], mesmo sem ter indícios e mesmo Escobar tendo se casado com Sancha. A paranoia o consome pelo fato de que, mimado e confuso, Bentinho é incapaz de ver com clareza e, antes de mais nada, de ver a si mesmo com clareza. É como se Bentinho fosse seu próprio Iago (palavra que contém em seu sobrenome, Santiago), o homem que manipula Otelo para convencê-lo de que Desdêmona o trai”.

Daniel Piza sublinha que “tudo segue misteriosamente porque o narrador é o próprio Bentinho”.

O biógrafo nota uma homossexualidade latente em Bentinho. “Ele [Bentinho] admira e inveja o rapaz ‘de olhos claros’, a tal ponto que suas memórias são pontuadas de gestos de afeição mútua. (…) Também Capitu pode estar sentindo ciúmes de Escobar. Afinal Bentinho parece transferir para ele o que sente por Capitu, pois está sofrendo com a hipótese — espicaçada por João Dias — de que Capitu se envolva com outro homem enquanto está no seminário. (…) O livro descreve uma fala provocativa da prima Justina, que insinua que Capitu e Sancha ‘talvez ficassem namorando’. Bentinho fica furioso, mas não deixa de considerar a hipótese. De menino puro, passou a pôr maldade em tudo”, postula Daniel Piza.

Em seguida Daniel Piza escreve: “Escobar, suspirando, comenta que o mar está bravo, com ressaca, e se gaba de seus braços, dizendo para Bentinho apalpá-lo. Bentinho apalpa ‘como se fossem os de Sancha’, ou seja, com ternura; e diz também sentir inveja de sua força. Além disso, tem um retrato do amigo em casa, para o qual olha de vez em quando. É como se sentisse uma atração física por ele”.

Quando Escobar morre, afogado (teria sido um suicídio?, especula Daniel Piza), Bentinho chora muito. “Capitu olha fixamente para o cadáver, sem chorar, mas como se o quisesse trazer de volta.”

Ezequiel, o filho “de” Bentinho e Capitu vai, aos poucos, ficando “parecido” com Escobar. Compra veneno, “pensando em se matar!”. “Quando o filho acorda, pensa ainda em dar o café com veneno a ele.Mas não tem coragem e, abraçando Ezequiel, grita: ‘Eu não seu teu pai!’ Quando levanta a cabeça, vê que Capitu estava ali. Ela, indignada, diz que a semelhança é casual. Ou seja, reconhece a semelhança. Mas Bentinho continua em dúvida, por não ter prova cabal”.

Ante a capacidade manipuladora do narrador, Bentinho, e de Machado de Assis, Daniel Piza conclui: “Não podemos afirmar com certeza que Capitu” traiu Bentinho com Escobar.

Bentinho, registra Daniel Piza, sonhava com tudo e, por isso, terminou com nada. “Na figura dele, Machado ri de todo um tempo em que as aparências e as fantasias eram hegemônicas, em que o paternalismo vestia os problemas com o manto da conciliação, do ‘meio-termo’ conveniente, e terminava vítima de si mesmo, de seu próprio egoísmo. Por meio de Bentinho, Machado mostra como o Segundo Reinado causou, em grande parte, a sua própria ruína. Seus protagonistas estão sempre despreparados para viver tempos de incertezas”.

Os primeiros críticos de “Dom Casmurro” apontaram que Capitu havia “traído” Bentinho. “Machado agradeceu a todos eles em cartas, não mencionando em nenhuma delas que essa afirmação não poderia ser feita”, observa Daniel Piza. Numa crônica, Machado de Assis escreveu: “Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descreve o encoberto. […] A vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam.”

Ousadia de Machado de Assis

Na excelente biografia “Machado de Assis — Num Recanto, um Mundo Inteiro” (Garamond, 301 páginas), Dau Bastos começa por reparar uma fala de Bentinho: “Nem tudo é claro na vida ou nos livros”.

“Como o narrador não é conclusivo quanto ao adultério, os receptores se portavam como investigadores incumbidos da excitante missão de descobrir a verdade. (…) Uma das novidades do romance foi colocar em primeiro plano, como protagonista e narrador, um homem que faz tudo para se provar vítima de adultério. No contexto patriarcal de então, o gesto de Machado certamente foi ousado”, nota Dau Bastos.

“Em sua tese de doutoramento, a feminista americana Helen Caldwell [1904-1987] revelou que o ficcionista recriara ‘Otelo’. Realmente, a peça de Shakespeare merece várias referências ao longo do livro, numa das quais Bento Santiago chega a vê-la encenada e, ao sair do teatro, pensa o seguinte sobre Desdêmona: ‘E era inocente, vinha eu dizendo rua abaixo — que faria o público se ela deveras fosse culpada, tão culpada quanto Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria; era preciso sangue e fogo, um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo, e a reduzisse a pó, e o pó seria lançado ao vento, como eterna extinção…’”.

“Em vez de colocarmos a lupa sobre Capitu, convém atentarmos para as artimanhas de Dom Casmurro, este sim, suspeito”, sugere Dau Bastos. “Santiago não é apenas Iago: é, ao mesmo tempo, Iago e Otelo”, postula Helen Caldwell.

Um dos principais estudiosos de literatura do país, Luiz Costa Lima, aponta para “a verdadeira temática do romance”: “Adultério ou não adultério são possibilidades equivalentes na conduta de Capitu, cuja dissimulação indica não a arte de uma potencial traidora, mas a capacidade de não se sujeitar à escravidão branca, que encontrava na mulher o seu objeto”.

Bentinho era advogado e, como tal, postula: “Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor, à força da repetição”.

Dau Bastos diz que, “em seu aproveitamento da criação shakespeariana, Machado forjou um paranoico de tal maneira convencido do apunhalamento da esposa que a forçou a passar o resto dos dias na fria Europa e abandonou o próprio filho, sem que isso lhe traga remorso. Ou por outra: o esforço de mostrar Capitu culpada visaria ao apaziguamento de sua consciência”.

Um dos maiores intérpretes de Machado de Assis, Roberto Schwarz sustenta que o livro “solicita três leituras sucessivas: uma, romanesca, onde acompanhamos a formação e decomposição de amor; outra, de ânimo patriarcal e policial, à cata de prenúncios e evidências do adultério, dado como indubitável; e a terceira, efetuada a contracorrente, cujo suspeito e logo réu é o próprio Bento Santiago, na sua ânsia de convencer a si mesmo e ao leitor da culpa da mulher”.

Dau Bastos acrescenta que, “em seus vaivéns entre a serenidade e a febre do ciúme, o pretenso enganado vê o mesmo fato por diferentes ângulos, em postura claramente contraditória, pois se agarra a uma verdade cujos alicerces dependem do aprofundamento da ficcionalização. Assim, a criação do escritor e o delírio do desatinado se encontram. Um dos frutos mais notáveis dessa combinação é a expressão ‘olhos de ressaca’”.

A “chave” da traição de Capitu

O jornal “O Globo” (terça-feira, 14) publicou uma breve resenha do livro “Código Machado de Assis — Migalhas Jurídicas” (Editora Migalhas, 592 páginas), do advogado Miguel Matos. O título do texto é “Capitu traiu? Advogado encontra prova jurídica em capítulo de ‘Dom Casmurro”.

Como não li o livro, vou basear-me no comentário de “O Globo” — por sinal, não extenso e, talvez por isso, relativamente fraco.

Primeiro, Miguel Matos é corajoso ao desafiar a crítica mais categorizada e se mostrar como dono de um código que decifra Machado de Assis e, por extensão, seu romance. Segundo, afirma que encontrou a “prova cabal” da traição de Capitu (frise-se que poucos apontam a “traição” de Escobar, que era amigo do supostamente “traído”). Há uma “senha jurídica” que, sim, “demonstra” o adultério.

Miguel Matos: revendo “Dom Casmurro”, de Machado de Assis | Foto: Wallace Martins/Divulgação

O registro de “O Globo, citando Machado de Assis, Bentinho e Miguel Matos: “Certa noite, Bentinho, ele próprio um advogado, vai ao teatro sem Capitu e, ao voltar antes do fim do primeiro ato, encontra Escobar à porta do corredor de sua casa. É uma situação de quase flagrante, que só piora o álibi: o amigo diz que passara por lá para tratar de uma ‘questão de embargos’. Só que, quanto mais Escobar explica o assunto, mais o leitor dotado de um mínimo conhecimento jurídico percebe que o incidente não é importante, observa Matos. Além do mais, Escobar era um veterano negociante, com experiência suficiente para saber disso. Em tempos pré-WhatsApp, ele nunca bateria tarde da noite na casa de alguém se o motivo não fosse relevante. Porém, o mais importante aparece logo no título deste mesmo capítulo. Machado o nomeou ‘Embargos de terceiro’ — uma terminologia jurídica que o autor já havia utilizado no romance ‘A Mão e a Luva’. ‘Machado usa muitas metáforas jurídicas em sua obra’, diz Matos. Em ‘Dom Casmurro’, o termo ‘embargos de terceiro’ é uma metáfora para disputa pela posse. No caso, a ‘posse’ de Capitu. O mesmo aparece em ‘A Mão e Luva’ para falar sobre uma pessoa que quer conquistar a outra. Machado não iria fazer essa associação à toa”.

A argumentação de Miguel Matos certamente será levada em consideração pelos críticos e biógrafos de Machado de Assis. Entretanto, a grande jogada, leitor, é deixar o romance como obra aberta — porque o must do livro de Machado é a incerteza, não a certeza ou certezas. Ao dizer isto não estou sugerindo que os críticos não devam “avançar” nas interpretações, acrescendo novas informações, o que a obra do escritor sempre permite, dadas sua agudeza e sua amplitude. Mas talvez não se deva “forçar” a obra a dizer o que nos convém — aquilo que queremos perceber. Às vezes, a “grande sacada” pode não figurar no romance, mesmo em suas entrelinhas, e sim naquilo que, antes de examinar o fato, já pensamos dele.

Adultério de Machado de Assis

Não há a menor dúvida de que Machado de Assis era apaixonado por sua mulher, Carolina. Mas a traiu com a atriz portuguesa Inês Gomes. Na “Revista Ilustrada”, de 4 de novembro de 1882, Júlio Dast escreveu: “O autor é um filósofo que faz trocadilhos. Querem um? A senhora Inês, uma atriz do nosso teatro que fala, como se diz, pelos cotovelos, saiu uma manhã do banho, escorrendo ainda água, quando encontrou o poeta. — Oh, ines… gotável! — brada-lhe o poeta”.

Júlio Dast aponta a infidelidade e, ao mesmo tempo, e debocha da gaguez do escritor, ressalta Dau Bastos, na biografia “Machado de Assis — Num Recanto, um Mundo Inteiro”.

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