Abril Azul: um mês para repensar o que sabemos sobre o autismo

Levando em consideração mais o sujeito que qualquer esforço de padronização, nossas ações propõem intervenções que fujam do desejo implacável de normatização

Amor para mim é exatamente isto. Ser capaz de permitir que aquele que eu amo exista como tal, como ele mesmo. E isto supõe mortes em mim. Se eu permito que o outro se expresse tal qual ele é, isso é o mais pleno amor. Dar liberdade dele existir do meu lado como ele é. Este é o tal amor incondicional. Isto é muito difícil, porém a experiência é interessante demais – os erros e os acertos. Amor é muito interessante, é o embate. Pode sofrer de tudo menos de tédio porque não há como ter tédio. Amor é muito divertido, é muito complicado”. Adélia Prado

Renata Wirthmann

Especial para o Jornal Opção

O dia 2 de abril foi instituído pela ONU (em 2008) como o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. A data é um marco, no Brasil e no mundo, de que algo se modificava em relação ao lugar que o autismo passaria a ocupar. Uma década antes pouco se falava de autismo e poucos eram os autistas, tanto que foi somente em 1993 que o autismo passou a existir na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde (CID-OMS). Além de ser um diagnóstico recente, até hoje não se sabe sua causa, o que leva a uma batalha ainda maior, a do tratamento.

Considerando que a batalha é grande demais para se enfrentar separadamente, todos os anos temos promovido, como resultado do projeto de pesquisa e extensão “Saúde Mental da Criança e do Adolescente” do curso de psicologia do Ibiotec da Ufcat, orientado pela professora-doutora Renata Wirthmann G. Ferreira, uma série de ações de extensão. Neste ano de 2021, devido à pandemia da Covid-19, todas as ações ocorrerão online.

Por que devemos nos mobilizar para o Abril Azul?

Três grandes preocupações

Devido a três grandes preocupações.

A primeira é relativa ao aumento do número de diagnósticos de autismo em todo o mundo, sobretudo após a publicação do DSM V que, com importantes mudanças nos critérios de diagnóstico e com a incorporação de vários transtornos ao TEA (Transtorno do Espectro Autista), conduziu para 1% a estimativa populacional mundial dentro desta classificação.

A segunda preocupação descende da primeira: com o aumento do diagnóstico houve, claro, o aumento da oferta de tratamentos. Em todos os campos — na saúde, políticas públicas etc. — começaram a proliferar serviços e produtos para este novo mercado.

A terceira preocupação advém do resultado da segunda: a comercialização do autismo nos setores públicos e privados que leva a uma vulnerabilidade, cada vez maior, dos sujeitos autistas e de seus pais.

Em resumo, esse enorme desamparo diante do crescente número de autistas, associado a uma busca desesperada por tratamentos tem conduzido país e escolas a um deslocamento desorganizado de uma intervenção a outra, de um tratamento a outro, de uma medicação a outra, de um profissional a outro, além de uma mistura de técnicas científicas com crenças religiosas mescladas com modismos que se proliferam a partir das redes sociais.

Um outro ponto que sustenta a importância do mês de conscientização do autismo é de questionar os rótulos dados às pessoas com TEA.

Os rótulos podem atrapalhar o tratamento, dificultar os vínculos afetivos e sociais, impor barreiras às capacidades educacionais, suspender indevidamente deveres e direitos políticos e inviabilizar oportunidades profissionais, ou seja, podem agravar ainda mais o que já é sintoma do próprio autismo.

Assim, embora seja necessário, o diagnóstico contribui, ao mesmo tempo, com o processo de rotulação. Por isso é fundamental que se reconheçam seus limites, pois algumas pessoas podem acabar se tornando o rótulo que lhes é dado de tal modo que sua vida pode começar a girar, não mais em torno dos seus interesses e capacidades, mas em torno dos limites dados pela nomeação do seu diagnóstico.

O que se pretende com as ações de extensão

O que pretendemos com nossas ações de extensão no mês da conscientização do autismo?

Antes de mais nada, propor um olhar modificado sobre o autismo.

Desde que a legislação decretou que o autismo é uma deficiência e não um funcionamento subjetivo específico, começaram a surgir tratamentos com técnicas longas e agressivas e caras demais, não científicas, não totalmente controladas por profissionais qualificados e que, fundamentalmente, têm tornado a tarefa dos pais particularmente difícil, sobretudo de encontrar instituições que consigam associar a educação e os cuidados necessários ao trabalho adaptado, levando em consideração o ritmo do sujeito e onde se leve em conta a angústia, ao invés de combatê-la violentamente.

Muitos tratamentos propostos hoje elevam a angústia do autista a níveis que, frequentemente, geram comportamentos agressivos, sobretudo contra o próprio corpo. A psicanálise, por sua vez, faz uma leitura do autismo baseada nos conceitos de Outro, corpo e gozo, conduzindo o tratamento pela escuta que busca convocar o surgimento e estruturação do sujeito.

Levando em consideração mais o sujeito que qualquer esforço de padronização, nossas ações de extensão vêm propondo intervenções que fujam desse desejo implacável de normatização. A clínica com crianças repete muitas vezes esse anseio, buscando padronizar, limitar e treinar as crianças não mais para se tornarem sujeitos, mas padrões. Quando esse funcionamento se estende à clínica com autistas, os danos são ainda maiores, pois métodos que focam no treinamento de atividades acabam reforçando cada vez mais a sintomatologia da criança autista, conduzindo este a um esforço, cada vez maior, de se isolar e recusar qualquer tipo de encontro com o mundo.

Escutar aos autistas; eles têm muito a dizer

Reitera-se que a Psicanálise adota uma visão integral e cuidadosa do sujeito quando presume que não há uma normalidade. “O homem normal é uma ficção estatística que constrói um ser abstrato, que supostamente se desenvolve em etapas predefinidas, das quais nenhuma teoria como faltar — graças ao que estaria isento de angústias e de sintomas.”

A especificidade da abordagem psicanalítica consiste em considerar que o sujeito possui um saber essencial sobre o seu modo de funcionamento, por isso deve ser levado a sério aquilo que os autistas dizem sobre eles mesmos. “A psicanálise parte da hipótese inversa. Ninguém melhor do que o próprio sujeito saberia ensinar aos clínicos a respeito do seu funcionamento” (Maleval, 2017).

Neste sentido, o nosso trabalho é instigado a criar e inventar intervenções que não percebam o autismo como uma doença, e sim um funcionamento subjetivo singular, uma estrutura. Isso equivale a dizer que é impossível tratar a singularidade do autista sem escutá-lo. Não só a psicanálise, mas uma célebre autista de alto desempenho propõe o mesmo:

Fico preocupada quando crianças de 10 anos vêm até mim e só querem falar sobre ‘a minha asperger’ ou ‘o meu autismo’. Preferiria ouvir sobre ‘meu projeto de ciências’ ou ‘meu livro de histórias’ ou ‘o que eu quero ser quando crescer’. Quero conhecer seus interesses, seus pontos fortes, suas esperanças. Quero que elas tenham as mesmas vantagens e oportunidades que eu tive, tanto educacionais quanto no mercado de trabalho.

 “Encontro nos pais a mesma incapacidade de pensar nos pontos fortes das crianças e digo: ‘Do que seu filho gosta? Em que ele é bom?, e posso ver a perplexidade nos seus  rostos. Gostar? Ser bom em algo?

Nestes casos, sigo uma rotina. Qual é o assunto favorito de seu filho? Ele tem algum passatempo? Há alguma coisa que ele tenha feito — trabalho artístico, artesanato, qualquer coisa — que ele possa me mostrar? Às vezes leva um tempo para os pais perceberem que, na verdade, seu filho tem um talento ou um interesse.” (Temple Grandin)

Renata Wirthmann, psicanalista e professora da Universidade Federal de Catalão, é colaboradora do Jornal Opção.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.