A vida de Gilberto de Castro foi pautada por posições independentes e corajosas

O impagável Zil não era afeito às formalidades e era a mesmíssima pessoa em qualquer lugar. Teimoso, brigava com frequência para defender seu ponto de vista

Yuri Baiocchi

Especial para o Jornal Opção

Um tio adúltero ameaçou: — Gilberto, se você falar para sua mãe, para sua avó ou para sua tia que você me viu aqui, vai se ver comigo! Zil replicou, rápido e sutil: — Senhor, senhor, deve estar havendo algum engano. Eu não o conheço

Gilberto de Castro e sua mãe, Elsa de Castro Barbo| Foto: Facebook

Há cinco anos, um sujeito de altura mediana, gordo e engravatado, suando em bicas, tocava a campainha da casa de minha tia-avó Selene de Freitas, em Jaraguá e, com a voz rouca, perguntava:  — O Yuri por acaso está aqui?

Quem atendeu a porta respondeu que sim e, antes que a abrisse para a visita entrar, o sujeito passou espremido, todo afobado e encalorado casa adentro sem nenhuma cerimônia até dar de cara comigo e dizer:  — Mas eu não pensava que era tão menino assim não. E ainda usa uniforme de escola!

Sem saber de quem se tratava, fiz cara de espanto pelos próximos dez minutos em que ele explanou ininterruptamente sobre assuntos diversos até explicar quem era e o que queria comigo.

Ele havia ido até lá para me conhecer. Estava em Jaraguá para uma reunião representando o órgão do governo do Estado de Goiás onde trabalhava, a Juceg, e tirou um tempo depois do almoço para conhecer um primo décadas mais novo, de quem ouvia falar em Goiânia e alhures, contudo ainda não conhecia.

Gilberto de Castro com seu filho, Bruno: amigos | Foto: Facebook

Ele era o Zil, apelido que já me contaram uma vez de onde veio e que já me esqueci. Sei que a combinação “Zil fuzil” não o agradava e por isso mesmo eu repetia. Devemos ter morado na mesma época em Jaraguá, antes de eu me mudar pro Rio, só que não me recordo de vê-lo por lá. No entanto, lembro-me de sua mãe, dona Elsa de Castro Barbo, prima-irmã de minha bisavó dona Carmen Rios Baiocchi (98 anos) e quase vizinhas, na Rua do Rosário, em Jaraguá.

Eu já conhecia Regina, sua irmã, e tinha estado em sua fazenda, no município de Abadiânia, naquele mesmo ano. E também conhecia o Maurinho (Mauro Borges Teixeira Neto), sobrinho dele e filho de Regina. Assim que disse ser filho de dona Elsa e eu prontamente ter feito a ligação de que era irmão de Regina, vi nele muito do que já havia notado em Regina e que depois percebi nos outros irmãos: Denise, Rogério e Lenora (havia também o “Glads”, apelido de Alberto Gladstone, que não conheci por já ser falecido há anos), todos eles manifestam-se irrequietos, são extremamente comunicativos e inteligentes.

A mãe, dona Elsa, faleceu depois dos 90 anos extremamente lúcida e falante. Nas eleições, ligava para o ex-governador Marconi Perillo, de quem o filho Zil era amigo, para saber como estava indo a campanha e era atendida todas as vezes. Mulher avançada, foi chefe de gabinete de seu pai, Diógenes de Castro Ribeiro (o famoso Coronel Castrinho), quando este ocupou o Palácio Conde dos Arcos como governador de Goiás, já que era vice do médico humanista Dr. Brasil Ramos Caiado, que havia deixado o cargo por um tempo e que, mais tarde, cuidou do amigo Castrinho às vésperas de seu falecimento, ainda na casa dos 50 anos, em decorrência de enfermidade cardíaca.

Gilberto de Castro, com o filho Bruno, fazendo campanha política. Eles estão com Valéria Perillo | Foto: Facebook

Dona Elsa foi a única filha que o Coronel Castrinho viu casar. Duas outras filhas mais velhas chegaram a contrair noivado com moços de famílias ilustres da antiga capital, mas foram desmanchados por questões políticas. Ela, no entanto, se casou com um conterrâneo e parente sem pretensões políticas, o extraordinário engenheiro e matemático dr. Manoel Demósthenes Barbo de Siqueira (bisneto do pirenopolino comendador Manoel Barbo de Siqueira), formado pela reconhecida Escola de Engenharia Civil e de Minas de Ouro Preto.

Após se casarem, alugaram para morar a casa na qual minha bisavó nasceu e que pertencia à minha trisavó Rosa Ferreira Rios, tia de dona Elsa. Moraram nessa casa no final da Rua do Comércio, atual Rua Coronel Elias Fonseca, no Centro Histórico de Jaraguá, e que ainda está de pé, até se mudarem para Anápolis, em pleno “boom” dos negócios, tempo em que Anápolis viu grandes fortunas como a do Coronel Achiles de Pina, cuja filha Albertina Rosaura (Safia) se casaria com o irmão de dona Elsa, o deputado estadual Nelson de Castro Ribeiro.

Foi nessa época, em que Zil ainda não era nascido, que seu pai foi nomeado prefeito de Anápolis e, mais tarde, eleito deputado estadual com o apoio do núcleo familiar jaraguense que, com a morte do senador Tubertino Ferreira Rios (avô de dona Elsa e meu tetravô), em 1936, e do Coronel Castrinho (pai dela), em 1938, tinha ficado sem representante político dentro da família, motivo pelo qual teve o apoio da sogra, tia Nhola (Isaura Rios de Castro), filha do senador e viúva do ex-governador, falecida aos 103 anos e cuja mão foi beijada por Juscelino Kubitschek de Oliveira e Pedro Ludovico Teixeira depois de acordos que lhes rendeu a eleição.

O advogado Gilberto de Castro na Juceg, onde trabalhou| Foto: Facebook

Foi por ocasião da eleição do dr. Manoel Demósthenes, na década de 1950, que o dr. Pedro Ludovico rompeu as ligações políticas estabelecidas com nossa família — logo após a Revolução de 30 — e passou o partido para os Freitas, nossos parentes próximos, só a retomando anos mais tarde e por um curto período. Por ironia do destino, um neto do dr. Pedro se casaria décadas depois com uma filha do dr. Manoel Demósthenes e teria dois filhos, dividindo ao meio a igreja onde fora celebrado o casamento, de um lado a nata da UDN e, do outro, a nata do PSD, bem como uma outra neta do dr. Pedro também se casaria com um filho do dr. José Peixoto da Silveira e da jaraguense dona Galiana de Freitas Rios.

O dr. Manoel Demósthenes, pai de Zil, sempre adotou uma postura independente de seus cunhados Nelson de Castro, Sílvio de Castro e José Fleury. Seus cargos políticos foram conquistados pelo talento, inteligência e influência próprios, assumindo ainda os cargos de secretário de governo do Distrito Federal, diretor do BEG, presidente do Goiás Rural, dentre outros. E seu filho Gilberto George de Castro Barbo, o Zil, fez-se igualmente importante pelas mesmas qualidades — sem precisar da sombra da árvore genealógica.

Quem conhece um pouco de Jaraguá sabe da enorme rivalidade política que existiu entre as famílias Freitas e Castro, mas pode não saber que ambos são parentes próximos, netos e bisnetos do coronel Tubertino Ferreira Rios. A rixa se estendeu por bem mais de meio século e, com os muitos embates, os motivos foram ficando cada vez mais diversos. Poucos foram os integrantes de uma e de outra ala que não assumiram o compromisso de odiar o lado de lá. Zil foi um desses, desde novo transitava e era amigo, com o aval do pai, dos primos do outro partido. Uma vez, quando Eugênio Alano Machado de Freitas, ex-deputado federal e amigo de Zil, foi candidato à Prefeitura de Jaraguá contra um outro indicado pelo cacique Nelson de Castro, tio de Zil, o sobrinho não pensou duas vezes e, malgrado a pressão exercida pelo tio e, como ele mesmo me dizia, rejeitou o cabresto e votou em Alano, que ganhou a eleição, tendo feito ótima administração.

Gilberto de Castro com amigos, aos quais era leal | Foto: Facebook

Essas posições independentes e corajosas pautaram sua vida particular e também a pública. Quem o conheceu nos cargos que ocupou, no Bar Mercatto ou nas ruas de Jaraguá, sabe bem que nunca foi afeito às formalidades e que era a mesmíssima pessoa em todos os lugares. Teimoso, brigava com frequência para defender seu ponto de vista, há pouco brigou com o religioso (?) João de Deus, numa questão de limite de terras, em Jaraguá, falando barbaridades ao curandeiro. Não cedia nunca, era birrento. A família toda é birrenta, eu também sou.

Uma outra vez, depois de uns episódios autoritários contra o produtivo setor de confecções de Jaraguá, colocou o dedo na cara de uma autoridade, partiu para a briga e tanto fez que, não sei como, conseguiu a transferência da mesma autoridade para outro lugar. Exigia que respeitassem o povo da cidade. Sem papas na língua, falava coisas que desconcertavam o sujeito mais sem-vergonha, por isso foram muitas as vezes que pediram sua cabeça para o ex-governador Marconi Perillo, que nunca a entregou, mesmo quando era desacatado pelo amigo.

Nesse curto tempo de convivência, brigou comigo duas vezes, que eu saiba. Acho que devia gostar de mim, já que logo se esquecia da briga, muitas vezes sem nem eu saber que estava de mal, e sempre me ligava no meu aniversário.

Gilberto de Castro com amigas | Foto: Facebook

Nos encontramos pela última vez no dia 10 de fevereiro, no banco, em Jaraguá, quando quis furar a fila, mas não colou. Então se sentou ao meu lado e, assim como eu, ficou esperando sua senha ser chamada enquanto reclamava de um primo que passou por ele e que não o cumprimentou, mas depois de me dizer o que ele fez para esse primo e eu ter dado razão ao primo, ficou sem graça e mudou de assunto. Assim era o Zil.

Duas primas criaram um grupo para passar as notícias do hospital onde ele esteve internado. Zil estava brigado com muitos do grupo, no entanto ninguém se furtou de atendê-lo e todos perguntavam sobre seu estado de saúde. Coisa bonita de se ver. Pode ser que ele às vezes se empenhasse em ser inimigo, mas não conseguia prolongar por muito tempo, pois sua vocação era mesmo para ser amigo e todos se afeiçoavam a ele.

Só nunca o vi reclamar de uma pessoa: do Bruno. Sobre o Bruno ele só falava coisas boas e sempre repetia o quanto ele se orgulhava em dizer que era o pai do Bruno e que o Bruno é ótimo fotógrafo e gosta de aviões. Passavam a imagem de uma família feliz, os dois. Eram os melhores companheiros um do outro.

Gilberto de Castro, o Zil: falecido em março de 2020 | Foto: Facebook

E é por isso tudo que este obituário que o Euler de França Belém pediu que eu escrevesse não fala em morte, mas de vida, pois, por mais que eu já esteja me referindo a ele no passado, estas linhas não trazem nenhuma melancolia.

Zil saiu do nosso convívio de repente, como costumava sair de situações difíceis como a vez em que, menor de idade e já frequentador do Café Central, em Goiânia,  encontrou um tio casado namorando outra mulher por lá e fugiu para o banheiro, mas acabou sendo alcançado e ouvindo o seguinte:  — Gilberto, se você falar para sua mãe, para sua avó ou para sua tia que você me viu aqui, vai se ver comigo!

Ao que Zil respondeu enquanto urinava:  — Senhor, senhor, deve estar havendo algum engano. Eu não o conheço.

Se me perguntarem por Gilberto ou Gilberto George eu também não conheceria de pronto, mas Zil só conheço um, cujo inventário, e não obituário como me pediram para fazer, já está sendo contabilizado em parcelas de saudade.

Yuri Baiocchi é primo do Zil.

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