Euler de França Belém
Euler de França Belém

A quarentena do poeta Keats na Itália por causa do tifo

Em cartas, fala de sua luta contra a tuberculose, de seu amor por Fanny Brawne e acaba morrendo em Roma, aos 25 anos

Johh Keats: poeta britânico | Retrato: Reprodução

O poeta romântico John Keats teve uma puta sorte: sua criação literária foi traduzida para a Língua Portuguesa pela finura de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Augusto de Campos, Alberto Marsicano, John Milton, Abgar Renault, Ivo Barroso, entre outros. Mas quem tem sorte mesmo somos nós, pois o bardo britânico morreu em 1821, aos 25 anos, e nós, ainda que menos “vivos”, espiritualmente, do que ele, estamos em pé, sobre a Terra, a mesma que, um dia, nos transformará em pó, como fez com o vate da Inglaterra.

No sábado, 23, o jornal “Abc”, da Espanha, publicou um interessante texto, “John Keats: o poeta que passou uma quarentena em Nápoles escrevendo sobre o amor”, assinada por Juan Carlos Delgado.

Poeta de Keats, em tradução de Ivo Barroso… leia mais a seguir | Foto: Jornal Opção

O “Abc” relata que, em outubro de 1820, poucos meses antes de morrer, Keats, fugindo do frio na Inglaterra, viajou para a Itália, em busca de dias ensolarados. “Itália, paraíso terreno, templo da beleza, esperança de uma vida melhor”, anota o jornal. Tuberculoso, o poeta buscava um clima adequado que pudesse ajudá-lo a melhorar. Não estava nada bem, tossia e saía sangue. A morte parecia caçá-lo de maneira impenitente. “Quiçá o sol, talvez o sol, poderia mudar as coisas”, certamente pensava o poeta, no registro de Delgado.

Trecho final do poema “Ode sobre uma Urna Grega” | Foto: Jornal Opção

Keats viajou ao lado de um amigo, o artista Joseph Severn, no navio Maria Crowther. Nápoles se põe de prontidão, com receio de doentes, da contaminação. “A história se repete, mas com nomes diferentes: desta vez o medo se chama tifo, e a quarentena dura dez dias. Uma quarentena, isto sim, com vistas para o mar, e o Vesúvio bem próximo: outro grande memento mori”, assinala o “Abc”.

Poema de Keats, em tradução de Augusto de Campos | Foto: Jornal Opção

Confinado, Keats escreve para a mãe de Fanny Brawne, sua amada: “Umas poucas palavras lhe direi sobre a viagem e em que situação nos encontramos, e poucas devem ser por causa da quarentena, já que nossas cartas poderão ser abertas com o fim de fumigação num escritório do setor de saúde. Tivemos de permanecer no barco por dez dias. O ar do mar tem sido benéfico para mim, numa medida tão grande quanto o mau tempo, o alojamento e as provisões ruins têm colaborado para piorar minha saúde. Assim, estou como estava”. Ou seja, muito mal.

Depois de contar sobre sua má saúde, Keats fala de Fanny: “Não me atrevo a pensar em Fanny, não tenho me atrevido a pensar nela. A única coisa que me tenho permitido é pensar, durante horas, na faca que me presenteou numa bainha prateada, seu cabelo em um medalhão e a bolsa em uma redinha dourada”. Em seguida, faz duas declarações de amor. Primeira: “Posso suportar morrer, não posso suportar deixá-la. Oh Deus! Oh Deus! Oh Deus! Tudo o que tenho são minhas roupas de baixo”. Segunda: “Diga a Fanny que a quero”. O bardo amava a jovem, fisicamente e como inspiração.

A carta, datada de 1º de novembro de 1820, é “a única que sobreviveu ao período do confinamento”. “Mais tarde, em terra firme, porém ainda em Nápoles”, Keats “voltou a escrever para a mãe de Fanny: ‘Tenho medo de escrever-lhe, de receber uma carta dela, de ver que sua letra me romperia o coração. Ver seu nome escrito seria mais do que posso suportar’”.

Trecho final do poema Ode a um Rouxinol, na tradução de Augusto de Campos | Foto: Jornal Opção

“O resto da história é trágica”, frisa Delgado. “De Nápoles”, Keats vai “para Roma”, onde “sua doença se agrava e termina matando-o. Às quatro da tarde de 23 de fevereiro de 1821 pronuncia suas últimas palavras, dirigidas ao seu amigo Joseph Severn: ‘Severn, eu… junte-se a mim… eu estou morrendo… morrerei tranquilamente… Não se assuste… seja forte… e graças a Deus que isto está se acabando’”.

Keats está enterrado num cemitério protestante em Roma. “Se despediu, claro, com poesia, com este epitáfio: ‘Aqui jaz alguém cujo nome foi escrito na água”.

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