A psicanálise (e a função social do analista) em tempos de pandemia

Estar omisso é reservar para si a letra da irresponsabilidade com um mundo que nos acolheu enquanto espécie e com a sociedade que nos absorveu como sujeitos

Diego A. Moraes Carvalho

Especial para o Jornal Opção

A pergunta pelo que será [d]o um mundo pós-pandemia cada dia mais ganha reforço de urgência. Já não se espera mais voltar ao que era, até porque nem sempre ali havia um bom lugar e questionar sobre o amanhã parece ser o que nos resta quando o presente é incerto, e, aparentemente, de difícil [di]gestão. E é justamente neste contexto que campos da cultura são chamados a darem seus testemunhos e exercerem seus predicados de protofuturologia abarcados por dados e uma certa metodologia. Nós nos fiamos nisso. Afinal, foracluídos e apartados desses referenciais, o que nos resta é um “cloroquinopensar” que tem como efeito imediato a produção de um delírio que conforta [entorpece?] na medida em que elege a realidade como inimiga.

Pintura de Tommy Ingberg

A psicanálise, por sua dupla acepção — como espaço da clínica que ausculta o sofrimento psíquico e como um tipo de ciência da linguagem que investiga os processos inconscientes que se desenrolam na teia social — é convidada a se posicionar nesse grande zeitgeist, espírito de nossa época: o mundo pandêmico.

Considerando essa condição de ser da psicanálise (e daquele que se autoriza como psicanalista), uma questão sensível e central se desvela: qual seria o seu papel como instância do saber ou agente capaz de atuar em tempos de pandemia? Outras indagações de análogo teor emergem: o que poderia a clínica — face ao seu suposto dispositivo psicoterápico — ofertar para aplacar o sofrimento psíquico das pessoas isoladas e desesperançadas pelo assolamento viral? Dada a dimensão da psicanálise enquanto dispositivo crítico, seria ela capaz de, além de meramente ofertar um diagnóstico psicopatológico do social, também emergir como uma indicação de reordenamento da sociedade e de seus afetos?

A resposta para todas as questões é um sonoro “sim” — que não dispensa aspas.

Por obviedade, o momento é sensível e inigualável em nossa história. Já tivemos outras epidemias e outras necropolíticas no mundo — para usar o termo do historiador e filósofo africano Acchile Mbembe. Mas, pela primeira vez, as informações e os patógenos correm em velocidade comum, atravessando continentes e enterrando nossos entes e esperanças com uma força assombrosamente globalizante (ou seria neoliberalizante?). Posicionar-se frente a isso não é somente uma convocação clínica e epistemológica do ponto de vista acadêmico e/ou profissional, é um dever humano. Parafraseando a filósofa judia-alemã Hannah Arendt (1906-1975), vivemos em tempos sombrios quando as piores pessoas perdem o medo e as melhoras se destituem da esperança. Não é tão-somente a ousadia do carrasco, mas a banalidade do burguês conformado que o torna tão criminoso quanto o primeiro. Ou, em termos dantescos, o inferno reserva as caldeiras mais quentes àqueles que em tempos de crise escolheram a neutralidade. Estar omisso — clínica, acadêmica, política, econômica, espiritualmente —, num momento como este, é reservar para si a letra da irresponsabilidade com um mundo que nos acolheu enquanto espécie e com a sociedade que nos absorveu como sujeitos.

Enfermeiros: luta para salvar vidas em tempo de novo coronavírus | Foto: Reprodução

Neste contexto, cabe ao psicanalista usar a teoria psicanalítica para exercer, em termos arendtianos, uma “mentalidade alargada” sobre o tempo presente, pois, da metapsicologia freudiana e seus textos ditos sociais até os debates mais contemporâneos acerca da subjetificação (subnotificação?) dos corpos e do (curto-)circuito dos afetos, o analista é convocado a mobilizar seus referenciais em prol dessa inscrição no mundo comum. Talvez, mais do que certos campos do saber e da clínica, a psicanálise tem [cons]ciência de sua potência interpretativa e transformadora. Sua historicidade testemunha seu condão. A teoria e a clínica psicanalítica atravessaram o século 20 em oposição ao caráter de panaceia do discurso de medicamentalização do sofrimento pela via da psiquiatria convencional. Nesse sentido, foi capaz de rever seus postulados, o papel dos processos inconscientes, da sexualidade, da psicopatologia, da mulher e da própria compreensão do que entendemos por ciência e linguagem.

De igual sorte, os eventos políticos não passaram incólumes, inscrevendo os psicanalistas de toda ordem a se posicionarem frente ao seu tempo. Da primeira Grande Guerra (1914-1918) ao maio de 68 francês, dos porões do Dops ao desvendar das Comissões de Verdade no Brasil, a comunidade psicanalítica sempre foi convocada a fazer do espaços que lhe constituem — do divã à tribuna da opinião pública — as trincheiras de uma guerra que não cessa toda vez que as contingências do superego são colonizadas por discursos e atravessamentos autoritários que solapam a liberdade e o desejo. Embora — com justeza e crítica histórica — nossos psicanalistas tupiniquins não tenham exercido majoritariamente um posicionamento de embate, nos anos de chumbo, contra o regime militar autoritário nacional, não obstante, as armas dessa beligerância (ora) simbólica já estão forjadas na dupla potencialidade que a psicanálise encarna em si: a acolhida na escuta qualificada e/ou o dever para com a urgência da inscrição da palavra na cena social.

Foto: Reprodução

A trama da singularidade e o recobrar de seu significado

O corte lógico nunca foi apenas um dispositivo técnico de intervenção do analista, mas também uma metáfora de ação política quando há a necessidade de se fazer ouvir o grito do inconsciente na esfera pública. Ser psicanalista nunca foi tão-somente se sentar ao lado de um divã, passivo, frente às queixas subjetivas e lamuriosas dos analisandos à espera de um insight resolutivo. Se a dor é (consequência de um) sintoma, é preciso “ouvi-lo” antes de ter a pretensão de removê-lo [cura?] a fim de que ele revele a que — e de onde — veio. Daí emerge o papel do analista que faz as vias de um demiurgo entre a esfera subjetiva e o socius que produziu e transmutou aquele indivíduo em sujeito. (De)cifrar aquele que ali desnuda sua alma no divã é tecer junto com ele a trama de sua singularidade, recobrando o seu significado e pertencimento no mundo. E isso não é pouca coisa.

Certa feita, o psicanalista francês Jacques Lacan asseverou que, caso os seus pares não se sintonizassem com seu tempo, deveriam procurar outras atividades que os contemplassem. Um convite de permanência para a alcançar — na clínica e na reflexão — o horizonte de subjetividade de sua época; um imperativo de exigência que faz o analista se responsabilizar por suas ações, especialmente, por suas palavras em sua potência no registro da ordem simbólica.

Nesse momento tão conturbado, o psicanalista é instado a abrir as portas de seu consultório a toda sorte de sofrimentos que lhe batem à porta, sejam essas dores aquelas nas quais as pessoas projetam sua própria limitação, categorizando-as como banais, sejam aquelas que gritam de tal modo que seus corpos trazem as marcas de seu próprio martírio. Ainda, sejam as portas desse consultório a sala elegante em um bairro nobre com todos os clichês de como (disseram que) deve ser um setting psicanalítico, seja o banquinho de praia instalado numa praça pública aguardando um transeunte que se mobiliza e encontra ali um refrigério para alma por meio da partilha da palavra.

Psicanálise na Rua, em Brasília | Foto: Correio Braziliense

Projetos como os do coletivo “Psicanálise na Praça Roosevelt”, em São Paulo, ou em Brasília, desde os anos 90, com a iniciativa conhecida como “Consultório de Rua” até o recente “Psicanálise de Rua”, se apresentam como formas de democratizar o acesso à clínica psicanalítica. Não se trata de caridade, mas, antes, de se articular uma proposta de intervenção enquanto resposta ao momento de vulnerabilidade psíquica e social que o país vem atravessando. Amplia-se o espaço de escuta qualificada para além do reduto burocratizado e, em certa medida, elitista dos consultórios tradicionais. Em tempos de isolamento social, o meio virtual abarca propostas também inovadoras e inclusivas, guardadas as proporções de alcance e acessibilidade tecnológicas. Em Goiânia, um projeto está apostando no atendimento a distância enquanto um interessante dispositivo dentro das práticas ligadas à reorganização do espaço urbano. Inspirada por uma iniciativa carioca chamada “Urbanismo contra o Corona”, a proposta visa permitir o acesso de pessoas que dificilmente chegariam à clínica pelas vias convencionais. Ainda em fase de estruturação, a proposta se desenvolverá em caráter interdisciplinar, contando com vários outros serviços e frentes de colaboração e estudo.

É fato que, acima qualquer prática respeitável de psicoterapia, a psicanálise, mais do que nunca, se apresenta — por força de método e historicidade — como uma instância privilegiada de acolhida e intervenção naquilo que as pessoas mais se queixam e demandam nesses tempos: serem ouvidas e auxiliadas a simbolizarem, a darem nome ao que as angustiam para, quem sabe, a partir daí, reconstruírem esse presente vislumbrando um novo amanhã, já que os “antigos porvires” não estarão mais no horizonte de expectativas do mundo pós-pandemia. A clínica psicanalítica cresce em potência e privilégio à medida que seus agentes assumem responsabilidades filosóficas, políticas e clínicas. E o caminho é árduo. Não há cloroquina para o Real, mas há divã para quem respeita a sua humanidade.

Diego A. Moraes Carvalho é professor-pós-doc no IFG/UFG e membro do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise do Centro Oeste (Latesfip-Cerrado). Coordena o Grupo de Estudos Avançados em Teoria e Clínica Psicanalítica – GO (GEA-TCP).

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