Euler de França Belém
Euler de França Belém

A história dos portugueses que lutaram para libertar a França do domínio nazista

Ao menos 360 indivíduos lutaram na Resistência Francesa e contribuíram para expulsar as tropas de Hitler

O livro “Combatientes en la Sombra — La Historia Definitiva de la Resistencia Francesa” (Taurus, 645 páginas, tradução de Federico Corriente), de Robert Gildea, conta uma história que os filhos da terra do presidente Charles de Gaulle não apreciam ouvir. O professor da Universidade de Oxford assinala que “a Resistência Francesa mobilizou só uma minoria de franceses. (…) Ao ter menos que perder e menos locais para se esconderem, os comunistas, os judeus e os estrangeiros tinham maiores incentivos para resistir que o francês médio. (…) Seria mais acertado falar não tanto da Resistência ‘Francesa’, e sim da Resistência na França”. O capítulo 8, “Sangue ajena” (sangue alheio), trata da batalha dos não-franceses contra o nazismo da Alemanha de Adolf Hitler. É uma grande história da luta pela democracia na terra de Flaubert e Proust.

Concordando com Robert Gildea, o jornalista português José Manuel Barata-Feyo decidiu pesquisar a participação de portugueses na Resistência Francesa. De cara, descobriu 360 pessoas. Mas há indícios de que o número de resistentes pode passar de 500. “Na altura, havia em França entre vinte e cinco e trinta mil portugueses. Cerca de 1,5% resistiu, ou seja, sensivelmente o dobro da percentagem de franceses. (…) Proporcionalmente, houve mais portugueses que franceses a combater os nazis.” O resultado de sua pesquisa está no livro “A Sombra dos Heróis — A História Desconhecida dos Resistentes Portugueses Que Lutaram Contra o Nazismo” (Clube do Autor, 320 páginas).

No domingo, 5, José Manuel concedeu entrevista ao jornalista João Céu e Silva, do “Diário de Notícias”, de Portugal.

O grau de colaboracionismo na França foi alto, até muito alto — e há livros revelando que parte dos franceses se adaptou, com certa facilidade, ao autoritarismo dos nazistas. O mais conhecido no Brasil é “Paris: A Festa Continuou — A Vida Cultural Durante a Ocupação Nazista, 1940-4” (Companhia das Letras, 464 páginas, tradução de Celso Nogueira e Rejane Rubino), de Alan Riding. Depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), vários franceses foram presos e alguns — inclusive intelectuais; o escritor Pierre Drieu la Rochelle, autor do romance “Fogo Fátuo”, preferiu se matar — foram condenados à pena de morte. José Manuel nota que “alguns documentos foram considerados secretos durante 70 anos, até 2014”. Como Robert Gildea, o repórter assinala que “esconder” ou não ressaltar, ainda que parcialmente, a participação estrangeira na Resistência tem a ver com uma “opção política”. “A França estava traumatizada pela derrota de 1940 e pela resignação generalizada dos franceses durante a ocupação alemã. Na hora da vitória, numa perspectiva de futuro e de ‘colar os cacos’, De Gaulle quis enfatizar sobretudo o papel dos soldados e o dos Resistentes franceses”. Afinal, segundo o líder político e militar, “Paris” foi “libertada com a participação da França inteira”. Uma mentirinha que, na verdade, é uma mentirona.

Rocha da Silva, português que lutou pela libertação da França| Reprodução

Depois de lutar na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), brasileiros, como o extraordinário comunista Apolonio de Carvalho (confira abaixo link para uma resenha de seu livro “Vale a Pena Sonhar”), também lutaram na Resistência Francesa, mas suas histórias são praticamente desconhecidas. José Manuel registra que “a França reconheceu individualmente o mérito dos portugueses que resistiram à ocupação nazi, atribuindo-lhes condecorações e honrarias no pós-guerra”. Porém, se os demais resistentes, como espanhóis, poloneses, armênios e judeus, tiveram suas histórias examinadas, a “os portugueses”, como os brasileiros, “nunca foram objeto de estudo e análise por parte dos historiadores que se debruçaram sobre esse período. Nem em França, nem em Portugal”.

Não foi fácil fazer a pesquisa. “Não há rastro de portugueses em lado algum, nem em França, nem em Portugal. Os casos estudados e publicados entre nós remetem para os portugueses ‘coitadinhos’, atirados para os campos de concentração nazis. Não encontrei uma única linha sobre os que se ergueram e combateram, tantas vezes acompanhados apenas pela sua consciência e pelas suas convicções. Depois tratou-se de consultar e fotografar milhares de documentos nos arquivos do Ministério da Defesa francês, em Paris, interpretá-los e classificá-los de acordo com o critério que me pareceu mais justo e adequado.”

António Baltazar, português que lutou na Resistência Francesa | Reprodução

José Manuel frisa que “os portugueses estavam espalhados pelo território francês e resistiram nas cidades e nos campos onde trabalhavam e viviam”. Os “guerrilheiros”, destaca o pesquisador, “não tinham ilusões românticas sobre a” batalha. ‘Haviam sofrido na pele as suas piores abominações e, ainda assim, voltaram a pegar em armas e a combater”.

Portugueses combateram alemães na França e estiveram com De Gaulle na Inglaterra e na África do Norte. O pedreiro Rogério Flores começou como soldado e se tornou capitão do exército francês. “Recebeu as mais altas condecorações militares francesas por feitos em combate e foi homenageado de uma forma muito invulgar.”

Leia sobre brasileiro que participou da Resistência Francesa

Apolonio de Carvalho, o brasileiro que lutou na Guerra Civil Espanhola e na Resistência Francesa¹

 

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