A Gripe Espanhola matou de 17 a 50 milhões de pessoas e abalou o mundo

Não se sabe com precisão em qual país a doença surgiu. Fala-se na China, na Espanha e nos Estados Unidos

Ademir Luiz

Especial para o Jornal Opção

Pacientes de Gripe Espanhola num galpão | Foto: Reprodução

De tempos em tempos, alguns fanáticos tendem a bradar aos quatro ventos que os sinais do armagedon bíblico estão se manifestando e que a única saída é o arrependimento, pois o fim do mundo é certo. Falam dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse como se fossem suas amigas íntimas: a Guerra, a Fome, a Morte e a Peste. Não é raro que multidões de pecadores conversos os sigam em suas alucinações apocalípticas. Mas, é sempre assim, passados os momentos críticos, faz-se silêncio, tudo volta ao normal e a Terra continua girando no vazio como tem, monotonamente, feito nos últimos bilhões de anos. Essa masoquista, e, por que não, cômica, ansiedade pelo final dos tempos é uma característica latente do espírito humano. Não faz nenhum sentido, óbvio, mas existe e é bastante forte. Porém, se houve uma ocasião em que tais devaneios pareceram fazer algum sentido, a ponto de impressionar os espíritos mais céticos, foi em 1918, o fatídico ano da Gripe Espanhola: praga que matou milhões de pessoas ao redor do globo.

Os tempos eram difíceis. Terminava a Primeira Grande Guerra Mundial (1914-1918). Seria o cavaleiro da Guerra? Fosse ou não fosse, trazia a reboque uma carnificina jamais vista; nunca morreram tantos em tão pouco tempo. O cavaleiro da Morte espreitava? O terceiro, a Fome, mostrava-se em sua mais cruel face, tanto nas trincheiras quanto nas cidades em ruínas. Em meio a esse cenário desolador, o quarto cavaleiro, a Peste, apareceu do nada, na forma de uma misteriosa doença identificada como uma espécie de gripe. Surgiu em duas ondas. A primeira ocorreu na primavera de 1918, e, sendo banal, foi praticamente ignorada. Tendo causado consternação na cidade turística espanhola de San Sebastián, cujas autoridades mostraram preocupação com a debandada dos turistas, a enfermidade recebeu o apelido de Gripe Espanhola. A segunda onda veio no outono, bem diferente: monstruosa, assassina, letal. Estranhamente, depois de alguns meses e incontáveis vítimas, desapareceu sem deixar vestígios. Um mistério intrigante. Um mistério digno de Sherlock Holmes.

Pois é exatamente esse improvável clima detetivesco que dá tom ao livro “Gripe — A História da Pandemia de 1918” (Record, 384 páginas), da jornalista (formada em biologia) norte-americana Gina Kolata, de 72 anos. A autora é repórter de ciências do jornal “New York Times”, tendo vasta experiência em escrever textos científicos em linguagem clara, jornalística, dirigidos ao público leigo. É o que fez em seus livros anteriores, incluindo um sobre a clonagem, e também neste. A intenção de produzir uma investigação fica clara logo na epígrafe da obra, citada de um famoso patologista molecular, doutor Jeffery Taubenberger: “Esta é uma história policial. Há cerca de 80 anos houve um assassinato em massa que jamais foi levado à justiça. E o que estamos tentando fazer aqui é encontrar o assassino”. Assim, munida de vasto material de pesquisa, a consultoria das maiores autoridades no assunto e grande capacidade narrativa, Gina Kolata produziu um texto surpreendente em que segue as pegadas da Gripe Espanhola antes de seu ataque em 1918 e depois dele, nas pesquisas posteriores que procuraram desvendar o que afinal aconteceu naquele ano trágico. Além disso, procura vislumbrar as possibilidades futuras da humanidade ser novamente atacada por uma praga daquelas proporções e o que pode ser feito para evitar uma nova tragédia. O livro, lançado originalmente em 1999 e traduzido para o português em 2002, em tempos de gripe Suína, está cada vez mais atual — agora que estamos às voltas com o novo coronavírus.

Gina Kolata: jornalista com formação na área de biologia | Foto: Reprodução

Matou mais adulto do que idosos e crianças

Existem poucas certezas sobre a gripe espanhola. O que se sabe é que foi cerca de vinte vezes mais forte do que uma ocorrência comum. As razões dessa potência monstruosa permanecem no ramo das especulações. Um dos motivos para a ignorância é logístico: no começo do século 20 sequer se sabia da existência dos vírus, descobertos com a invenção dos microscópios eletrônicos. Foi impossível estudar devidamente o agente disseminador da gripe na época. Encerrada a pandemia, o vírus, aparentemente, extinguiu-se.

Durante muitos anos, a explicação mais difundida para a origem do surto foi a de que surgiu a partir da queima de esterco de porco nas proximidades de um alojamento militar onde alguns soldados encontravam-se resfriados. Hoje, os especialistas esnobam tal teoria, afirmando que não passa de “uma bobagem”. Em seu lugar, apontam diferentes hipóteses: a mais aceita parece ser a de que teria evoluído ao longo de cinquenta anos a partir da combinação de vírus presentes no organismo de crianças e pássaros na China. Outra hipótese é a de que se originou de uma gripe suína. Os porcos estão sempre presentes na investigação. Seriam eles o “mordomo”?

Uma particularidade da Gripe Espanhola foi a de que ela matou muito mais adultos do que idosos e crianças, as vítimas mais comuns das gripes. As trincheiras da guerra, repletas de soldados jovens e saudáveis, converteram-se em verdadeiros matadouros. A razão para esse fenômeno não é um mistério. Ao menos aqui, pisa-se no terreno das certezas. Tudo indica que aqueles que contraíram a doença na primeira onda de 1918, na maioria idosos e crianças, desenvolveram anticorpos que os protegeram contra sua mutação fatal.

Após anos de pesquisas labirínticas, com poucos resultados conclusivos, em 1996, o avanço dos estudos sobre a gripe teve um salto com a descoberta, no Alasca, das covas de sete trabalhadores noruegueses que morreram da gripe. Seus cadáveres se conservaram muito bem devido ao frio da região e, como se esperava, as pistas deixadas pelo vírus assassino também. Todo cuidado era pouco. Não se chegou a descartar a possibilidade de que, acidentalmente, a autopsia dos corpos provocasse um novo surto, ao melhor estilo dos filmes de ficção científica de Hollywood, tais como “Alien — O 8º Passageiro” ou “Enigma do Outro Mundo”. Não foi o caso. Os cientistas identificaram o vírus, mas não puderam constatar como ele agiu em 1918. Nas palavras de Taubenberger, “temos definitivamente o suspeito correto, mas ainda não sabemos como o assassinato foi cometido”.  Ou seja: o caso não está encerrado.

Apesar de não ser conclusivo, “Gripe” é um livro interessantíssimo. Sobretudo pela forma com que a autora transforma as pessoas envolvidas no caso, vítimas e cientistas, em verdadeiros personagens de ficção policial. Com a vantagem de serem naturalmente tridimensionais, muito mais críveis do que a média das figuras caricaturescas que costumam inundar o gênero. Enfim, sendo o americano Edgar Allan Poe o inventor da moderna novela policial, certamente ele não se envergonharia da obra de Kolata. Sobretudo, porque os métodos de seu assassino não são tão espalhafatosos como os de um orangotango, nem tão dramáticos como os de um cão fantasmagórico sherloquiano. Tampouco está escondido à vista de todos: sequer pode ser observado a olho nu. O vírus da Gripe Espanhola, apesar de destrutivo, é sutil e frágil. Em sua captura nada é elementar.

Gripe pode ter surgido na China, na França ou nos Estados Unidos

Não há números precisos de quantas pessoas morreram de Gripe Espanhola — que, a rigor, não surgiu na Espanha — e as estatísticas variam de 17 milhões a 50 milhões. Há quem fale até em 100 milhões. Em 1918 — há cento e dois anos —, poucos países tinham condições de notificar tecnicamente, com precisão, os dados sobre a doença. Por isso, os vários números, e com diferenças gritantes.

Não se sabe com precisão em que país se originou a Gripe Espanhola. Na Espanha, é certo, não foi. Aliás, os espanhóis a chamavam de “Gripe Francesa”. Há várias “teorias”, bancadas por cientistas, sobre qual país deu origem à gripe. Fale-se na China, Espanha, França e Estados Unidos (no Estado do Kansa).

No Brasil a vítima mais famosa foi o presidente Rodrigues Alves, que morreu, em 1919, aos 70 anos. Ele havia sido eleito para um segundo mandato, mas não assumiu.

Ademir Luiz é presidente da União Brasileira de Escritores de Goiás e professor da Universidade Estadual de Goiás.

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