A breve fase de ouro da imprensa goiana nos anos 1930 culmina na fundação da AGI

Aqueles raros jornais goianos que se atreviam a levantar algum questionamento aos atos oficiais restavam submetidos ao guante da censura, quando não empastelados

Jales Guedes Coelho Mendonça                                                                    

Especial para o Jornal Opção

A criação da Associação Goiana de Imprensa (AGI) em setembro de 1934 está inserida em um contexto histórico de retomada da liberdade de expressão no Brasil ante a promulgação da Constituição Federal em 16 de julho do aludido ano, bem como da fixação das eleições de 14 de outubro de 1934 para a Câmara dos Deputados e a Assembleia Constituinte Estadual, palco que elegeria indiretamente o novo governador, dois senadores da República e selaria ainda o destino da mudança da capital de Goiás, embora o local já estivesse escolhido e as obras iniciadas desde o ano anterior (1933).

Jornal “O Estado de Goyaz” sediado em Uberlândia

Com a vitória do movimento revolucionário em outubro de 1930, o Partido Democrata — agremiação estadual que dominava a política goiana desde 1909 — foi apeado do poder e o seu principal expoente, Antônio Ramos Caiado, preso e enviado ao Rio de Janeiro, de onde só retornaria em abril de 1932. O jornal “O Democrata”, de propriedade do citado oligarca, que publicara regularmente suas edições semanais desde 1917, estampou seu último exemplar no dia 24 de outubro de 1930, quando não pôde mais circular.

Em 1931, o ex-deputado federal César da Cunha Bastos ainda tentou republicá-lo, não obtendo, contudo, êxito diante da conjuntura autoritária vigente. Esse insucesso certamente reforçou nele a percepção de que o melhor caminho para os chamados “decaídos” seria abandonar Goiás. Transferindo-se inicialmente para Minas Gerais e depois Mato Grosso, Cunha Bastos regressou ao Estado apenas em 1945, após a queda da ditadura getulista/ludoviquista. A propósito, vale relembrar que Pedro Ludovico, nomeado interventor federal em 1930, permaneceu ininterruptamente no governo de Goiás durante os quinze anos do consulado de Getúlio Vargas.

No período que medeia da Revolução de 1930 à promulgação da Constituição Federal de 1934, a vida da imprensa crítica aos novos donos do poder não foi fácil no Brasil e particularmente em Goiás. Aqueles raríssimos jornais goianos que se atreviam a levantar algum questionamento aos atos oficiais restavam logo submetidos ao guante da censura, quando não empastelados.

Nesse sentido, o periódico “O Estado de Goyaz” espelha o melhor exemplo. Fundado pelo jornalista José Ayube em dezembro de 1932, na cidade de Pires do Rio (GO), e redatoriado pelo advogado José Pereira Zeka, o veículo de comunicação, mesmo apresentando uma linguagem serena, adequada à institucionalidade discricionária então em vigor — sobretudo se comparada ao estilo agressivo adotado pela “Voz do Povo” (Cidade de Goiás) entre 1927 a 1930 —, acabou censurado logo em seu terceiro número pela polícia, representada pelo capitão Antônio Neves.

Na sequência, o jornal teve suas oficinas invadidas e foi impedido de circular, o que gerou um protesto do presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) ao interventor federal de Goiás, assim respondido: “Atendendo à solicitação desse digno sodalício, determinei a reabertura ‘d’O Estado de Goyaz’ de Pires do Rio, no interior deste Estado, que estava usando linguagem violentíssima. Saudações atenciosas — Pedro Ludovico”. O teor do telegrama divulgado pela “Folha da Manhã”, de São Paulo, em 22 de janeiro de 1933, não deixa dúvida sobre a real autoridade censória.

Retomando suas atividades, “O Estado de Goyaz” limitou-se a responder laconicamente o comentário ludoviquista: “Ao público que nos lê, deixamos o julgamento de nossas atitudes e linguagem”.

Em março de 1934, mesmo uma singela carta de Domingos Vellasco, enviada em agradecimento à solidariedade hipotecada pelo semanário frente à sua dissidência do situacionismo goiano, restou vetada. Ayube levantou a sua insatisfação, registrada pela terceira edição de “O Globo”, do Rio de Janeiro, em 13 de março de 1934: “Por motivo da rigorosa censura, ‘O Estado de Goyaz’ foi impedido de circular ontem. Peço comunicação imprensa. Abraços — José Ayube, diretor.”

No entanto, alguns reparos ao governo escaparam da tesoura da censura. Tais falhas geraram a imediata substituição dos censores. Contrariado com a troca, “O Estado de Goyaz” estampou a imagem de Pedro Ludovico com título: “Governo liberalíssimo e magnânimo”. Ato contínuo, explicou: “Somos sobremodo conhecedores da profunda sensibilidade de s. excia. e sabemos que todas as críticas de folhas independentes como soe ser a nossa, lhe conduz aos nervos séria irritação”.

Pedro Ludovico no jornal “O Estado de Goyaz”

No primeiro exemplar após a promulgação da Constituição Federal, “O Estado de Goyaz” comemorou: “Hoje, desafogados, podemos adiantar o quanto nos foi prejudicial a mordaça imposta pela ditadura”. Uma semana antes da eleição de 14 de outubro, porém, seu diretor Ayube recebeu um claro aviso: após “convidá-lo” a comparecer à Delegacia, o tenente Jonas Castilho o questionou sobre as críticas lançadas ao governo.

A despeito de intitular-se independente e sem cor partidária, “O Estado de Goyaz” alistou-se efetivamente no campo oposicionista assim que foram deflagrados os preparativos para a campanha eleitoral. Terminado o pleito, Ayube resolveu sindicar os abusos cometidos em vários municípios contra os militantes da Coligação Libertadora — frente única a congregar três correntes: os antigos democratas, os simpatizantes de Domingos Vellasco filiados ao Partido Libertador e os católicos.

Pondo em prática o seu desiderato, a edição de 28 de outubro estampou: “O inquérito sobre o pleito de 14 de outubro — como se realizou o pleito no Estado”. Pouco tempo depois a casa de Ayube era varejada por policiais que o ameaçavam de espancamento e morte, instante em que chegou o prefeito Taciano Gomes de Mello e levou o jornalista para a sua própria residência, “onde ficaria ‘protegido’ até o dia seguinte em que seria embarcado para fora do Estado, caso não quisesse aderir ao governo”, segundo a narrativa apresentada pelo jornal oposicionista “A Colligação”, dirigido por Alfredo Nasser. O prefeito Taciano Gomes negou qualquer “convite” de adesão, mas confirmou o “lamentável” incidente.

Líderes da Coligação Libertadora — Antônio Ramos Caiado, Domingos Vellasco e Alfredo de Moraes — no jornal “A Colligação”, dirigido por Alfredo Nasser | Foto: Reprodução

Nesse ambiente de compressão, José Ayube decidiu sair imediatamente do Estado de Goiás na condição que ele denominou de “deportado” e reativou “O Estado de Goyaz” em Uberlândia (MG) a partir de 30 de dezembro de 1934. Ao preservar o nome do jornal, agora sediado em Minas Gerais, o periódico passou a expressar, apenas pelo título, a cada nova tiragem, uma permanente acusação contra os abusos à liberdade de imprensa perpetrados em Goiás. Novamente o jornalista comunicou a violência ao presidente da ABI: “Ameaçado de fuzilamento pela horda de jagunços de Cosme abandonamos Goyaz e o jornal circulará em Minas. José Ayube”.

“Ipamerí”, “A Luta” e “Pyrineus” arrolhados

Roteiro mais ou menos similar ao vivido pelo “O Estado de Goyaz” trilhou o “Ipamerí” (com acento mesmo), órgão oficial do Partido Libertador. Ao acompanhar a dissidência de Domingos Vellasco, deflagrada no início de 1934, o jornal ipamerino sofreu forte censura, inclusive saindo com colunas em branco e a divisa horizontal “censurado pela polícia” ou apagados com tinta preta, além da proibição de transcrever editoriais da imprensa carioca e paulista.

Exemplo da forte censura imposta à imprensa goianos nos anos de 1930: o “Ipamerí” de 3 de janeiro de 1934 (foi registrado erradamente 1933)

Cumpre sublinhar que o diretor do jornal, Joaquim Rosa, fora demitido do cargo de promotor público da comarca de Ipameri pouco tempo depois de hipotecar sua solidariedade política a Vellasco, motivo pelo qual ele consignou seu protesto junto ao ministro de Justiça: “Comunico a v. exa. a minha demissão do cargo de promotor público, cargo que procurei exercer, sempre, com dignidade, demissão que devo somente porque venho combatendo lealmente os grandes erros políticos e administrativos do interventor Pedro Ludovico. Minha demissão representa mais um ato de extrema prepotência da parte do interventor que está reeditando em Goiaz os antigos processos bárbaros de compressão dos adversários contra os quais peço vênia para protestar perante v. exa. Atenciosas saudações. Joaquim Rosa”.

No dia imediatamente posterior à promulgação da Constituição Federal de 1934, Joaquim Rosa impetrou mandado de segurança — instituto recém-criado pelo novo diploma constitucional — para impedir o prosseguimento da censura em seu periódico. O juiz Joaquim Augusto Perillo concedeu a ordem.

Após as eleições de outubro de 1934, a violência alcançou a própria integridade física do ex-promotor público: “Fui agredido em plena rua pela polícia armada. Estamos sem garantias, pesando graves ameaças principalmente contra nosso jornal, razão pela qual somos forçados interromper sua circulação, provisoriamente. Joaquim Rosa”.

Em seu valioso livro de memórias “Por Esse Goiás Afora”, Joaquim Rosa detalhou o evento: “Numa tarde de novembro daquele ano [1934] seu diretor [de o “Ipamerí”] foi cercado na rua por três trabucos empunhados por três soldados da polícia, com ordem de desarmá-lo ou matá-lo”. Em seguida, instado a comparecer à delegacia, Joaquim Rosa, assim como César da Cunha Bastos e José Ayube, também resolveu abandonar o Estado, regressando apenas um ano depois.

Censura do artigo do jornalista Egirinêo Teixeira no jornal “Ipamerí” | Foto: Reprodução

Frente ao quadro acima descrito, a associação entre o “Ipamerí” e “O Estado de Goyaz” restava inevitável: “Regime de violências! Depois do ‘Estado de Goyaz’, o bravo e intrépido ‘Ipamerí’ é forçado a suspender sua circulação — ‘Em cena a polícia!’”, enfatizou a manchete de “A Colligação”. Em complementação, o periódico antigovernista aduziu: “Goyaz em tempo algum assistiu a tantas violências e a tantas misérias contra a imprensa!”.

Em Anápolis, o “script” não apresentou grande alteração. Fundada em 1930 por A. G. Pinto e redatoriada em 1934 pelo ex-prefeito João Luiz de Oliveira, exonerado por acompanhar a dissidência vellasquista, “A Luta” catalogava em sua trajetória várias anotações de censura na etapa pré-constitucional, razão pela qual acabou vinculada pela imprensa do Triângulo Mineiro às duas experiências já ventiladas: “Depois de ter asfixiado sob o guante de uma censura brutal os jornais ‘Ipamerí’ e ‘Estado de Goyaz’, o interventor goiano acaba de expedir ordens, agora, para o semanário ‘A Luta’, que se publica em Anápolis, tenha a censura policial integrada em sua organização”.

A situação revoltou bastante o redator da folha anapolina: “O censor analfabeto, erigido em dócil instrumento da agonizante saparia que coaxa em torno da Casa Chata, ameaçou-me com prisão e com o xadrez da cadeia pública, em companhia de criminosos comuns, caso continuasse a criticar atos políticos e administrativos do atual interventor goiano. Saudações. João Luiz.” Um pedido de liberdade ao periódico chegou a ser encaminhado ao ministro da Justiça.

Após as eleições de outubro de 1934, por motivos desconhecidos, “A Luta” igualmente deixou de circular, reaparecendo dois anos depois com outra postura — bem mais dócil ao governo.

Jornal “Pyrineus”, de Pirenópolis, de 30 de novembro de 1934, dirigido por Ulysses Jayme

Em Pirenópolis, o jornal “Pyrineus”, criado após a vitória revolucionária de 1930 e dirigido pelo advogado Ulysses Jayme, também acompanhou a orientação vellasquista e, de igual modo, sofreu censura. A este respeito, o despreparo do censor produziu uma insólita decisão em sua edição de nº 70, a saber: “Sensurado. 14 de julho de 1934. Matias Corrêa da Silva, Delegado de Pulisça”. A precária ortografia se transformou em troça nas páginas do “Lavoura e Comercio”: “Os interessados fizeram reconhecer a letra e a firma dessa declaração, a fim de que ficasse perfeitamente legitimado esse surpreendente documento de uma época em que o sr. Pedro Ludovico era interventor em Goiaz e os indivíduos analfabetos por ele feitos censores da imprensa”.

Não se tem notícia da impressão do “Pyrineus” no ano seguinte (1935). É lícito supor que a derrota de seu diretor Ulysses Jayme na eleição para a Constituinte Goiana de 1934 tenha contribuído para a suspensão do periódico pirenopolino, sem prejuízo da influência exercida pelas experiências traumáticas vividas tanto por Joaquim Rosa quanto por José Ayube.

A violência e a ameaça à imprensa alcançam Minas Gerais

Depreendem-se facilmente dos relatos acima que os correligionários de Domingos Vellasco foram vítimas do garroteamento da imprensa após a cisão política. Inobstante, quando secretário de Segurança Pública (1930-1932), Vellasco experimentou o outro papel, ou seja, o de algoz da propaganda oposicionista, consoante infere-se da matéria divulgada pela hebdomadário “Voz do Povo” em 20 de março de 1931: “O jornal triangulino [‘A Tribuna’] invectiva o secretário da Segurança por ter proibido a publicação do jornal ‘O Democrata’. Isso não é verdade. (…) Disse-lhe então o sr. Domingos Vellasco que s.s. aguardasse o período pré-eleitoral para fazer política, visto que o momento não comportava agitações partidárias”. No futuro, ele negaria qualquer violação desse jaez, jogando a culpa exclusivamente no colo do interventor: “O dr. César de Bastos dirigiu uma carta ao interventor, pedindo-lhe permissão para reiniciar a publicação d‘O Democrata’, jornal do senador Caiado. O dr. Ludovico respondeu, por meu intermédio, ao dr. César de Bastos, declarando-lhe que julgava, naquele momento em que as paixões ainda estavam exacerbadas, prejudicial à ordem pública a circulação daquele jornal. Fui mero transmissor da resposta”.

A propósito, como dito supra, “O Democrata”, após a Revolução de 1930, se viu compelido a paralisar suas oficinas, ressurgindo somente em agosto de 1934 com o novo nome de “A Colligação”. Nesses quase quatro anos, registre-se, inexistiu imprensa oposicionista ou independente na antiga capital, sendo todos os veículos alinhados à interventoria.

O professor de História da UFG Cristiano Arrais, em sua dissertação de mestrado, já observara: “É preciso ressaltar (…) que da mesma forma que as antigas oligarquias eram acusadas pelos oposicionistas de abusos e violências, antes de 1930, o mesmo aconteceu no momento posterior. Talvez não tenhamos tantas fontes [no pós-1930] porque a repressão aos oposicionistas do regime, principalmente a partir de 1937, tenha sido mais incisiva do que fora antes de 1930”.

As fontes compulsadas revelam que o caiadismo, malgrado constantemente envolto em denúncias de despotismo e de não vacilar em acionar o Poder Judiciário, suportou mais tolerantemente as críticas da imprensa do que o ludoviquismo. Nessa direção, o testemunho de Joaquim Rosa: “[No ciclo caiadista] Não havia censura à imprensa, é certo (a censura foi inaugurada no período ludoviquiano)”.

Segundo o depoimento de Joaquim Carvalho Ferreira, Antônio Ramos Caiado teria advertido seus correligionários que aspiravam empastelar a “Voz do Povo” nos seguintes termos: “Não o tentem, pois irei para a redação desse jornal defender de armas em punho, se necessário, o direito que a Constituição lhes assegura”.

Em abono a tal perspectiva, eis uma passagem extratada da edição de 25 de dezembro de 1927 do jornal “O Democrata”, em resposta à imprensa oposicionista: “Aonde é que já se viu em Goyaz, empastellar jornaes, se agredir physicamente um jornalista? Temos tido vários orgams de opposição, taes como o ‘Goyaz’, a ‘Imprensa’, e nunca para honra da nossa civilização se registrou uma só violência contra elles e seus redactores. Ora, é melhor que a ‘Voz do Povo’ deixe de estar chorando lágrimas de crocodilo”.

Cisão política verificada entre Domingos Vellasco e Pedro Ludovico noticiada pela edição de 8 de janeiro de 1934 do jornal “Lavoura e Comercio”, de Uberaba | Foto: Reprodução

Por outro lado, em 23 de maio de 1934, emerge do “Lavoura e Comercio” a seguinte informação: “O que se passa, atualmente, em Goiaz, com relação à imprensa, é uma verdadeira retratação de todas as acusações que se fizeram dos governos caiadistas, da época pré-revolucionária”. Incontinenti, prossegue o periódico seu desagravo ao caiadismo: “[‘Voz do Povo’] pôde desenvolver uma ação terrível contra a oligarquia goiana. Apesar da violência da linguagem empregada, a sua redação ficou virgem da presença de um censor. Nenhuma violência foi praticada contra ela. Agora, entretanto, (…) a imprensa de Goiaz está amordaçada, tolhida de suas menores manifestações e só podendo divulgar aquilo que agrada aos Zeus-mirim.”

Sem embargo, a mais dura repreensão ao tratamento dado pela oligarquia ludoviquista à imprensa talvez tenha saído da pena do jornalista Francisco de Britto: “Já se tornou proverbial a ojeriza do sr. Pedro Ludovico Teixeira pela imprensa independente. O interventor goiano não tolera críticas, ainda as mais suaves. Nesse particular a sua sensibilidade é igual à sensibilidade de um nervo de dente de mulher histérica. Se o jornal o critica, está ao alcance de sua mão, esgana-o. É o que tem feito com o ‘Estado de Goyaz’, um dos poucos jornais goianos que jamais se deram em holocausto à sabujice. Entretanto ninguém mais do que o sr. Pedro Ludovico gritou contra a tirania, contra a prepotência, contra a mentira das urnas, contra todas as formas de escravização política. Embriagado da cachaça liberal inúmeras vezes o ‘apóstolo do sudoeste’, o ‘Tiradentes goiano’, o ‘homem de Heine’ alçou a voz e serviu-se da imprensa independente para exigir respeito às liberdades públicas. E ninguém jamais o impediu de falar e de escrever, embora às vezes com violência. Guindado ao poder por uma revolução, olvidou o passado, abjurou a doutrina que defendeu”.

Em agosto de 1931, a gana repressora ao livre pensar atravessou o Rio Paranaíba, calando o jornal “A Tribuna”, de Uberlândia (MG), que repercutia as notícias silenciadas do Estado vizinho: “Por ordem do dr. Gustavo Capanema e de acordo com circular do sr. ministro da Justiça, foi ontem iniciada nesta redação a censura dos assuntos que teríamos de publicar sobre a administração de Goiás, do que devem ficar bem inteirados os nossos amigos de além Paranaíba!”

“A Tribuna” de Uberlândia do dia 10 de agosto de 1931 noticia a censura imposta às notícias oriundas de Goiás. O periódico deu publicidade à versão silenciada dos “decaídos” goianos | Foto: Reprodução

“O fato é virgem em Minas”, vociferou o jornalista Agenor Paes, editor do periódico uberlandense. Na edição de 15 de agosto de 1931, “A Tribuna” listou sete artigos censurados pela polícia mineira, todos relacionados à unidade federativa anhanguerina: i) “Anarchia em Goyaz”; ii) “O secretário sr. José Honorato recebeu o bilhete azul”; iii) “Os cambalachos sobre a presidência de Goyaz”; iv) “Carta de Pires do Rio”; v) “As nerinas e os bônus”; vi) “Aqui del-Rei” e vii) “A actuação do Juiz Mário na política”. Para dar publicidade ao que se proibia, imprimiu-se o opúsculo “Goyaz Tétrico”, obra ainda hoje pouquíssimo conhecida em Goiás.

O episódio envolvendo “A Tribuna” foi esclarecido por Joaquim Rosa com a sua usual sinceridade: “Vellasco, a meu pedido e de Caramuru, trançara os pauzinhos no Rio de Janeiro, com os homens do Clube 3 de Outubro e ‘A Tribuna’ foi sumariamente entupida. Mais tarde o ‘Ipamerí’ pagaria com língua de palmo o pedido feito a Vellasco”.

Os choques com a imprensa do triângulo mineiro, contudo, não pararam por aí. Em 1934, o “Lavoura e Comercio” deu ampla cobertura aos acontecimentos vinculados à oposição goiana. Indignado com uma notícia veiculada, o interventor de Goiás telegrafou, em 17 de fevereiro, ao jornalista-redator Odorico Costa: “Tudo tolerarei de sua pena venal, menos ataques caluniosos à honestidade de minha administração. De uma forma ou de outra saberei repelir a afronta contida no ‘Lavoura e Comercio’ de 13 do corrente. Pedro Ludovico”.

Logo no dia seguinte, Odorico Costa profligou: “Seu assombroso telegrama demonstra que você quer estender violências até a banda de cá do Paranaíba. Suas ameaças que poderiam influenciar ingênuos e analfabetos não me intimidam. De uma forma ou de outra sei me defender”.

Malgrado a resposta corajosa, Odorico, sentindo-se ameaçado, solicitou providências ao deputado federal Domingos Vellasco na capital federal, no que o carioca “Diario de Notícias” recomendou: “Que providências? Só há uma: não ponha os pés em Goiaz”.

Breve fase de ouro da imprensa nos 30 culmina na fundação da AGI

Mesmo diante das várias ocorrências registradas, cumpre assinalar que, apesar de alguma relutância, entre julho (promulgação da Constituição Federal) e outubro (eleição para Constituinte Estadual) do ano de 1934, seis jornais oposicionistas circularam ininterruptamente em Goiás.

Como nem antes e nem depois desses três meses se registraram tantos periódicos antigovernistas no primeiro consulado ludoviquista (1930-1945), pode-se afirmar que o período representa a breve fase de ouro da liberdade de imprensa em Goiás, coroada, aliás, com a fundação, em setembro, da Associação Goiana de Imprensa (AGI), sob a presidência do advogado Albatênio Caiado de Godoy — sobrinho do parlamentar (e futuro senador da República) Mário Caiado e irmão do deputado federal eleito Claro Godoy.

O uso acima do vocábulo “breve” deve-se ao fato de que, após a eleição, dos seis periódicos de caráter oposicionista, apenas “A Colligação” permaneceu em atividade, muito provavelmente por ser dirigida pelo deputado estadual eleito Alfredo Nasser, detentor, portanto, de imunidade parlamentar. Em março de 1936, entretanto, até o órgão da Coligação Libertadora dobrou-se à compressão decretada pelo chamado “estado de guerra” — resposta varguista à tentativa de revolução comunista liderada por Luiz Carlos Prestes em novembro de 1935.

Calha consignar que a reação da Associação Goiana de Imprensa (AGI) às violências perpetradas pelo governo após a sua criação, se existiram, foram inaudíveis. A principal razão dessa conduta vincula-se ao total alinhamento político do presidente e da maioria da diretoria da entidade com o ludoviquismo.

“Está enchendo as medidas… e em último caso a lei de imprensa falará”, advertiu o próprio “Correio Official” de 21 de fevereiro de 1936. A ameaça, destacada em manchete, tinha alvo certo, qual seja, o jornalista Alfredo Nasser: “No caso da ‘A Colligação’, a crítica já vai ultrapassando as raias do admissível; e, contra os jornais que não observam a ética periodista, parece-nos que há leis coercitivas…”.

Em resposta, Nasser escreveu o artigo “A ameaça official”, afirmando não temer represálias. Malgrado o arroubo, a edição seguinte de 18 de março, representou o derradeiro número de “A Colligação”. De fato, as medidas haviam se enchido.

Em abril, jagunços tentaram executar um atentado contra Nasser, o que lhe gerou algumas manifestações de solidariedade: “Sabendo hoje do vergonhoso atentado contra a sua pessoa, mando-lhe o meu vibrante protesto e inteira solidariedade, contra mais esse desmando que demonstra a falta de hombridade dos dirigentes do nosso pobre Goiaz. Abraços. Jacy de Assis.” Ao noticiar o episódio, “O Estado de Goyaz”, sediado em Uberlândia, não titubeou em responsabilizar Pedro Ludovico: “Nenhuma surpresa nos causou a narrativa acima. Do actual governador de Goyaz, sempre esperamos por coisas dessa natureza. Não vai muito longe a data em que experimentamos a visita da jagunçada em nossa tenda de trabalho”.

De acordo com Alfredo Nasser, foi a decretação do estado de guerra que forçou o fechamento do periódico. É fácil supor a linha de raciocínio traçada por ele: ora, se até a imunidade parlamentar do deputado federal Domingos Vellasco, preso no Rio de Janeiro junto com mais quatro congressistas, podia ser suspensa… As circunstâncias exigiam doravante maior cautela e prudência.

O estado de guerra, além de ensejar o fechamento de jornais, também freou o surgimento de novos, como aconteceu em Buriti Alegre, onde o anúncio publicado no “O Estado de Goyaz” de 23 de fevereiro de 1936 não se concretizou: “Deverá aparecer nesta cidade, dentro de pouco tempo, um grande jornal que terá como diretores os srs. dr. Jalles M. de Siqueira, dr. Jacy de Assis, dr. João Affonso Borges e Francisco Britto”.

O tratamento dado pela polícia — ou melhor, pela polícia-política — aos jornais alinhados ao governo e aos antigovernistas era diametralmente distinto. O caso mais emblemático talvez ocorra com a “Folha de Goiaz”, fundada em 1935 pelo deputado estadual situacionista Salomão de Faria, militar com a maior patente (tenente-coronel) da PM de Goiás. O citado periódico nunca conheceu a censura até Salomão romper com o governador Pedro Ludovico em março de 1936.

Entretanto, depois da mencionada divergência e quatro dias após noticiar uma dissidência entre os primos Pedro Ludovico e o deputado federal Laudelino Gomes na edição de 26 de abril de 1936, o escrivão Walfrido Maia tornou-se censor da “Folha de Goiaz”. Eis o teor de seu ofício: “Exmo. Sr. Director da ‘Folha de Goiaz’: Tenho a honra de comunicar-lhe que, por Portaria nº 9, de 30 de abril pretérito, desta Delegacia Especial, fui designado para proceder a censura no jornal ‘Folha de Goiaz’ do qual V. Excia. é seu mui digno Director. Cônscio de que merecerei especial atenção de V. Excia., na exibição dos artigos que devem ser submetidos aquela medida, hypotheco-lhe os meus protestos de elevado apreço e considerada deferência. Saudações cordiaes. Walfrido Campos Maia — escrivão da Delegacia Especial”.

Dois meses depois, o semanário comunicava sua interrupção: “Tendo a ‘Folha de Goiaz’ completado hoje com o presente número o primeiro aniversário, resolveu o seu diretor, deputado Salomão Clementino de Faria, suspender, temporariamente, a sua circulação”. O “temporariamente” transformou-se em “definitivamente”.

Por fim, vale registrar que as devidas referências bibliográficas são encontradas no artigo acadêmico intitulado “Apontamentos sobre a liberdade de imprensa no consulado ludoviquista”, publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) nº 28/2017 e fonte de inspiração do vertente ensaio jornalístico.

Jales Guedes Coelho Mendonça, promotor de Justiça, doutor em História pela UFG, membro (cadeira nº 5) do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), autor do livro “A Invenção de Goiânia: o outro lado da mudança” (UFG, 2ª edição), é colaborador do Jornal Opção.

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