5G vai impactar mais o mundo que a pandemia

Sua vida, da sua família, da sua casa, a da cidade, no planeta inteiro, tudo deve melhorar, como na invenção da siderurgia, da lâmpada elétrica e da penicilina

Nilson Gomes

Especial para o Jornal Opção

A roda, a pólvora, a agricultura, a imprensa e a indústria foram aparecimentos transformadores. Como se conseguia viver sem elas? Veio a internet e a pergunta ficou ainda mais radical para os nativos digitais: existia vida antes?

Se entre essas maravilhas transcorreram 12 mil anos, bastaram três décadas entre a internet (1969) e o smartphone (2000) para deixar todo o passado com cara de Idade da Pedra Lascada.

Agora, começa uma era de transformações para melhor na mobilidade, na defesa, na produção do campo, na comunicação e na geração de riquezas para a Humanidade. Bem-vinda, Era 5G.

Espera-se que em praticidade supere a lâmpada elétrica, que não inventou a luz, mas reduziu a escuridão. Os mais animados consideram o 5G o próprio Sol.

Contra o sofrimento das transmissões de vídeo, o 5G seria mais eficaz que a penicilina — pergunte a seu avô como era a vida antes dos antibióticos.

Os nativos das Américas, Terra de Santa Cruz incluída, tinham os metais. Os europeus tinham a metalurgia. Índios e seus minérios foram dizimados. Assim será um aparelho sem 5G.

É a quinta geração da telefonia, por geração entendido não o período médio de uma década entre cada revolução: o início no celular (1G) em 1981, seu aprimoramento (2G) para muuuuuito melhor em 1992, 3G fechando o 2° milênio e o 4G em 2011. O que conta é a inovação entre cada (leia detalhes nesta reportagem).

Desde meados dos anos 1970 se tenta, se tenta, se tenta sair do trocadilho e se consegue sair por aí conversando “sozinho”, adornando a orelha com algo parecendo um rádio. Pronto, mudou de brinco, está com aparelho de telefonia e dados móveis, o famoso celular.

O escocês Graham Bell patenteou (registrou) em 1876 a invenção do italiano Antonio Meucci de 1849 usada pela primeira vez pelo brasileiro Pedro II na feira internacional da Filadélfia, Estado da Pensilvânia, Estados Unidos. “Meu Deus!”, teria exclamado o imperador. “Isto fala!”.

Sim, já existiu um governante nacional interessado em tecnologia. Já tem quase século e meio, mas houve esse cara que, em vez de negar a ciência, a incentivava, a buscava. E buscou o telefone, fazendo do Brasil o 2° país do mundo a utilizar a inovação.

Não se sabe se o primeiro sujeito que experimentou a telefonia móvel, em 1956, tenha dito “Meu Deus, isto anda!”. Deve ter falado “Isto pesa!”, pois o aparelho da Ericsson era um trambolho com praticamente os 50kg de um saco de cimento. Portanto, não era exatamente móvel, à exceção dos halterofilistas.

Veio o segundo, em 1973, com 25cm x 7cm e 1kg, que teria sido coqueluche nesta quarentena de academias fechadas. Mas não era um pedaço de concreto. E foi nele que Martin Cooper ligou para seu colega engenheiro Joel Engel enquanto caminhava por Nova York. Estava “inaugurado” o celular.

O que Cooper, da Motorola, gracejou ao concorrente, da AT&T, não interessa. Importante é que desse aparelho surgiu o termo tijorola, depois de os celulares seguintes serem proporcionalmente comparáveis à diferença da geringonça da Ericsson com o avantajado da Motorola.

Os aparelhos foram diminuindo de tamanho e aumentando em comodidades, até vir o Santo Graal, o smartphone, em 1992.

Comparado ao que se tem atualmente, o Santo Graal era uma dose de Tatuzinho, mas suficiente para deixar a galera embriagada de emoção. Em 1994, chegou ao mercado um rascunho de Capela Sistina. Com a tela touch screen. Tornou possível enviar e receber mensagens. Ouvir música. Tirar foto. Filmar. Acompanhar o noticiário. E ainda servia como fax, um troço pré-histórico do qual os millenials riem. Falar ao telefone era o de menos.

O smartphone foi a última grande invenção da Humanidade, mas o 14 Bis evoluiu até se colocar no espaço a Estação Internacional. Assim pode ser descrito o aparelho com a quinta geração da telefonia. Ou uma obra de Michelangelo Buonarroti no teto de cada casa, seja uma mansão em condomínio fechado ou um barracão de dois cômodos na periferia.

É aceitável que o impacto do bem seja rapidamente absorvido, enquanto os solavancos contrários gerem grita diametralmente oposta. Mas o 5G está a sacudir o planeta mais que a pandemia — claro, nos lugares em que aportou. Outra diferença é o alcance, pois o coronavírus se espalha na medida da inoperância das políticas públicas e da irresponsabilidade dos usuários. Nesses casos, o 5G se retrai.

Goiânia na rota da inovação

As empresas de telefonia estão experimentando a nova revolução, o 5G, mesmo antes de a Agência Nacional de Telecomunicações realizar o leilão das frequências. O edital de licitação deve sair em 2021 — é, o governo federal atrasou em um ano a chegada da quinta geração. Como se viu, neste ramo cada geração tem uma década, em vez dos 25 anos tradicionais. Então, o País da cloroquina achou cômodo dar a pandemia como desculpa para adiar a implantação de algo que deveria ser prioridade para ontem.

Bicadas de ema à parte, as telefônicas estão se preparando. Uma delas, a Vivo, escolheu Goiânia para receber a atenção desde o início. O trabalho começou neste final de semana, o último de julho de 2020.

Não significa que o goianiense já possa ter acesso à novidade. É uma conquista por etapas.

Entre o 4G e o 5G, já se vendeu o 4 ponto qualquer coisa, especialmente o 4.5G. Na realidade, grande parte do País, inclusive em Goiás, milhões de usuários sequer usufruem dos confortos do 4G. Seria necessário um MST (Movimento dos Sem-Tecnologia) para reivindicar reforma “agrária” nos megahertz e gigahertz.

A falta de adaptação do Brasil aos avanços tecnológicos não se resume a pacote de dados não confiáveis, plano de internet que não chega à metade do ofertado e governante avesso à ciência. Salvo raríssimas exceções, ainda não estabelecidas, os aparelhos de celular terão de ser trocados para absorver o 5G com suas revoluções por segundos.

Até ser realizada a concorrência, no ritmo de Catonyx cuvieri, o máximo que o goianiense pode usufruir talvez seja uma melhoria em seu 4G. Como a Vivo garante que está agindo entre as praças Cívica e do Trabalhador, vale comemorar que afinal se invista de fato na revitalização do Centro de Goiânia.

Ah, curioso para saber o que é aquela expressão em latim? Não é uma expressão, é o nome da preguiça encontrada por aqui quando os asiáticos chegaram via Estreito de Beringhs, então congelado e unindo o Alasca à Sibéria. Tinha 6m de comprimento, 4m de altura e 5 mil quilos. O que ela, encontrada há mais de 10 mil anos, tem a ver com o 5G? A papelada do leilão da Anatel está sendo levada no casco de uma Catonyx cuvieri.

Mudanças tecnológicas

O que mudou em cada geração, com uma década entre elas, a partir dos anos 1980:

1G — A gente via Ayrton Senna dirigindo o próprio carro pelas ruas de Mônaco e a grande atração não era o superpiloto ou o possante automóvel de luxo. Os olhos focavam os ouvidos do campeão da Fórmula 3 e, em seguida, da F1. Se hoje os esportistas andam com airPod, Senna tinha o celular. Era um baita monstrengo, só fazia chamada, feio e pesado. Para a época, era um iPhone feito por Steve Jobs em pessoa. Gente, como ele fala nisso aí de dentro do carro? Graças ao Advanced Mobile Phone System, o AMPS. Era móvel, mas quase somente no auto, devido ao fardo de 1kg e 30cm. Analógico, com banda de 10 MHz e frequência de 800 e 900 MHz. Facílimo de ser grampeado.

2G — Internet. Com poucos dados, mas tinha. Porém, a grande novidade foi a invenção da perda de tempo com ganho de tecnologia, a SMS. Jogar paciência até encher a dos outros. Os aparelhos, já com 1/3 do peso e aparência caprichada no design (sobretudo da tela), ficaram mais acessíveis para o bolso — além de caberem no tamanho, também estavam mais alcançáveis no preço. A segurança nas transmissões foi ampliada. Poderia ser usado em diversos lugares (o tal do roaming, hoje esquecido de tão normal, foi uma vitória e tanto). Em busca do público perdido, os telefones fixos ficaram baratíssimos, toda casa passou a ter o que na década anterior era inacessível às classes C e D.

3G — Foi quando a mágica aconteceu. Para o usuário comum, provavelmente representou a maior mudança em tecnologia, superior a 4G e 5G. O telefone fixo ficou ferido de morte, chegou de cágado e saiu montado num míssil. A explicação estava na transmissão de vídeo, decretando a aposentadoria da SMS (ainda usada pelo pessoal que tem fax e conserta máquina de escrever). Streaming? Lógico!Escolha o canal de TV. Para de perguntar endereço a taxista e olha o mapa no celular. Pode baixar aplicativo. Engarrafamento ou viagem longa? Os filhos podem fazer no carro o que fazem no quarto durante o restante do dia: jogar em 3D.

4G — A atual geração (no Brasil, porque até no Suriname o 5G já desembarcou). Universalizou o celular — sim, até o aparelho. Enterrou o fixo de cabeça para baixo, pois as transmissões melhoraram. Todo mundo sabe usar aplicativos, mesmo a parte do mundo que não sabe o que é aplicativo. WhatsApp virou febre, como os demais aplicativos e figurinhas. Redes sociais substituíram as fofocas segredadas no banco do terreiro. A televisão, seja o aparelho ou as emissoras, subiu no telhado — e não foi para arrumar a antena. Ninguém nem se lembra mais de elogiar câmeras, definição de imagem, rapidez no tráfego de dados. Passaram a ser o novo normal. De então. Da década passada. Porque tudo isso agora vai pro museu (apesar de imensas faixas da população ainda usarem a terceira geração). Afinal, chegou o 5G. Opa!, está chegando. Oba!

5G — A Inteligência Artificial vai ficar tão comum quanto mandar áudio no zap-zap. Exagero? Torce-se para que não. O consumidor normal independe dos maiores avanços representados pelo 5G, pois 3G e 4G o atendem bem — aliás, para determinada faixa de necessidade, até o 4G é luxo. A revolução e a evolução presentes no 5G devem ser ainda mais celebradas porque seu alcance transcende o individual. Será possível baixar um filme de duas horas em menos de dois segundos? Sim, mas não é isso. Será possível transmitir quaisquer dados, inclusive imagens ao vivo, sem qualquer delay (atraso)? Sim, mas não é isso. Aliás, é tudo isso e ainda a A.I., a Inteligência Artificial por sua sigla em inglês, com tudo o que significa. Por isso, a Internet das Coisas vai ser o desenho do Jetsons na sua casa, na sua garagem, nas ruas: sem carro prescindindo de motorista, sua geladeira lhe informando sobre os alimentos adequados que você se recusa a tirar, seu gás desligando sozinho para o leite não derramar. Imagine isso amplificado para a indústria…

Nilson Gomes, jornalista, é colaborador do Jornal Opção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.