5G e TikTok estrelam o maior “UFC” do mundo

O planeta se divide na torcida por EUA ou China no que a revista Veja chama de “A grande luta”, na qual Goiás já está envolvido

Nilson Gomes

A era é das imagens e, também, das siglas ou dos chamados “encurtamentos”, na modinha em telas de todos os tamanhos. Pois é nelas (nas telas) que está se desenrolando uma briga daquelas por causa de uma delas (das siglas).

Trata-se do 5G, que protagoniza um “UFC” de alcance realmente mundial (sim, para além da Terra) e de fazer tremer a cada golpe (sim, golpes, e de pesos extremamente pesados).

Ringue com mais rounds que os octógonos do UFC, 5G é a maneira rápida de se referir à quinta geração da internet móvel.

Outra sigla, EUA, ameaçou tirar de seu território o TikTok, uma invenção chinesa. Pronto!, uma disputa de cinturão com a Humanidade — ao menos com as gerações Z (nascidos entre 1995 e 2010) e alpha (a criançada de até 10 anos).

TikTok, um app (aplicativo), é a atual grande diversão dos teens (um encurtamento para a moçada com idades terminadas em teen na língua inglesa, os adolescentes no Brasil).

A geração Y, os “tios” nascidos de 1980 a 1994, também ama os vídeos curtos do TikTok, mas finge que é para se inteirar com a linguagem da juventude.

O próprio presidente dos Estados Unidos, o pato Donaldo Trump, foi o autor da ameaça de tirar o aplicativo de seu território. Por quê? Será velho demais para os filmetes do TikTok? Não. É parte da batalha pelo 5G, encabeçada globalmente pela chinesa Huawei, pelo controle do mundo. Sem exagero: quem domina a tecnologia tem, ao menos em tese, condição de manobrar a galáxia.

Seguindo seu líder, o embaixador de Tio Sam em Brasília, Todd Chapman, também falou grosso. Disse que empresas americanas aqui instaladas vão embora e outros investidores sequer se aproximarão do Brasil caso a escolha da tecnologia 5G recaia pela Huawei. Sua desculpa é a mesma do boquirroto chefe: via 5G, os asiáticos podem espionar as indústrias.

Podem mesmo? Ninguém diz que não. Mas não é esse o debate. A edição de “Veja” com data de capa de 12 de agosto batiza o imbróglio de “A grande luta”. O que está em jogo é, realmente, “a escalada para ser o primeiro do mundo”. A revista diz que o Brasil tem a ganhar com essa encrenca entre os graúdos. Por extensão, também Goiás, que nesta semana entrou no páreo, com a declaração do governador Ronaldo Caiado de que a chinesa Huawei se comprometeu a começar por Rio Verde a implantação do 5G.

Sem querer querendo, o governador de Goiás expressou o que está em Veja: como se pode recusar um parceiro comercial com os números da China?

Veja classifica de “rolo compressor” a “estratégia da China para se impor como potência”. Se no meio dessa tática sobra violência em Hong Kong, para o Brasil o resultado chega em dinheiro. Os tais números da China são em cédulas.

Por ano, a China compra 28% de todos os produtos brasileiros mandados ao exterior, mais que o dobro dos 13% exportados aos Estados Unidos. Em dólares, são 63 bilhões a 29 bilhões.

Por que os asiáticos são melhores para Goiás que os americanos? A mercadoria preferida dos chineses é a soja de Rio Verde e outras dezenas de municípios goianos.

Esses números pesam na balança atualmente e, ainda melhor, no futuro. Veja apresenta levantamento provando com dados de bancos que os Estados Unidos serão ultrapassados pela China ainda nesta década como maior economia do mundo.

Em 1990, o Produto Interno Bruto da China era de 398 bilhões de dólares, distante dos 5 trilhões dos americanos. Desde então, a diferença só vem caindo. Neste ano está em 22 a 15. Em 2030, será de 34 trilhões de dólares a soma de tudo o que a China vai produzir; os nossos irmãos do Norte, 32 trilhões. Os cálculos têm fonte insuspeita: HSBC, FMI, Goldman Sachs e Secex.

O governador Ronaldo Caiado é adepto das redes sociais. Porém, entre a pressão de Trump para banir o TikTok (que terminou a semana com propostas de compra pela Microsoft) e os grãos das colheitadeiras em solo goiano, foi rapidamente conversar com os chineses. Faltou essa velocidade de raciocínio ao presidente Jair Bolsonaro. Se tivesse decidido por um modelo em 2019, não estaria acossado por ambos.

Oriental ou ocidental, o planeta inteiro pulsa por algum 5G e o ministro de Ciências, Tecnologia e Inovação, Marcos Pontes, fala em adiar o leilão das frequências para o distante 2022. Para sorte dos brasileiros, o mercado é muuuuuuito mais ágil. No Centro de Goiânia, a telefônica Vivo faz desde o mês passado experiências da quinta geração de internet, utilizando canais do 4G. Empresas de eletroeletrônicos como Apple e Samsung já anunciam os celulares com 5G, a segunda mostrando os aparelhos.

Bolsonaro precisa andar ligeiro, para o 5G não virar meme como a nota de R$ 200 reais, que chegou às impressoras dos falsificadores antes de entrar nas máquinas que abastecem a Casa da Moeda. Daqui a pouco tem celular com 5G nos camelódromos, mas não tem nas frequências leiloadas pela Agência Nacional de Telecomunicações. Seria um nocaute técnico na esperança.

Nilson Gomes, jornalista, é colaborador do Jornal Opção.

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