Euler de França Belém
Euler de França Belém

11 livros para entender a democradura de Vladimir Putin

O político fundiu czarismo e stalinismo e governa a Rússia com mão de ferro, numa “democracia” na qual só um lado tem chance de ganhar

Vladimir Putin, de 65 anos, pertenceu à KGB, chegou ao poder com Boris Yeltsin e manda na Rússia com mão de ferro; é um novo modelo de czar-paizão

Vladimir Putin, presidente da Rússia, chegou ao poder por intermédio de Boris Yeltsin e seus contatos na KGB — hoje, FSB. Como ex- agente — quem é da polícia secreta jamais abandona suas máscaras e truques —, Putin permanece enigmático. Inteligente, percebeu, de maneira precisa, que, longe de ser um rompimento com o czarismo e o stalinismo (este bebeu no czarismo), é uma continuidade. Ele e os russos, ou parte destes, parecem aceitar este caminho como regra única. Há, claro, vozes contrárias, mas estão submetidas pelo poderio de um político que age de maneira tão destrutiva quanto um chefe da máfia.

O Ocidente trata o ditador como luvas de pelica — como se fosse um líder de países democráticos, o que não é. Na Rússia, sob seu comando, adversários políticos e empresariais são tratados como inimigos e, eventualmente, são presos, torturados, exilados e, até, assassinados. Para além da fachada de que a Rússia está sendo modernizada, há vários livros mostrando o que é a verdadeira Rússia sob o reinado de Putin. O Jornal Opção listou 11 livros que oferecem uma visão realista tanto de Putin quanto da Rússia. Se não quiser se comportar de maneira panglossiana, ao comentar sobre a Rússia de Putin — sede da Copa do Mundo de Futebol (a Globo só exibe as maravilhas, como a belíssima arquitetura, e esquece das partes trágicas da história da Rússia-União Soviética, como o Gulag) —, leia pelo menos duas das obras mencionadas.

Todos os Homens do Kremlin — de Mikhail Zygar

“Todos os Homens do Kremlin — Os Bastidores do Poder na Rússia de Vladimir Putin” mostra que ninguém — nem Stálin — governa sozinho. Putin não é diferente e gere o país com uma espécie de aristocracia — no geral, fidelíssima.

Egresso da KGB, hoje FSB, Putin se tornou um czar da democradura russa — o novo paizão, como Nicolau Romanov e Ióssif Stálin. Montou inclusive uma corte, da qual quem não faz parte, sobretudo se contraria os interesses do poderoso chefão, corre risco de ser preso e mesmo morto.

O livro sugere que Putin é controlado por seus principais auxiliares — alguns deles integrantes da FSB (com ele, a polícia secreta teria tomado o poder, finalmente). Mas o autor admite que o político é hábil e manipulador — um Stálin mignon e bem-sucedido. Ele governa o país, direta e indiretamente, há três décadas. Sempre com mão de ferro ou, diria um stalinista, de aço.

A Prêmio Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch elogia o livro: “A primeira descrição consistente de tudo que aconteceu nos últimos 30 anos na Rússia”.

 

O Novo Czar — de Steven Lee Myers

O livro “O Novo Czar — Ascensão e Reinado de Vladimir Putin” é tida como a biografia mais ampla do ditador russo, espécie de Stálin com fachada levemente democrática. Há eleições na Rússia, ainda que viciadas. O jornalista Steven Lee Myers, que dirigiu o escritório do “New York Times” em Moscou, relata que Putin foi paupérrimo na infância e que foi subindo gradualmente na estrutura da KGB, até se aproximar de Boris Yeltsin.

A biografia não é uma hagiografia. Pelo contrário, é crítica, até devastadora. Menos por julgamentos peremptórios—em termos de condenação — do que pela exposição exaustiva de quem é Putin e como estruturou o sistema, uma democradura, que dirige há vários anos, sem grandes opositores. De fato, é o estudo mais denso sobre Putin. Terminada a leitura, se você continuar pensando no presidente russo como democrata não hesite se alguém sugerir que procure um psiquiatra. Putin, maquiavélico até a medula, certamente não enlouqueceu…
(Amarilys, 624 páginas, tradução de Márcia Men).

 

Alerta Vermelho — de Bill Browder

“Alerta Vermelho — Como Me Tornei o Inimigo Número Um de Putin” é um livro notável, que revela que o governo de Vladimir Putin é corrupto e prende e, às vezes, assassina aqueles que denunciam fraudes cometidas pela suposta quadrilha que se instalou no Kremlin. O investidor Bill Browder (parente de comunistas americanos) e o advogado Sergei Magnitsky descobriram que servidores do Ministério do Interior roubaram 230 milhões de dólares de impostos pagos e decidiram denunciar o esquema no exterior.

Magnitsky foi torturado e assassinado pelos “delicados” agentes de Putin. O financista teve de sair da Rússia e perdeu parte de seu dinheiro. A obra revela um capitalismo selvagem por trás da modernização empreendida pelo ex-poderoso chefão da FSB. Leia resenha publicada no Jornal Opção.
(Intrínseca, 399 páginas, tradução de Marcelo Levy)

 

Putin: A Face Oculta do Novo Czar — de Masha Gessen

O livro da jornalista Masha Gessen é, além de bem feito, de uma coragem inaudita — num país em que uma jornalista foi assassinada no dia do aniversário de Vladimir Putin, supostamente como se fosse um presente. A autora escreve uma história nada positiva do ditador russo—revelando até sua suposta “cleptomania”. Ele estrutura sua política da seguinte forma: conquista aliados para destruir — nem se fala em derrotar — adversários. Sem o mínimo pudor. As regras democráticas foram feitas para serem quebradas, entende o presidente russo. Ele cria as regras e ele próprio, quando necessário, as quebra.

Leia uma resenha do livro no Jornal Opção. Um detalhe: o russo é apontado como corrupto. (Nova Fronteira, 292 páginas, tradução de Maria Helena Rouanet)

 

A Era dos Assassinos — de Yuri Felshtinsky

“A Era dos Assassinos — A Nova KGB e o Fenômeno Vladimir Putin”, dos historiadores Yuri Felshtinsky e Vladímir Pribilovski, relata histórias terríveis dos bastidores da política na Rússia. Não é para estômagos fracos ou crentes na utopia socialista (com suas perigosas e cruéis polícias secretas). O “caso Shutov” é um dos mais emblemáticos. Ele chegou a ser eleito para o Parlamento, mas, por ser “inimigo” — e não mero adversário — de Putin, acabou torturado e preso por sete anos, mesmo sem ter sido condenado. Em 2006, foi condenado à prisão perpétua, sob acusação de ter cometido assassinatos.

Leia mais sobre o assunto no Jornal Opção. (Record, 391 páginas, tradução de Marcelo Schild)

 

O Laboratório dos Venenos — de Arkadi Varsberg

“O Laboratório dos Venenos — A Indústria do Assassinato da Rússia de Lênin a Putin”, de Arkadi Varsberg, é um livro notável. Uma denúncia candente. Tende-se a considerar Stálin como o “monstro” e Lênin como o “médico”. Na verdade, a polícia secreta e os campos de concentração — sim, os que inspiraram Adolf Hitler — foram criações de Lênin, e não de Stálin, que, claro, piorou-os. Arkadi Vasksberg investigou a fundo a questão do uso de venenos para matar adversários-inimigos políticos (tanto dentro da União Soviética quanto no exterior). Os casos são relatados minuciosamente.

Vladimir Putin, com a FSB — sucedânea da KGB —, tão-somente “sofisticou” os “venenos”. Para matar agentes que deixaram a polícia secreta e denunciaram seus métodos, os russos têm usado Polônio. Sabendo-se o que Putin faz, é possível concluir que o mundo trata o líder, talvez dado seu poder nuclear, de maneira condescendente. No fundo, é muito mais perigoso do que o ditador da Coreia do Norte. (Nova Fronteira, 304 páginas, tradução de Marcia Atalia Pietroluongo)

 

History of Modern Russia — de Robert Service

O inglês Robert Service é um dos principais pesquisadores da história da Rússia-União Soviética. Escreveu excelentes biografias de Lênin, Trotski e Stálin — além de um notável livro sobre a esquerda (“Camaradas — Uma História do Comunismo Mundial”). “A History of Modern Russia — From Nicholas II To Putin” é mais abrangente do que outras histórias da Rússia (frise-se que ele escreveu um notável livro sobre o czar russo, o que foi destituído pelo socialista Kerensky e assassinado pelos asseclas de Lênin).

Service apresenta os fatos e faz uma interpretação percuciente da história da velha e da nova Rússia — indicando como há conexões raramente percebidas. Espertamente, repetindo Stálin (que chegou a dizer para sua mãe que era uma espécie de czar), o líder Putin se comporta como se fosse um novo czar — seguindo a tradição e tentando unir o arcaico e a modernização a serviço de um poder altamente centralizado. (Penguin Books, 659 páginas)

 

De Gorbachev a Putin — de Angelo Segrillo

“De Gorbachev a Putin — A Saga da Rússia do Socialismo ao Capitalismo”, de Angelo Segrillo, prova a excelência dos pesquisadores brasileiros. Segrillo é um dos maiores especialistas — a rigor, um de seus intérpretes — na história da Rússia-União Soviética. O scholar esteve na União Soviética-Rússia, pesquisou nos seus arquivos e leu uma infinidade de livros sobre o assunto.

O resultado, mais do que mera citação bibliográfica, é uma análise original do modelo — ou, na verdade, modelos — russo, que se parece às vezes com o ocidental, mas tem suas especificidades. Os livros do estudioso sobre a União Soviética são equilibrados, serenos e rigorosos. (Prismas, 256 páginas)

 

As Entrevistas de Putin — Oliver Stone

“As Entrevistas de Putin — As Conversas Que Deram Origem ao Documentário”, de Oliver Stone, é francamente favorável ao presidente da Rússia. Há, de fato, questionamentos. Mas percebe-se claramente que, tanto na Rússia quanto na entrevista, Vladimir Putin está no comando. Vale para entender como funciona a cabeça do líder de um dos mais poderosos países do mundo. Ele opera de modo sinuoso, raciocinando de maneira ambígua e, ao mesmo tempo, sofisticada. Parece, até certo ponto é, mas não é só um brucutu. Sabe do que está falando e é mais qualificado, do ponto de vista da política internacional, do que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (que, aliás, é menos néscio do que sugere seu linguajar algo vulgar; aliás, não difere muito de Lula da Silva, que chega a falar em “grelo duro” para se referir às mulheres que são firmes e posicionadas). Putin revela como se relacionou com presidentes americanos, como Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama e Trump — o que mostra sua longevidade no poder. (Best Seller, 336 páginas, tradução de Carlos Szlak)

 

A Rússia de Putin — Maria Raquel Freire

“A Rússia de Putin — Vectores Estruturantes de Política Externa” resulta de uma pesquisa da doutora em Relações Internacionais Maria Raquel Freire, professora da Universidade Lusíada, do Porto. A editora informa que “a obra centra-se na análise das questões políticas, securitárias e econômicas subjacentes à política externa russa durante os dois” primeiros mandatos da Presidência de Vladmir Putin (2000-2008)”. A pesquisa sugere que a diplomacia dos governos de Putin tem sido hábil no trato com outros países — o que não significa necessariamente que seja respeitosa. A política externa de qualquer país visa ganhar de outros países, mas não ganhar em 100% das relações e negócios. A Rússia do novo czar joga como se fosse a única voz no mundo, às vezes manipulando, como no tempo de Stálin e outros líderes, a opinião pública internacional. O livro não trata de discussões no campo ideológico. É mais uma análise acadêmica.(Almedina, 258 páginas)

 

A Mística de Putin — de Anna Arutunyan

Uma das perguntas da jornalista e escritora Anna Arutunyan, pesquisadora russa, é: se todos (ou quase todos) sabem quem é Vladimir Putin, por que tem tanto apoio? Por que é um ditador e controla o poder e a mídia com mão de aço? Fundindo antropologia, história, sociologia e jornalismo, a estudiosa sugere que Putin se insere, com habilidade, na longa história da autocracia russa — e parte de sua aceitação resulta disso, quer dizer, da tese de que a Rússia precisa de um governante duro e forte que o mundo e os próprios russos respeitem. Ela sugere que a Rússia é neofeudal e sua estrutura de poder seria medieval. Os governantes, mesmo depois do fim do czarismo, são vistos como czares, paizinhos ou paizões. (Quetzal Editores, 384 páginas)

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