Bento Fleury
Bento Fleury

Os poemas de Roberto Alves Pereira pelos bares de Goiânia

Tudo é história. Em minúcias de sentimentos

O espaço do bar extrapola os limites geográficos. É um universo plurissignificativo. Bar, botequim, boteco, bodega, taberna, venda; nomes muitos para significar o lugar onde as pessoas “lavam a alma”, dos problemas cotidianos, cantado em prosa e verso em infinitas canções por gerações e gerações de um tempo imemorial. 

O título da referida análise faz, também, uma alusão ao programa “Pelos bares da vida”, apresentado pelo comunicador José Guilherme Schwan, por muito tempo, diretor de Comunicação da Associação das Empresas Organizadoras de Eventos de Goiás;  que, por quase três décadas, apresentou seu programa, por último na PUC-TV. 

O apresentador flanava pelos bares de Goiânia, na descrição de suas singularidades, ao demonstrar o amor do nosso povo aos bares e a descontração, na canícula do clima quente da capital; um dos motes do poeta Roberto Alves Pereira “nas tardes quentes de Goiânia”.

Especificamente, o termo bar vem do francês barre, que tem por significado barra em português. Nesse tempo, as tabernas tinham uma barra que tomava todo o espaço do balcão e impedia que os clientes tivessem acesso direto às garrafas, daí a denominação que caiu no gosto popular. Na versão inglesa para o nome, a barra era aquela que ficava mais abaixo, onde os clientes colocavam os pés.

Qualquer que seja a origem, o que é notório no bar é o ideário de convivência, com grande evolução em determinadas comunidades, de vivência tida por “mundana”.

Na Literatura, o bar já foi referência na prosa de Álvares de Azevedo (1831-1852), nascido há 190 anos, no livro Noites na taberna, explora o ambiente insólito e misterioso do local, prenhe de histórias incomuns e surpreendentes, no que se chamou de “mal do século”, com os poetas notívagos, boêmios, tuberculosos e loucos em grande maioria. Nesse ambiente se misturavam antropofagia, incesto, traição, violência, e até necrofilia. Prosa de cunho misterioso; mostrava o ambiente dos bares como propício ao mal.

Diferentemente nos poemas de Roberto Alves Pereira, o bar aparece como um santuário de divagações, perquirições, filosofias de vida e compreensão de um mundo em permanente reflexão do sentido (ou não) da vida. O autor nos remete, já na capa, que o bar é mesmo um santuário não compreendido e que não pode ser olvidado, pois faz parte de diferentes momentos da existência.

Grandes poetas de nossa Literatura também divagaram sobre o bar, como Mário Quintana (1906-1994): “Olho em redor do bar em que escrevo essas linhas/aquele homem ali no balcão/caninha após caninha/nem desconfia que acha conosco desde o início  das eras/pensa que somente está afogando problemas dele/João Silva…/ele esta é bebendo a milenar inquietação do mundo”. Também, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) nos ressalta poeticamente: “No Quintana’s bar/sou assíduo cliente/é um bar que não é bar/é um bar diferente”.

 “Afogar as mágoas, beber uma, lavar a alma, tomar um engasga gato, água que gato não bebe, uma estupidamente gelada” são expressões típicas dos que frequentam os bares. Tomar a cerveja, além de hábito, transformou-se até em dito engraçado e jocoso em relação à mãe da esposa: “sogra boa é igual cerveja, gelada em cima de uma mesa”, ao denotar que sogra boa é sogra morta.

Na MPB centenas de músicas evocam os bares. Nora Ney (1922-1999), com sua nostalgia, cantou o bar com toda sua carga de emotividade e nostalgia: “Você sabe bem que é mentira/mentira noturna de bar./ Bar, tristonho sindicato/de sócios da mesma dor/Bar que é o refúgio barato/dos fracassados do amor”. Já Aracy de Almeida (1914-1988), eterna cantora do repertório de Noel Rosa, eternizou-se na lembrança do bar: “Seu garçom faça o favor/de me trazer depressa/uma boa média que não seja requentada/ um pão bem quente com manteiga à beça/um guardanapo/ um copo d’água bem gelada…”. O poetinha Vinícius de Morais (1913-1980), frequentador assíduo de bares no bairro carioca de Ipanema, eternizou o ambiente na sua perene tristeza inconfessa e velada: “Hoje é domingo/e os bares estão cheios/de homens vazios”.

Também o cantor Antonio Candeia Filho, mais conhecido por Candeia (1935-1978), famoso sambista, destacou sobre o bar: “Meus amigos/vamos brindar o cansaço/este é um prêmio pra vitória do boêmio/que bebeu/de bar em bar/o seu cansaço”. Mais recentemente os Engenheiros do Havaí cantaram o bar: “Seria mais fácil/ fazer como todo mundo faz/o milésimo gol/sentado na mesa do bar”. A eterna Elis Regina (1945-1982) também destacou: “Tudo de triste existe e não se esquece/alguém insiste e fere no coração/nada de novo existe neste planeta/que não se fale aqui/na mesa do bar”.

Também Nelson Gonçalves (1919-1998) cantou a boemia como ninguém: “Naquela mesa ele cantava sempre/ e me dizia sempre o que viver melhor”. Ainda em “boemia/aqui me tens de regresso/e suplicante te peço/a minha nova inscrição”. Ainda, a personalíssima Isaurinha Garcia (1923-1993) cantou o “Oitavo botequim”, do compositor Blota Junior, na saga de um viciado, recorrente na mesa de bar. As irmãs Linda Batista (1919-1988) e Dircinha Batista (1922-1999) registram a noite carioca, daquela boemia dos bares carregados de fumaça, entrechocar de garrafas, copos e taças, murmúrios inaudíveis, sofrimentos, dramas interiores. Tudo isso é o universo muito difuso, paradoxal entre alegre/triste, dos bares da vida.

Silvinha Telles (1934-1966), Dolores Duran (1930-1959), Dóris Monteiro (1934) e depois Maysa (1936- 1977) cantaram a mesma música, em diferentes arranjos, na nostalgia boêmia de bar, numa profusão de sentimentos entre dois tempos: “O mesmo garçom se aproxima/parece que nada mudou/porém, qualquer coisa não rima/com o tempo feliz que passou”.

Até no gênero musical conhecido por “brega”, Reginaldo Rossi (1944-2013) eternizou o bar na reconhecida canção que foi sucesso nacional: “Garçom/aqui, nessa mesa de bar/Você já cansou de escutar/Centenas de casos de amor/Garçom/No bar todo mundo é igual/Meu caso é mais um, é banal/Mas preste atenção, por favor/Saiba que o meu grande amor/Hoje vai se casar/Mandou uma carta pra me avisar/Deixou em pedaços meu coração/E pra matar a tristeza/Só mesa de bar/Quero tomar todas/Vou me embriagar/Se eu pegar no sono/Me deite no chão”. O sucesso foi absoluto.

Nas músicas “sertanejas” hoje em voga, com duplas tão chocantemente similares em estilo, voz, ritmo e vestuário, como “figurinhas repetidas”, o tema do bar esteve presente como ideário de quem “enche a cara”, “entorta o caneco”, “toma um porre”, “toma uma”, “enxuga uma rama”, “bebe todas”, “chapa o coco” por despeito, traição ou desafeto; temas também repetidos em excesso, hoje, lamentavelmente, com a introdução, inclusive, de palavras de baixo calão.

Nesse cadinho, o universo onírico, tantas vezes dorido e singular dos bares, insere-se o belo livro Poemas de bar, da lavra de Roberto Alves Pereira, na singularidade de seus versos nascidos no ambiente do bar, in loco, numa sugestiva sucessão de assuntos entre um chopp e outro, em guardanapos de papel, que, pacientemente, sua dedicada esposa guardava todos que vinham nos bolsos das calças. 

O que diferencia o poeta de outros é que, os primeiros, distanciados do bar, evocaram a sua existência. O poeta Roberto Alves Pereira singulariza a produção ao criar, no ambiente do próprio bar os seus versos, ao vivenciar o conflito/indagação no mesmo instante, no calor da situação; tendo por companheiro o garçom Borges, do Bar e Restaurante Piquiras, antes na Avenida República do Líbano e, depois, no Setor Marista.

Esse é o santuário da pujança poética do eu-lírico envolto na situação do bar, com seu alarido, seus cheiros, seus ruídos, os sussurros, as conversas, os telões, os garçons a passarem, os risos das pessoas; tudo a criar uma atmosfera propícia à imaginação.

O livro, com o selo da Editora Kelps de Goiânia, com 165 páginas, apresentação do autor, prefácio de Marina Alves Pereira, sua filha, traz uma seleção de belos poemas nascidos no ambiente de bar, em guardanapos. Coligidos depois, integraram o livro que nasceu sob a égide do inconformismo do autor diante das situações da vida e da sociedade. Clama o autor pela hodierna incapacidade humana de amar, na superficialidade e laconismo nas relações; bem como a busca do resgate do lirismo, cada vez mais sufocado pela facilidade na dissolução das relações no mundo moderno.

O autor busca, em sua apresentação, destacar o papel da palavra e da poesia, como uma busca pelo encantamento e pela relação de harmonia que este gênero literário é capaz de ajustar. No prefácio, Marina Alves Pereira destaca a relação do poeta com a palavra, seu inconformismo, como ser machucado pelo mundo, ao traçar o perfil do pai, na revivescência da criação do próprio livro, com seus pedaços singulares, compostos pouco a pouco, como um mosaico de sentidos vários. O emaranhado das palavras é para o autor o grande mistério do registro de sentimentos por meio da palavra escrita, ao grafar instantes que se perdem ao nunca mais.

Já no início dos poemas, em maioria os versos de sete sílabas, o autor delineia o bar como um “Santuário profano”, na disparidade do termo como um chocante paradoxo. Nele, o amor é o grande tema que se derrama como o chopp no copo, numa mistura de sentimentos sagrados ou não, em tudo de bom ou ruim que o bar carrega em seu ambiente e seus frequentadores, na variedade de situações. Profanos e inquietos são os que estão no ambiente do bar, mas o poeta ressalta que “Profanos somos nós outros/que a tanto inquietamos/profanos seremos sempre/aqueles que tanto amamos”.

Em “O poeta” o eu-lírico faz a definição atemporal do poeta, ser que desde as eras imemoriais, traz consigo as dores do mundo, numa angústia do tempo. Em certo trecho do poema, faz uma invocação, a dirigir-se a alguém, em tom indagativo e, depois, em tom de conselho, no que tange ao uso do dinheiro. Já em “A ressaca”, faz a definição em tom jocoso, dos sintomas do pós-bar, das situações que sentem aqueles que bebem e filosofa sobre esse momento: “Pois viver não é somente/nascer, crescer, lutar/viver há de ser também/curtir a mesa de bar”.

Em “Renúncia”, o autor faz um retorno ao bar, como é recorrente a todos que frequentam esse ambiente, uns por prazer, outros por desfastio, mas sempre na renúncia de alguma coisa que fere a alma e a busca em “ser sábio no viver”. Já em “Teu olhar” o eu-lírico exorta sobre os goles que dão inspiração, que aquecem os sentimentos e a alma a divagar, os penares e os prazeres da vida, em rimas que destacam a condição humana ante o esquecimento ou não das coisas, pessoas ou sentimentos.

No poema “O amigo”, traduz o sentimento em relação ao outro, ao companheiro de mesa de bar, com suas vivências e a necessidade do compartilhar. Já em “Voz do coração”, discute sobre a voz destoante; aquela que vem dos mais puros sentimentos, na sublimidade das emoções. Faz, ainda, a dicotomia entre amor e paixão, na relação sempre pungente entre as pessoas. Já em “Paredes espessas”, o eu-lírico traduz as divagações e anseios de uma alma a esperar nas coisas e os impedimentos como muralhas, como paredes espessas, a impedirem a realização de todas as coisas.

Nos poemas “Contradições” e “Roteiro da vida” o eu-lírico mostra os desacertos da vida, num roteiro nem sempre correto e retilíneo, como o esperado, ou seja, a essência humana em que “temos o mal e o bem”, num jogo constante de desafios cotidianos, “na difícil arte de amar”.

Em “Busca”, a incessante procura por algo que se materializa na mesa do bar; o fadário humano de sempre buscar por aquilo que se parece perdido na luta pela vida e no enfrentamento das coisas, como em “De mansinho”, como se nos parece o olhar do poeta nas indagações profundas de alguém que chegou e ocupou um espaço nos “Sentimentos”, quais buscas de medidas mais concretas para o amor. Entrelaça, como um fio condutor, todos esses poemas, a posição sempre de busca de todos nós e “de meus colegas de bar”.

No poema “Ancoradouro incerto”, há uma modificação na estrutura dos poemas, bem como um tom idílico a uma mulher imaginária, amada, que traz por “Descuido”, as lágrimas e o inconformismo diante do embrutecimento que a vida reduz as pessoas. Em “Nostalgia”, a concepção de um mundo piorado, nas reminiscências dentro do tempo, em comparações entre ontem e hoje, em duras conclusões acerca do destino humano.

No poema “Resistência”, o eu-lírico busca a tentativa de conciliação entre o real e o ideal em comparações da dimensão do próprio ser e já em “Lenitivo”, a escrita aparece como catarse, como alívio, como lenitivo às durezas ásperas do tempo e a escrita como volta, retorno à essência do ser. Em “Certeza no olhar”, as reflexões na mesa do bar na busca incessante do sentido das coisas tão sem sentido na atualidade. “Desvirtuamento” nos aparece como a canção do boêmio; daquela velha boemia cheia de bossa, dos nomes de Moreira da Silva e Nelson Gonçalves; boemia pura, carregada de sentidos. Tudo isso se perde quando se percebe, hoje, os jovens nas distribuidoras de bebidas, em pé, com o som dos carros ligados, a beberem a esmo, sem conexão com o tempo e o espaço em torno.

Em “Perdas”, o tom melancólico das mágoas que são lavadas na mesa do bar; talvez, fruto de um amor idealizado, incompreendido em que o eu-lírico “Morrendo de amor”, sente-se esnobado pela mulher querida, em que se pensa morrer de amor, num tempo que isso era possível, dada a sublimidade dos sentimentos, tão bem cantados por Núbia Lafayette (1937-2007): “Mata-me depressa/já não tenho mais motivos pra viver/chega de promessas/pois o teu desejo/é me fazer sofrer”.

O ato de inspirar-se sempre no momento do bar aparece em “Inspiração”, no termo sempre recorrente do bar como santuário de promessas inconfessas, em que por “Doação”, a dicotomia do que é o amor humano e como deveria ser, num plano mais onírico; já que o ser está fadado à “Solidão”, que se torna o grande mote do poeta, na sua lírica da mesa de bar, em que o ser humano, nas “Peias da vida”, está indissoluvelmente preso ao cotidiano desgastante e que dificulta a relação do “último romântico”, na dura moenda do tempo.

As tentativas de definição do amor aparecem em “Amor passageiro”, na fugacidade do cotidiano; no que se concerne de “Amor proibido”, que se vive “no silêncio, à distância”; ao ver uma “Loira vulcânica”, a despertar o sono de um vulcão, no silêncio de todas as coisas, tal qual a “Morena do cerrado”, como modelos de musas inspiradoras do eterno poeta.

Em “Acorda”, a busca incessante pelos sentidos, nas dores da vida, nas “Cicatrizes” que ficam, no sentido recorrente da lua, eterna musa dos inspirados românticos. Esse sentimento de lirismo se exorta em “O boêmio”, numa definição própria do seu papel na mesa do bar, em que, carregado de “Reminiscências”, faz uma revisão da vida, suas incompletudes e perdas na “Incerteza” de todos os momentos. Há um fio condutor que une os poemas, nas reflexões nascidas e tecidas no ambiente do bar.

Os últimos três poemas do livro “Eternidade”, “Pra você” e “O filho” o eu-lírico assume um tom de conselho, na busca de um provável futuro; conselho aos jovens e velhos, prováveis leitores (ou não), nas incongruências da vida, suas contradições e desacertos e os sonhos de pai em relação aos filhos.

Livro denso e de profundos significados, Poemas de bar aparece como uma indagação acerca do sentido da vida, do amor, da alma, da caminhada humana e de seu fadário de perquirições. Na madureza do autor, mineiro de 80 anos de idade, a reflexão de um homem notável, com sua experiência na compreensão da dor humana, no sagrado mister da psiquiatria há tantas décadas, brinda o leitor com sua profusão de versos, carregados de sentimentos, na maestria dos arranjos poéticos, carregados de beleza e cintilações outonais, no “tarde da vida”, como asseverou Cora Coralina.

Mergulhar na poesia profunda de Roberto Alves Pereira é conhecer um pouco mais da densidade das relações. Conhecê-lo pessoalmente foi ainda mais uma dádiva, na observação de sua atuação humanitária e significativa no exercício de sua profissão, alia-se, agora mais, numa admiração profunda, etérea e terna, ao conhecer as minúcias de um coração personificado no bem, a serviço da saúde, da beleza, da poesia e dos mistérios da existência. 

Na história dos sentimentos e das minúcias, de pequenas coisas significativas, o espaço para Roberto Alves Pereira!

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