60 anos de Jornalismo na UFG: da ditadura à era da inteligência artificial
30 setembro 2026 às 13h17

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O curso de Jornalismo mais antigo de Goiás, o da Universidade Federal de Goiás (UFG), completa 60 anos de existência nesta quarta-feira, 30. Foi fundado ainda durante a ditadura militar, sobreviveu à censura, testemunhou a Constituinte, passou pelo fim da exigência do diploma em 2009, pelas transformações provocadas pela pandemia e tem se moldado para o futuro da profissão.
As lutas e vitórias conquistadas no passado se misturam às perspectivas de esperança e receio sobre o futuro da profissão. Em homenagem à escola que formou centenas de jornalistas em Goiás, inclusive este que vos escreve, o Jornal Opção ouviu professoras que ajudaram a construir essa história, os calouros de 2026, responsáveis por representar o que o futuro pode esperar do jornalismo, e o professor aposentado Nilton José dos Reis, conhecido como “Niltin”.
Solange Franco, atual coordenadora do curso de Jornalismo da UFG e formada em 1985, conta que a estruturação do curso começou em 1966 e o primeiro vestibular aconteceu em 1968. Os dois anos iniciais foram dedicados à elaboração do currículo, à viabilização de recursos e à contratação de professores, alguns formados em Jornalismo por outras universidades e outros graduados em diferentes áreas pela UFG.

A professora Ângela Teixeira, formada em 1988, revela que, até o início dos anos 2000, o curso de Jornalismo era pensado principalmente para o jornalismo impresso. As formações voltadas para rádio e televisão, inclusive, eram feitas separadamente. Posteriormente, em 2004, o curso de Rádio foi extinto e a graduação em Jornalismo passou a oferecer uma formação mais ampla e multimidiática.

Rosana Maria Borges, formada em Radialismo em 1997, foi a primeira diretora da TV UFG e conta um pouco dessa transformação a partir da implementação do canal de televisão e dos desafios enfrentados. “Muitos desafios. Infraestruturais, muitos desafios do ponto de vista burocrático. Porque a TV, até então, a legislação já mudou. Mas, até então, uma autarquia federal não poderia ter um canal de rádio e televisão.”

O professor Nilton, aluno da terceira turma do curso, faz um resumo do que enfrentou durante seu período na profissão e afirma ter a sensação de que, atualmente, os jornalistas lidam com problemas semelhantes. “Parece que, do ponto de vista da relação do jornalismo, da profissão dentro da sociedade, de 70 até hoje, a gente teve momentos de altos e baixos, mas parece que a coisa voltou ao mesmo lugar.”
Outros desafios enfrentados e superados pelo curso ultrapassaram as questões institucionais. O efeito na formação dos jornalistas, porém, foi inverso. Solange conta sobre o período da ditadura: “É curioso, porque quanto mais fechado o regime, quanto mais censura, mais dificuldades a gente tinha para expor suas ideias, expor denúncias, fazer reportagens, mais motivada a gente ficava.”
Superando esses desafios, a graduação continuou acompanhando transformações e contribuindo para mudanças importantes. “O curso de Jornalismo contribuiu com a profissionalização da imprensa, contribuiu com o desenvolvimento dos veículos de comunicação aqui no Estado de Goiás e contribuiu para essa efervescência de ideias, para abrir uma abertura de expressão, que a gente, ainda que devagar, fazia”, declara Solange.
A democracia chegou, mas as ameaças à prática do jornalismo não desapareceram e ganharam outra roupagem. A professora Ângela detalha sua visão sobre os desafios contemporâneos da profissão: “O jornalista hoje não é mais um único provedor de informação. A gente tem hoje um cenário de digitalização em que pessoas não jornalistas, e sem compromisso, inclusive, ético, com o nosso código profissional que está aqui no Brasil.”
Nilton destaca a relação do jornalismo com a democracia. “A figura do jornalista, eu recupero um antigo comentário, uma antiga posição do Washington Novaes que dizia que o sonho dele era que um dia o jornalista também fosse eleito pela comunidade.”

Rosana também contribui para a discussão e compartilha sua visão: “Eu acho que o principal desafio do jornalista daqui em diante é se capacitar tecnicamente, criticamente e teoricamente. Porque é aí que vem o diferencial, por exemplo, de um jornalista diplomado e um jornalista prático.”
A própria estrutura do jornalismo passou por mudanças internas ao longo dos anos. Uma das principais foi o aumento da participação feminina nas redações. Solange conta sua perspectiva sobre esse fenômeno: “Na década de 80, o jornalismo era muito masculino, mas na universidade já havia muitas mulheres. Já tinha começado essa mudança.”
A coordenadora destaca que, mesmo com o aumento numérico da presença feminina, alguns problemas continuaram. “Tinha uma enorme discriminação. Mas, ainda hoje, é um espaço ainda masculino. Você ainda percebe discriminação, de conhecimento e de credibilidade. É como se a mulher tivesse menos capacidade sobre determinada ação.”
Para exemplificar, ela conta uma história: “Eu me lembro que uma vez eu fui cobrir um colega, Cassim Zaidem, numa apresentação de jornal e tinha um convidado, que era um político. Quando ele chegou no estúdio, ele falou assim… Ah, é você? Não era o Cassim? Assim, com uma decepção.”
A mudança na exigência do diploma também impôs novos problemas ao curso, mas as professoras destacam que a demanda pela formação continua existindo na prática. “Apesar de terem abolido o diploma, o curso de Jornalismo continua. De maneira informal, ainda é cobrado. Os veículos não abrem mão”, disse Solange.
Rosana também contribui: “O jornalismo é a arma mais poderosa que se tem hoje de combate à desinformação. Não é à toa que a discussão do diploma voltou.”
Diante dessa história, é necessário refletir também sobre o futuro. Para isso, ouvimos os calouros Gabriel Dias, Elias de Lima, João Pedro Onofre, Lara Geovana Ramos e Sammuel Conce. Eles falaram sobre o desejo de crescer na profissão, a vontade de contar histórias e suas preferências dentro do jornalismo.

As áreas de cultura e política aparecem com maior destaque, assim como a preferência pela atuação no rádio e na televisão. Lara, que veio de Mozarlândia, declarou: “Às vezes nem a rádio está chegando lá direito. Então, eu vejo que, através do curso em si, da minha profissão, eu consigo fazer com que a comunicação, as informações cheguem até lá também.”
Gabriel afirma que o jornalismo o atraiu pela “capacidade de você pegar um assunto que é complexo e deixar ele legível pra qualquer e toda pessoa. Você conseguir filtrar uma coisa pra que ela não fique restrita ali. Você conseguir narrar os acontecimentos e os conhecimentos pra qualquer pessoa conseguir ler”.
João Pedro também comentou suas expectativas: “Humano no sentido de contar a história das pessoas, eu acredito que a gente não dá voz, todo mundo já tem uma voz, mas a gente proporciona que essas vozes sejam ouvidas. Essas vozes plurais de todo mundo.”
Elias contou como escolheu o curso: “Bem, desde que eu era pequeno, a profissão que eu mais via ao meu redor era o jornal, porque eu, quando eu tinha tempo livre, eu passava assistindo televisão e via essas pessoas contando histórias, difundindo vivências e eu ficava pensando, quero fazer isso também.”
Sammuel compartilhou como foi a recepção da família quando escolheu Jornalismo: “Eu venho de uma família que é do agronegócio. Então, os meus tios são formados ou em Direito ou em Medicina. Então, esse é o que a gente conhece. E aí, quando eu meio que quebro essa linha que tá seguindo a família, foi o choque, praticamente.”
As professoras recomendam que os estudantes foquem nos estudos e busquem se capacitar o máximo possível. “Acho importante a gente preservar uma dimensão do jornalismo que é a informação responsável. Às vezes, o estudante entra hoje muito fascinado, deslumbrado, com rede social, achando que essa visibilidade, que ele pode entrar nesse mundo sem preparo. Mas o grande diferencial do jornalismo é a forma como essa informação é construída, esse conteúdo é ofertado para a sociedade”, aconselhou Ângela.
Por fim, Nilton compartilha o que pensa sobre o futuro: “O futuro vai exigir a formação de um jornalista mais competente que dê conta de explicar e compreender essas contradições profundas, de estarmos numa estrutura de um capitalismo desorganizado e o que significa nós sermos do Sul Global”.


