A redação do Vestibular UFG 2027, aplicado neste domingo, 27, trouxe como tema a pergunta “A literatura pode contribuir para o enfrentamento da crise ambiental?”. A proposta exigiu dos candidatos mais do que uma discussão sobre mudanças climáticas, secas ou outros problemas ambientais: era necessário estabelecer uma relação entre essas questões e o papel que a literatura pode desempenhar na sociedade.

Para a professora Cassiana Carvalho, da escola Articularte Redação, a Universidade Federal de Goiás (UFG) levou para a prova uma abordagem menos convencional da temática ambiental. Em vez de perguntar diretamente sobre causas, consequências ou possíveis soluções para a crise, a banca colocou a literatura no centro da discussão.

“A proposta feita pela UFG é interessante porque desloca o debate ambiental para um campo menos óbvio: o papel da literatura na compreensão e no enfrentamento de problemas ambientais. A pergunta temática não estava se limitando a quais eram as causas da crise ambiental, quais são os problemas ambientais no Brasil”, explicou ao Jornal Opção.

professora Cassiana Carvalho, da escola Articularte Redação | Foto: Arquivo Pessoal

Segundo a professora, o candidato precisava compreender a literatura como uma ferramenta social capaz de dar visibilidade a problemas, representar experiências humanas, sensibilizar o leitor e estimular novas formas de imaginar a relação entre sociedade e natureza.

“A discussão deveria ser feita em torno de como a literatura pode contribuir para o enfrentamento de problemas ambientais, enxergando a possibilidade da literatura de ser um instrumento, uma ferramenta social. Enxergando as funções da literatura no sentido de dar visibilidade, sensibilizar, representar experiências humanas, estimular a imaginação”, afirmou.

Coletânea indicava caminhos para a redação

Os textos motivadores entregues aos candidatos durante a prova deste domingo ajudavam a construir essa relação.

O primeiro texto, “Meio ambiente e literatura”, de Marli Fantini Scarpelli, aborda a capacidade da literatura de representar aspectos da realidade que outras linguagens nem sempre conseguem expressar. O material relaciona a produção literária a questões como degradações, desastres, guerras, mudanças climáticas e outras transformações.

Para Cassiana, uma das possibilidades era mostrar como a literatura torna concretos e próximos do leitor fenômenos que, apresentados apenas de forma técnica, podem parecer abstratos.

“Quando a gente vai pensar de que maneira a literatura pode contribuir, a gente pode pensar muito nesse sentido de tornar visíveis os problemas que aparecem de forma mais abstrata”, explicou.

A professora cita como exemplo a seca. O fenômeno pode ser tratado do ponto de vista climático, mas, quando transportado para uma narrativa, também permite mostrar seus efeitos sobre a vida das pessoas.

“A questão da seca, embora possa ser apenas um fenômeno climático, consegue impactar vidas, fazer deslocamento, fome, e tudo isso a literatura pode mostrar para o indivíduo, sensibilizar, pode antecipar consequências de possíveis desastres ambientais”, afirmou.

Sobradinho e mudanças provocadas pelo homem

Outro texto apresentado aos vestibulandos foi a canção “Sobradinho”, de Sá & Guarabyra. A obra aborda as transformações provocadas pela construção da barragem de Sobradinho e as consequências para cidades e populações atingidas.

A coletânea trouxe ainda a sinopse de “Cyber PANC e Só Zé: o resgate de um superpoder pifado e outras caminhadas”, de Mariana Brecht. A narrativa apresenta uma cidade transformada pelas mudanças climáticas e personagens que precisam encontrar formas de sobreviver e reconstruir a relação com o ambiente.

Na avaliação de Cassiana, os materiais permitiam ao candidato perceber a literatura não apenas como forma de registrar problemas existentes, mas também como instrumento para imaginar consequências e futuros possíveis.

“Podemos até mesmo imaginar outras formas de relação com a natureza, e é isso que a coletânea vai trazer”, destacou.

Quais caminhos poderiam ser desenvolvidos

A partir da coletânea, diferentes linhas de argumentação poderiam ser construídas. Uma delas seria apresentar a literatura como instrumento de conscientização e transformação social.

O candidato também poderia explorar a capacidade das obras de antecipar futuros possíveis, permitindo que o leitor entre em contato com consequências de crises ambientais antes mesmo que elas ocorram.

Outra possibilidade seria abordar a produção literária como forma de denúncia dos efeitos da ação humana sobre o planeta.

“O caminho seria pensar essa literatura como instrumento de conscientização, pensando em como ela poderia ser essa ferramenta de transformação social, a literatura como antecipação de futuros possíveis, de pensar nas consequências, nos dilemas ambientais e sociais”, explicou.

Também caberia discutir a crítica à exploração predatória dos recursos naturais e a capacidade da literatura de provocar mobilização.

“A literatura como denúncia dos impactos da ação humana e também como crítica à relação predatória entre ser humano e natureza e também como estimulação coletiva, convidando a sociedade, o sujeito, a se mobilizar, a pensar em estratégias para conseguir melhorar as questões de crise ambiental”, acrescentou.

Vidas Secas poderia ser usado como repertório

Além dos textos fornecidos pela UFG, os candidatos poderiam recorrer a outros repertórios socioculturais para fortalecer a argumentação.

Entre as obras que dialogam diretamente com o tema, Cassiana destaca “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. O romance acompanha uma família de retirantes e permite discutir como a seca ultrapassa a dimensão ambiental e provoca consequências sociais.

“Pensando sobre essa questão dos retirantes, de como a seca, um problema ambiental, afeta não só o meio ambiente, mas essa questão social, da desigualdade social, o quanto os problemas climáticos irão afetar grupos marginalizados, vulneráveis”, explicou.

A partir dessa abordagem, também seria possível trabalhar o conceito de racismo ambiental, relacionando os efeitos das crises ambientais à desigualdade.

“Era um conceito muito atual que a gente poderia trabalhar, mostrando de que forma essas intempéries ambientais afetam mais os grupos marginalizados e raciais”, disse.

Morte e Vida Severina e Ailton Krenak também poderiam aparecer

Outra obra citada pela professora é “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto. O texto poderia servir como repertório para abordar seca, território, desigualdade e deslocamento populacional.

A produção do escritor e líder indígena Ailton Krenak também poderia contribuir para a argumentação. Cassiana destaca “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, obra na qual o autor questiona a separação entre humanidade e natureza.

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“Ele vai trabalhar muito no seu livro como a sociedade atual constrói essa separação entre natureza e homem, entre humanidade e natureza, transformando a natureza nesse mero almoxarifado para a gente tirar os recursos naturais”, afirmou.

Músicas, conceitos e outras manifestações culturais também poderiam ser utilizadas, desde que o candidato conseguisse relacioná-las à discussão proposta.

Falar apenas sobre crise ambiental poderia fugir do tema

Apesar de a crise ambiental ser um assunto recorrente, a formulação escolhida pela UFG exigia atenção. Um dos principais erros seria produzir uma redação inteira sobre desmatamento, queimadas, mudanças climáticas ou poluição sem explicar qual é o papel da literatura diante desses problemas.

O caminho inverso também poderia comprometer o desenvolvimento: falar exclusivamente sobre literatura sem estabelecer a conexão com o meio ambiente.

“Os principais erros que eu acho que o aluno poderia cometer é se limitar somente à questão da literatura ou somente à questão ambiental, sem construir a relação de como essa literatura pode ser um mecanismo de transformação social, um mecanismo que pode intervir nas questões ambientais”, alertou Cassiana.

Segundo a professora, discutir somente as causas e consequências da crise ambiental não responderia integralmente à proposta.

“Para além disso, ficar trabalhando também só com a questão ambiental, as causas das crises ambientais e as consequências disso, e não responder que essa literatura é capaz de fazer essa mudança social”, explicou.

O diálogo com a coletânea também era fundamental.

“O maior erro seria se limitar a uma só discussão e também não construir o diálogo com a coletânea”, afirmou.

Tema não era difícil, mas exigia mais do candidato

Na avaliação de Cassiana, a proposta aplicada neste domingo não pode ser classificada necessariamente como difícil. O desafio estava na necessidade de estabelecer uma relação pouco habitual entre dois campos diferentes.

“Eu diria que o tema não é um tema difícil, mas é um tema que exige mais do aluno, até porque essa construção entre literatura e meio ambiente acaba não sendo tão comum, tão usual na sala de aula, na própria mídia”, avaliou.

Para desenvolver uma boa redação, o vestibulando precisava interpretar os textos motivadores e conectar conhecimentos sobre literatura e questões ambientais em uma linha argumentativa coerente.

“Isso vai exigir do aluno essa interpretação, essa relação de ideias e fazer com que o que ele saiba de literatura e de meio ambiente consiga construir um projeto de texto que consiga guiar a abordagem completa desse tema”, acrescentou.

Tema reforça perfil da redação da UFG

A proposta deste domingo também reforça, segundo a professora, uma característica da redação da UFG: a cobrança por textos mais reflexivos e interdisciplinares.

“A banca tem avaliado uma postura mais reflexiva, interdisciplinar por parte do candidato”, afirmou Cassiana.

Nesse sentido, não bastava demonstrar domínio isolado sobre literatura ou meio ambiente. O candidato precisava explicar como uma produção cultural pode participar da construção de sentidos sobre a realidade e influenciar a maneira como a sociedade percebe os problemas ambientais.

“Esse tema evidenciou muito para a gente que não bastava discutir o meio ambiente ou a educação. Era preciso entender e explicar como uma determinada forma de produção cultural, a literatura, participa dessa construção de sentidos sobre o mundo”, explicou.

Para Cassiana, a característica também distancia a prova da UFG do modelo mais recorrente do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

“Isso exige do aluno uma capacidade de interpretação, de leitura, de criticidade, profundidade para conseguir estabelecer essas relações, que vai se distanciar do Enem, que comumente trabalha com temas que já vêm com uma problemática pronta e voltados muito para as minorias sociais”, comparou.

Segundo a professora, a proposta mantém uma característica própria da universidade ao exigir que o candidato construa sua argumentação a partir da interpretação dos materiais e apresente um posicionamento crítico.

“A UFG continua se mantendo dentro dessa ideia de fazer com que o texto seja autônomo e revele um posicionamento crítico interpretativo sobre as dinâmicas sociais e os diversos contextos que se estabelecem”, concluiu.

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