Altair Sales Barbosa
Altair Sales Barbosa
é professor, doutor em Antropologia pela Smithsonian Institution – Washington, D.C. e pesquisador visitante da UniEvangélica (Anápolis).

O último relinchar da quagga

A espécie de zebra extinta 150 anos atrás mostra que se perdermos a flexibilidade para nos adaptarmos também desapareceremos

Registro de arquivo de uma quaga, animal extinto em meados do século 19 após caça intensa por sua carne e pele | Foto: Reprodução

Quagga era uma espécie de zebra garbosa e imponente de pelagem marrom-clara, pernas esbranquiçadas com tonalidades amarronzadas, listras pretas e brancas, da cabeça até a parte superior do dorso.

Nativa dos prados da África do Sul, a quagga foi violentamente caçada tanto por sua carne, quanto por sua pele. Desapareceu totalmente em 1872.

Por outro lado, o Mar de Aral situado na região desértica da Ásia Central, é outro exemplo clássico de contínuo desastre humano e ambiental. O mar é alimentado por dois importantes rios, o Amu Dar’ya e o Syr Dar’ya. Até o início do século 20, havia um equilíbrio entre a água fornecida por esses rios e o índice de evaporação do mar de Aral, que não tem escoadouro.

A partir de então, a antiga União Soviética, buscando tornar-se autossuficiente na produção de algodão, desviou as águas dos dois rios para irrigar grandes áreas para plantação. Essa iniciativa provocou drasticamente, num ritmo crescente, a diminuição do volume de água do Mar de Aral, que se tornou um pesadelo ecológico e ambiental para mais de 35 milhões de pessoas.

À medida que o mar de Aral foi encolhendo, vastas áreas do seu leito ficaram expostas. O material em exposição contém grande quantidade de cloreto e sulfato de sódio, elementos nocivos para as plantações. Além disso, o vento que sopra essas terras, levanta o sal e a poeira que são carregadas para toda região do Aral, causando imensos prejuízos à safra de algodão e à vegetação nativa restante.

A seca e a poeira salgada têm sido a causa de inúmeras doenças, incluindo o câncer de garganta. A água potável tornou-se tão contaminada que muitas pessoas sofrem de distúrbios intestinais.

Esses exemplos demonstram que a extinção de comunidades, animais e vegetais, bem como o desaparecimento de rios, desertificação, mudanças climáticas oriundas de desmatamentos, chuvas ácidas, desabamento de casas construídas sobre lixões, contaminação por lixo tóxico, vazamentos de óleos etc. são fenômenos que o homem pode causar e que o afetam diretamente. Entretanto, se ampliarmos o horizonte para além do tempo histórico ou para além do tempo de aparecimento do gênero Homo, constataremos que estes fenômenos são insignificantes para afetar  a existência do planeta Terra.

Isso porque a Terra não necessita do homem para continuar existindo: pode ser ferida aqui ou ali, dentro do conceito humano. Porém, no parâmetro do tempo geológico, sempre arranjará meios de se recompor, recriar novas paisagens, até quem sabe, melhores para seu equilíbrio planetário.

O ser humano deveria descer do seu pedestal de onipotência e achar que é capaz de salvar o planeta. Essa é uma visão ridícula, que só interessa aqueles que querem ridicularizar as massas para que essas permaneçam na escuridão da ignorância e, assim, aceitem passivamente ensinamentos medíocres, covardes, com roupagem farisaica e economicista.

A Terra é um planeta dinâmico, cujas forças vão muitíssimo além da capacidade humana. Com a idade de 4,6 bilhões de anos, a Terra é um planeta em constante mutação. Essas mudanças envolvem tamanho, formato, inversão da polaridade magnética, distribuição geográfica dos continentes e das bacias oceânicas, formação de cadeias rochosas, geleiras, maremotos etc.

A composição da atmosfera e as formas de vida que hoje existem diferem daquelas do passado. Podemos visualizar os desgastes das montanhas pela erosão de geleiras, das águas, dos ventos etc., da mesma maneira com que observamos como se formaram cânions, desertos e outras paisagens ao longo do tempo.

Erupções vulcânicas, terremotos e deslocamento de placas tectônicas só demonstram o interior ativo do planeta. Rochas fraturadas e dobradas revelam o enorme poder das forças internas da Terra.

Portanto, vulcões, terremotos deslocamentos e acomodações de placas tectônicas, fenômenos como El Niño e La Niña, orogenismo, subsidência, glaciação e até o efeito estufa, dentro de um tempo pretérito, não são fenômenos decorrentes das atividades humanas na biosfera. Esses fenômenos sempre existiram no planeta, muito antes do homem evoluir de um ramo especial de primatas e criar as tecnologias que impulsionam o mundo moderno.

As forças que hoje atuam na Terra são as mesmas que sempre atuaram desde as origens do planeta. Certamente as condições do futuro serão diferentes das atuais.

Em imagens de satélite, o espantoso encolhimento do Mar de Aral através dos anos, após uso da água para abastecer cultivo do algodão na antiga União Soviética | Foto: Reprodução

Se o modelo de vida atual continuar sem revoluções significativas, não teremos certeza se os seres humanos continuarão evoluindo. Da mesma forma, caso haja esta possibilidade, pairam dúvidas sobre quais parcelas da humanidade alcançariam um futuro distante e como seriam as formas dos nossos descendentes.

Sobre o que não pairam dúvidas é que, por mais de 4 bilhões de anos, várias transformações aconteceram na Terra. Vulcões e terremotos ocorreram e deverão prosseguir ainda por muitos milhões de anos.

A ciência tem conhecimento suficiente para afirmar que os elementos radioativos existentes no interior da Terra e que representam importantes fontes de calor, um dia, num futuro, vão desaparecer. Desse modo, a energia geotérmica que movimenta o interior da Terra vai se extinguir. Como consequência, o campo magnético do planeta deixará de existir, expondo a Terra à ação dos ventos solares, com suas radiações mortíferas e que podem nos alcançar com velocidades de 900 quilômetros por segundo, varrendo do planeta toda forma de vida conhecida.

Com o término do campo magnético, associado às atividades de vulcanismo e ao aumento do calor oriundo do sol, a água da Terra vai evaporar, originando um planeta deserto. Se estendermos nosso horizonte para um futuro mais longínquo, 5 bilhões de anos, como estimam os astrônomos, poderemos entender que o Sol transformar-se-á numa estrela gigante avermelhada que engolirá a Terra e o próprio sistema solar desaparecerá.

O que se pretende demonstrar com esses exemplos é que nós humanos deveríamos compreender que muitos desastres naturais, estão muito além do nosso alcance.

É comum imaginarmos que a extinção dos dinossauros, há 70 milhões de anos, foi uma imensa tragédia. Na realidade foi uma tragédia. Entretanto, se comparada às tragédias ocorridas no final do Paleozoico, isso se torna um evento pequeno.

Naquele período, há 250 milhões de anos, as catástrofes levaram à extinção mais de 90% da vida até então existente no planeta.

Lembramos com frequência da última glaciação, que se iniciou há 2 milhões de anos e que teve seu último avanço há 11 mil anos. Este fenômeno redesenhou a face moderna do planeta Terra. Todavia, inúmeros fenômenos glaciais já aconteceram no planeta ao longo de sua turbulenta história.

O ser humano deveria parar de mentir para si mesmo. Isso faria um bem para toda humanidade. Por que é tão difícil admitirmos a evolução? Será que admitir que somos produtos da evolução nos obriga a confrontar vários fatores que preferiríamos ignorar?

Paisagens complexas compostas de flora e fauna tão improváveis hoje em dia, já apareceram e desapareceram da Terra. O homem é apenas um elemento na história do planeta, o qual se desenvolveu muito bem sem sua presença, por centenas de milhões de anos.

Se nós humanos perdermos a flexibilidade para nos adaptarmos, também seremos extintos. Nesse caso outras espécies tomarão nosso lugar. Preencherão nossos nichos e seguirão com o processo evolutivo.

Por fim, é preciso termos consciência de que nossas habilidades para controlar o curso dos eventos humanos é uma ilusão. A confiança é adaptativa e muitas práticas culturais têm como uma de suas funções a manutenção da confiança.

Os mitos dizem que fomos criados para dominar a Terra, os rituais reforçam esta ideia, porém a confiança, como outros atributos, pode também chegar a ser uma má adaptação. Isso parece ser o caso de nossa confiança no crescimento explosivo da população humana. Confiamos que problemas como modificação substancial da atmosfera; redução significativa da biota natural; exploração desenfreada dos recursos não renováveis; injeção massiva de materiais tóxicos no ar, no solo e no mar; desmatamento descabido para expandir as fronteiras econômicas; transposição de rios frágeis; e represamento inescrupuloso das águas correntes, entre outros, traz ambientalmente desafios simples, que podem ser bem resolvidos e quando quisermos.

Se essa ideologia continuar guiando os políticos que pensam no efêmero e iluminar os apóstolos de religiões que manobram com ar de onipotência, em nome de Deus, grandes massas populacionais para construção de impérios dourados, a ignorância, filha desse processo, será responsável por conduzir cada vez mais o povo para os subterrâneos da incompetência, podando-lhe a consciência e a criatividade.

Aí então, será apenas uma questão de tempo para ouvirmos o último relinchar das zebras, primas da Quagga, que às duras penas, ainda sobrevivem nas savanas africanas.

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