Acompanho o futebol desde criança, quando Zico estava no auge e era quase um super-herói no comando de um esquadrão que eu acreditava invencível até encontrar a Itália naquela tarde triste em Barcelona.

A Copa da Espanha foi a primeira a que assisti com relativa consciência do que era o esporte e certamente me fez aprender muito sobre o vencer e o perder nos gramados e na vida.

A emoção de estar num estádio é algo que não há como reproduzir. Nas arquibancadas, os torcedores vivem sensações únicas. Parodiando um político famoso, hoje preso pela segunda vez, despertam-se os instintos mais primitivos.

É o efeito manada, que na felicidade faz abraçar um desconhecido, mas que na hora da fúria faz encorpar um coro de compilado de insultos.

Não fosse a distância – ou a proteção – segura entre campo e público, os torcedores invadiriam as quatro linhas repetidamente. Ou para comemorar os sucessos ou para linchar os responsáveis pelos fracassos.

Todo esse preâmbulo para chegar à mesma Espanha daquela Copa, mas agora no campeonato local, conhecido mundialmente como La Liga e onde já brilharam nomes como Maradona, Romário, Bebeto, Figo, Zidane, Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho, Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar, entre tantos mais.

Neste domingo, 21, em Valência, no sudeste espanhol, a estrela mais promissora do lendário campeonato foi o centro das atenções da plateia. Não pela primeira vez, mas talvez pela última. E por um motivo, mais do que ruim, cruel e injustificável: a cor de sua pele.

Vinícius Jr., hoje o melhor jogador daquele que é o maior clube de futebol de todos os tempos, em história e em números, ouviu as arquibancadas mais uma vez o chamarem de “macaco”.

Indignou-se, chamou o árbitro, apontou para um dos racistas, reagiu aos berros, chorou, foi contido por companheiros e consolado por adversários.

Em pleno século 21, ainda há, no chamado Primeiro Mundo, quem insista em diminuir o talento alheio por suas características genéticas.

Pior do que isso, só o papel boçal que fez a organização do campeonato, na figura de seu presidente, Javier Tebas. O cartola, em outras palavras, mandou um “informe-se melhor” ao jogador, seguido de “você não nos procurou [nas ocorrências anteriores] para nos explicarmos”, após ser criticado abertamente por Vini Jr. ao fim do jogo. Como se pudesse haver outra “explicação” ao racismo senão a punição severa aos criminosos que o cometem nos estádios.

Mas o que disse o brasileiro?

— Não foi a primeira vez, nem a segunda e nem a terceira. O racismo é o normal na La Liga.  A competição acha normal, a Federação também e os adversários incentivam. Lamento muito. O campeonato que já foi de Ronaldinho, Ronaldo, Cristiano e Messi hoje é dos racistas. Uma nação linda, que me acolheu e que amo, mas que aceitou exportar a imagem para o mundo de um país racista. Lamento pelos espanhois que não concordam, mas hoje, no Brasil, a Espanha é conhecida como um país de racistas. E, infelizmente, por tudo o que acontece a cada semana, não tenho como defender. Eu concordo. Mas eu sou forte e vou até o fim contra os racistas. Mesmo que longe daqui.

Ao desabafar dessa forma e sofrer a crítica do todo-poderoso de La Liga, Vinícius Jr. novamente respondeu:

– Mais uma vez, em vez de criticar racistas, o presidente de La Liga aparece nas redes sociais para me atacar. Por mais que você fale e finja não ler, a imagem do seu campeonato está abalada. Veja as respostas do seus posts e tenha uma surpresa. Omitir-se só faz com que você se iguale a racistas. Não sou seu amigo para conversar sobre racismo. Quero ações e punições. Hashtag não me comove.

Vini Jr. talvez não saiba, mas pode estar, com sua atitude, iniciando um movimento muito maior entre clubes, jogadores e demais profissionais do futebol. Seu treinador, Carlo Ancelotti – cogitado para dirigir a seleção brasileira, inclusive –, tornou o racismo a pauta da coletiva após a derrota de seu time para a equipe local. O Real Madrid, maior clube do mundo, está pressionado a tomar uma atitude mais drástica.

O atacante já carrega na pele, há mais de dois anos, a marca da luta. Mandou tatuar na coxa esquerda a frase do imperador etíope Hailé Selassié, musicada por Bob Marley:

Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, haverá guerra

No mais, se La Liga não faz nada para mudar, a Fifa precisa fazer algo para mudar La Liga. Um jogador já está fazendo muito bem sua parte. Parabéns e obrigado, Vini Jr. Mais uma vez, não foi só futebol.