Durante anos, o Brasil conviveu com uma contradição difícil de explicar. Mesmo dono de algumas das maiores reservas de terras raras do mundo, o País demorou a transformar esse potencial em uma estratégia nacional. Agora, quando investimentos bilionários avançam e Goiás ocupa posição de destaque nesse mercado, o governo federal parece ter percebido a importância geopolítica desses minerais.

O problema é que Goiás percebeu antes.

Enquanto a União ainda discute no Congresso a Política Nacional de Minerais Críticos, Goiás avançou dentro das competências estaduais. O Estado criou a Autoridade Estadual de Minerais Críticos de Goiás (Amic-GO), instituiu um fundo específico para o setor e regulamentou uma política voltada à exploração e, principalmente, à verticalização da cadeia produtiva.

A estratégia vai além da retirada do minério do solo. O modelo busca estimular beneficiamento, transformação industrial, inovação tecnológica e geração de empregos dentro do próprio Estado. Em outras palavras, Goiás tentou enfrentar antecipadamente uma preocupação que agora aparece com força no discurso nacional: não basta extrair e exportar. É preciso agregar valor.

Mais recentemente, a Assembleia Legislativa também aprovou uma política voltada à mineração sustentável e à exploração estratégica de terras raras, com diretrizes relacionadas à inovação, qualificação profissional, recuperação ambiental e atração de investimentos.

Isso não significa que Goiás possa ocupar o espaço constitucional da União. Os recursos minerais pertencem à União, e a própria regulamentação estadual reconhece essa competência federal. A questão é outra: enquanto Brasília demorava para construir uma estratégia nacional, Goiás tomou a dianteira dentro do espaço que lhe cabia.

A ironia é que a movimentação federal ganhou força justamente quando as terras raras goianas passaram a despertar ainda mais interesse internacional.

O negócio envolvendo a Serra Verde, em Minaçu, e a americana USA Rare Earth colocou Goiás no centro de uma discussão que deixou de ser apenas econômica e passou a ser também geopolítica. Uma das preocupações levantadas em Brasília envolve a previsão de destinação da produção inicial aos Estados Unidos.

De repente, aquilo que Goiás já tratava como estratégico ganhou urgência nacional.

O governo federal passou a pressionar pela aprovação da Política Nacional de Minerais Críticos e a discutir formas de ampliar o processamento desses materiais dentro do Brasil. A preocupação é legítima. Terras raras são fundamentais para setores como veículos elétricos, energia renovável, eletrônicos, satélites e indústria de defesa.

A pergunta, entretanto, permanece: por que somente agora?

Se esses minerais são estratégicos hoje, também eram quando Goiás começou a estruturar sua política. Se agregar valor à produção é prioridade agora, também deveria ter sido antes. O risco de o Brasil permanecer apenas como fornecedor de matéria-prima não surgiu com o acordo envolvendo Minaçu.

A corrida começou antes do governo federal decidir correr.

Agora, com o crescimento do interesse estrangeiro, a União tenta recuperar espaço no debate. E o Brasil realmente precisa de uma política nacional capaz de proteger seus interesses, estimular a industrialização, desenvolver tecnologia e evitar que uma riqueza estratégica saia do País sem deixar desenvolvimento proporcional.

O que não se pode fazer é transformar essa necessária atuação federal em uma tentativa de apagar o protagonismo construído por Goiás.

Minaçu não ganhou importância porque a União descobriu as terras raras. O governo federal voltou seus olhos para Minaçu porque as terras raras goianas se tornaram importantes demais para serem ignoradas.

A União tem competências e instrumentos que Goiás não possui e precisa exercer esse papel. Mas também precisa reconhecer que, enquanto o governo federal ainda discutia o caminho, Goiás decidiu avançar.

Na corrida mundial pelas terras raras, o maior erro do Brasil talvez tenha sido perceber tarde demais que a largada já havia acontecido.