Lula cobra transparência dos outros, mas foge quando o assunto é Lulinha
27 agosto 2026 às 16h38

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abandonou uma entrevista coletiva nesta terça-feira, 25, em Brasília, depois de ser questionado por jornalistas sobre as investigações que envolvem seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e o ex-assessor presidencial Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. O episódio ocorreu no Quartel-General do Exército, durante a cerimônia em comemoração ao Dia do Soldado.
A atitude de Lula merece crítica justamente porque a pergunta não partiu de adversários políticos nem de militantes de oposição. Foram jornalistas cumprindo uma de suas principais funções: questionar o presidente da República sobre um assunto de evidente interesse público. Quando o chefe do Executivo deixa o local quando surge uma pergunta incômoda envolvendo um familiar investigado, a imagem transmitida é ruim. E, em política, imagem também é mensagem.
Três inquéritos e uma pergunta que ficou sem resposta
Lulinha é alvo de três inquéritos da Polícia Federal relacionados a suspeitas de tráfico de influência e corrupção. As investigações apuram, entre outros pontos, possíveis tentativas de intermediação de negócios junto ao Ministério da Saúde e à Dataprev, além de outras tratativas envolvendo empresas privadas e órgãos do governo. É fundamental ressaltar: investigação não significa condenação, e Lulinha nega ter cometido irregularidades.
É justamente por isso que Lula deveria ter respondido. Se acredita na inocência do filho, como já declarou publicamente, nada seria mais adequado do que explicar sua posição diante das perguntas dos jornalistas. O presidente não precisaria fazer a defesa jurídica de Lulinha, muito menos antecipar conclusões sobre as investigações. Bastaria responder. O silêncio diante de uma pergunta legítima, seguido da saída do local, produz um efeito político muito mais prejudicial do que uma resposta objetiva.
O episódio também envolve questionamentos sobre Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, citado nas investigações. A imprensa tentou saber do presidente qual era sua avaliação sobre as relações entre os personagens envolvidos nas apurações. Lula, entretanto, não respondeu e deixou o local.
A régua da imprensa não pode mudar conforme o político
Há ainda uma questão de coerência. Durante os anos de Jair Bolsonaro no poder, Lula e setores importantes da esquerda foram duros ao criticar atitudes do então presidente diante de jornalistas. Bolsonaro foi acusado inúmeras vezes de ser hostil à imprensa, de confrontar repórteres e de se recusar a responder determinadas perguntas.
Ora, se esse comportamento era condenável quando praticado por Bolsonaro, também deve ser condenado quando ocorre com Lula. A imprensa não pode ser considerada democrática apenas quando faz perguntas convenientes. Jornalista não tem obrigação de proteger presidente, filho de presidente ou qualquer autoridade pública de perguntas desconfortáveis. O compromisso deveria ser com a informação e com o interesse público.
É perfeitamente legítimo que Lula critique o conteúdo de uma pergunta, conteste uma informação ou diga que não pode comentar uma investigação em andamento. O que causa estranheza é abandonar a entrevista justamente quando o assunto se torna delicado. O presidente que tantas vezes defendeu a necessidade de diálogo com a sociedade deveria ser o primeiro a demonstrar disposição para ouvir e responder, inclusive quando a pergunta não lhe agrada.
O risco para a reeleição
O maior problema para Lula talvez nem esteja no episódio isoladamente, mas na possibilidade de o caso Lulinha ganhar vida própria durante a corrida eleitoral de 2026. A oposição já percebeu o potencial político do assunto e começa a explorar as investigações como instrumento para desgastar o presidente.
Uma eleição presidencial é, em grande medida, uma disputa pela confiança do eleitor. Se o caso permanecer no noticiário, novas informações surgirem ou as investigações avançarem, Lula terá cada vez menos espaço para simplesmente ignorar o assunto. E cada vez que evitar jornalistas, o episódio poderá ser utilizado politicamente para sustentar a narrativa de que o presidente prefere fugir das perguntas a enfrentá-las.
Lula ainda tem condições de transformar uma crise potencial em demonstração de transparência. Para isso, precisa fazer exatamente o contrário do que fez no Quartel-General do Exército: responder. Não precisa condenar o filho nem o absolver. Precisa defender o princípio de que ninguém está acima da lei, nem mesmo seu próprio filho — e permitir que a investigação siga seu curso.
O problema, portanto, não é apenas Lulinha. É a postura presidencial diante de uma pergunta legítima. Lula e seus aliados passaram anos cobrando de Bolsonaro respeito à imprensa e disposição para responder aos questionamentos dos jornalistas. Agora, o presidente tem a oportunidade de mostrar que essa cobrança não era apenas conveniente para atacar um adversário político. Democracia e liberdade de imprensa precisam valer também quando a pergunta atinge a própria casa.
Se Lula pretende disputar a reeleição com a imagem de estadista experiente e defensor da democracia, episódios como o de Brasília deveriam servir de alerta. Em uma campanha presidencial, o eleitor não avalia apenas aquilo que um candidato diz quando está confortável. Ele também observa como reage quando é colocado contra a parede. E, nesta terça-feira, ao ser questionado sobre Lulinha e Marcola, Lula preferiu sair pela porta.
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