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A cassação do mandato de Renato Freitas, deputado estadual pelo PT do Paraná, é um sinal claro — e alarmante — de que o Brasil continua sendo um país onde a balança da justiça política pesa de maneira desigual. Freitas foi cassado por defender professores agredidos pela polícia em uma sessão da Assembleia Legislativa do Paraná, denunciando, com veemência, o autoritarismo e a violência institucional. A punição veio rápida. Já os deputados Amauri Ribeiro (UB-GO), acusado de violência de gênero, e Gustavo Gayer (PL-GO), investigado por vários crimes e conhecido por disseminar desinformação e atacar instituições, seguem exercendo seus mandatos normalmente, blindados por seus privilégios políticos, sociais e econômicos.

Renato é negro, jovem e oriundo das periferias. Amauri e Gayer são homens brancos, ricos e alinhados à extrema direita. Não é coincidência que o sistema trate uns com mais rigor do que outros. Quando um deputado como Renato Freitas sobe à tribuna para denunciar abusos contra professores — profissionais que têm sido sistematicamente desvalorizados e atacados —, ele cumpre seu papel de parlamentar. Sua cassação, portanto, é um silenciamento institucional, um recado para que figuras como ele não se levantem contra os interesses da elite política.

Amauri Ribeiro é investigado por violência política de gênero contra a deputada Bia de Lima (PT). A resposta da Assembleia? Nenhuma. Amauri também já admitiu ter agredido a filha para dar um “corretivo” porque encontrou fotos íntimas no celular dela. Durante a 15ª fase da Operação Lesa Pátria, deputado estadual foi alvo de busca e apreensão pela Polícia Federal (PF), porque além de ter participado dos atos golpistas em 8 de janeiro, também financiou a tentativa de golpe.

Amauri também se tornou réu por racismo após postar foto de mão branca apertando punho negro com frase: ‘Na minha família não’. A imagem foi veiculada em seu Instagram em abril de 2022 e gerou uma investigação do Ministério Público acatada pela Justiça.

Além do histórico criminoso, Gustavo Gayer já foi alvo de mandado de busca e apreensão da Polícia Federal por crimes ligados à disseminação de fake news e ataques às instituições democráticas. Durante um podcast, ele afirmou que democracias não prosperam na África por causa da “capacidade cognitiva” da população.

A declaração gerou rechaço imediato. Em seguida, a Advocacia-Geral da União (AGU) enviou uma notícia-crime à Procuradoria-Geral da República (PGR). Logo depois, a PGR denunciou o deputado ao Supremo Tribunal Federal (STF). Na última polêmica, Gayer sugeriu que Gleisi, Lindbergh e Alcolumbre seriam um “trisal”. Resultado? Continua impune e ainda coloca seu nome como postulante ao Senado.

Nenhum dos dois sofreu qualquer sanção significativa. Pelo contrário, ambos são blindados por colegas e por uma parcela significativa da opinião pública conservadora, que normaliza seus comportamentos — até mesmo os mais graves.

A diferença de tratamento é explícita. Enquanto Freitas é criminalizado por levantar a voz contra injustiças, seus colegas brancos e ricos seguem blindados por um sistema que insiste em proteger seus iguais. Essa seletividade não é apenas jurídica — é política, é social, é racial.

Cassações e punições políticas deveriam ser aplicadas com isenção, responsabilidade e respeito à democracia. Mas o que se vê é uma justiça que age com o peso de um rolo compressor sobre parlamentares que desafiam o status quo, enquanto fecha os olhos para quem usa o cargo público para cometer abusos e perpetuar discursos de ódio.

O caso de Renato Freitas não é isolado — é parte de um ciclo contínuo de exclusão política. É o mesmo país onde Marielle Franco foi assassinada e até hoje não se sabe (ou não se revela) quem, de fato, mandou matá-la. Onde jovens negros são os principais alvos da violência policial. Onde professores são espancados por lutarem por direitos básicos.

O Brasil que cassou Renato Freitas e mantém Gayer e Amauri impunes não é apenas injusto. É um Brasil que escancara suas estruturas racistas, classistas e profundamente desiguais. E enquanto essa lógica não for enfrentada com coragem, os verdadeiros criminosos continuarão no poder — e os que lutam por justiça continuarão sendo perseguidos.

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