Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

UPP faz estardalhaço mas não prende marginais. Por isso os índices de violência continuam altos no Rio de Janeiro

José Mariano Beltrame: secretário do Rio de Janeiro ignora que a violência caiu em São Paulo porque lá o governo prende mais marginais | Foto: André Dusek/Agência Estado

José Mariano Beltrame: secretário do Rio de Janeiro ignora que a violência caiu em São Paulo porque lá o governo prende mais marginais | Foto: André Dusek/Agência Estado

Considero uma jactância, uma presunção, usar o célebre “eu não disse?”, quando se comprova uma nossa afirmação da qual a maioria discordava. Mas vou cometer esse pecado, ao menos uma vez. Sempre combati nestas linhas o tom grandiloquente com que governos e imprensa se referiam às Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) cariocas. Os leitores se lembram. Houve uma intensa louvação da medida. José Mariano Beltrame, o secretário da Segurança que a implantou no Rio de Janeiro, chegou a ser lembrado para o Prêmio Nobel da Paz! Seria o primeiro brasileiro a recebê-lo.

Nunca acreditei, pela lógica, que uma operação, por mais ruidosa que seja, diminua a criminalidade, se não retira de circulação os criminosos irrecuperáveis que são ou deveriam ser o seu alvo. Prisão, e não estardalhaço, é o que impede um marginal de cometer crimes. As UPPs nunca prendiam — apenas migravam traficantes para outras favelas ou estabeleciam com eles um pacto não escrito de convivência, pelo qual drogas continuavam a ser comercializadas nos mesmos volumes, e em alguns casos até mais tranquilamente, desde que armas não fossem exibidas ali nas proximidades das UPPs e tiroteios entre gangues cessassem. Um ganho diminuto para tanto gasto e barulho. Fui criticado.

Um leitor, com quem me encontrei em um evento, chegou a afirmar que eu depreciava a única ação de envergadura que o poder público desenvolvia contra o crime. O que ocorre agora com as UPPs? Sequer coíbem mais a guerra entre facções do tráfico ou a presença de criminosos armados, que atacam e destroem as instalações dessas unidades e ferem ou matam policiais.

Policiais das UPPs não po­dem fazer patrulhas, pois são cer­cados nas favelas e postos em fuga. As UPPs estão acuadas. De que valem? Cinco dessas unidades foram incendiadas em Manguinhos, só numa semana, em março agora. E vamos aos números da criminalidade no Rio, que teoricamente despencariam com as UPPs: de 2012 para 2013 houve um crescimento de 20% tanto no número de assassinatos quanto no de roubos, na “Cidade Maravilhosa”. Os crimes de morte saltaram de 4.081 para 4.761 (quase 30 mortes para 100 mil habitantes) e os roubos de 49.560 para 60.796. O próprio José Mariano Beltra­me concordou que os investimentos sociais, por si sós, não re­solvem a questão. Não disse, mas pensou na necessidade das prisões — que não fez — para diminuir o crime. São Paulo, que a imprensa ligada ao governo federal tenta tachar de tão ou mais criminalizado que o Rio, prende o dobro, não faz estardalhaço e tem índice de assassinatos quase três vezes menor.

Entenda por que são assassinados mais brasileiros do que americanos e canadenses

1) Morrem mais de 50.000 pessoas assassinadas por ano, em uma população de 198 milhões. Isto significa uma taxa de 25 mortes por 100.000 habitantes. Nos EUA essa taxa é de 4,2 e no Canadá de 1,6.

2) Há alguns Estados da Federação em que a situação é ainda muito pior. Alagoas, por exemplo, “exibe” a taxa de 58 assassinatos por 100 mil residentes.

3) Entre as dez cidades mais violentas do mundo, ostenta três: Maceió, Fortaleza e João Pessoa.

4) As autoridades e a imprensa mais alinhada com o governo se escandalizam e cobram apurações sempre que bandidos e marginais morrem em confronto com policiais, mas não se preocupam nem por um segundo quando bandidos atacam, emboscam e matam policiais.

5) Quadrilhas organizadas funcionam dentro de presídios, chefes criminosos presos dispõem de comunicação com os membros em liberdade das quadrilhas e dão ordens para execução de crimes, de morte inclusive.

6) Criminosos estão muito mais bem armados, municiados e equipados do que os policiais. E onde o uso de coletes à prova de balas eficazes contra armas de grosso calibre é vetado para cidadãos corretos e que deles necessitam, como os profissionais da imprensa.

7) Os policiais são orientados para apanhar sem reagir, de bandidos e manifestantes violentos.

8) O homem normal é proibido de portar arma de defesa, ainda que, muitas vezes, demonstre claramente necessitar disso.

9) O cidadão comum encontra dificuldades enormes do ponto de vista da burocracia e dos custos para adquirir uma arma e mantê-la em sua residência, mesmo depois de um referendo que mostrou à larga o desejo de autodefesa da população.

10) Um idoso ou uma idosa, que dentro de sua casa alveja um malfeitor na mais legítima defesa, recebe tratamento policial pior do que recebe o bandido assaltante.

11) Uma pessoa honesta (como um artista nacionalmente conhecido e sem antecedentes desabonadores) é preso e autuado por serem encontrados em sua bagagem alguns poucos cartuchos de pequeno calibre — e sem arma nenhuma.

12) Menores a poucos dias da maioridade já são assassinos ou latrocidas, às vezes com várias reincidências. E têm proteção total das autoridades do governo, que impedem a revisão do Estatuto da Criança e do Adolescente, estimulando a total impunidade desses jovens monstros.

13) Já ressurgiram bandos armados que se consideravam extintos desde o tempo do cangaço de Lampião. Esses bandos já assolam cidades, do Nordeste principalmente, mas também do resto do país, rendendo destacamentos policiais, tomando cidades, saqueando e explodindo bancos.

14) Policiais, ao reprimir manifestantes violentos, que tentam invadir a sede máxima de um dos três poderes (STF-Brasília), são inibidos em sua ação, espancados pelos marginais e ainda são publicamente considerados culpados do acontecido por alta autoridade do Governo (Gilberto Carvalho, ministro secretário-geral da Presidência). E os marginais são recebidos pela Presidente da República.

15) Policiais são mal remunerados, mal equipados e mal treinados e trabalham em instalações velhas e malcuidadas.

16) Tornou-se rotina o bloqueio de estradas por manifestantes contra qualquer coisa. As paralisações rodoviárias afetam centenas de pessoas, na maioria trabalhadores, enquanto autoridades federais e estaduais ficam temerosas, e não enviam a polícia para desbloqueá-las.

17) Assaltantes à mão armada agem a qualquer hora, do dia ou da noite, com enorme calma, por estarem convictos da omissão das vítimas desarmadas.

18) Vigora um sistema penitenciário similar ao da Idade Média, a tal ponto cruel que o ministro da Justiça chegou a afirmar que preferia a morte a uma das prisões pelas quais é responsável. Nada se faz para minorar essa calamidade. As prisões continuam insuficientes e superlotadas.

19) Tem uma organização criminal tão temível que o mesmo ministro da Justiça, ao enviar tropas federais para o Rio de Janeiro e ao afirmar que “o governo estadual e o governo federal, juntos, são mais fortes que o crime organizado”, reconhece que nenhum dos dois governos, em separado, poderia enfrentar as organizações criminosas hoje atuantes.

20) A Polícia Federal sofre influência indevida, tentando forçá-la a agir como polícia do partido no governo e não como polícia do Estado.

21) As Forças Armadas, cujo dever constitucional é bem outro, são encarregadas de prender bandidos nos morros cariocas, totalmente desviadas de suas funções.

22) Proliferam os pontos de venda e consumo de drogas, as “cracolândias” à vista de todos, autoridades inclusive.

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