Segurança pública em Goiás
12 setembro 2026 às 21h00

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Dias atrás, reportagem neste jornal acusava o governo Marconi Perillo de descaso com a Segurança Pública, em artigo que, como acontece em períodos eleitorais, só conta a parte da história que interessa a quem escreve. Como fui partícipe dessa história, dou meu testemunho, para que ela se complete.
Bem no final de 2017, desfrutando minha aposentadoria e já na casa dos oitenta anos, fui surpreendido com um convite: o Governador Marconi Perillo, que se desincompatibilizava para concorrer ao Senado e o vice José Eliton, que assumiria o governo, me convidavam para assumir a Secretaria de Segurança Pública, naquele último ano de seu mandato. Era um desafio: Goiânia não era então o que se poderia chamar uma cidade segura. Poder-se-ia dizer o mesmo do Estado de Goiás como um todo, e do Brasil idem (até hoje). Caixas eletrônicos eram explodidos todas as semanas, mesmo no centro da cidade, e o dinheiro levado. Duplas de motociclistas tomavam celulares dos trabalhadores que aguardavam nos pontos de ônibus. Um saque de dinheiro num caixa eletrônico de um banco nas horas mais ermas era uma perigosa aventura. As duas facções criminosas maiores, presentes em Goiás, se enfrentavam bem armadas por domínio de pontos de drogas, e as vítimas eram jovens arregimentados por elas nos bairros pobres para serem soldados do tráfico. Nas cidades do interior, bandos armados tomavam reféns nas ruas, saqueavam agências bancárias e se evadiam; carros fortes eram tomados de assalto em nossas estradas; as penitenciárias eram comandadas por chefes dos principais grupos criminosos, CV – Comando Vermelho e PCC – Primeiro Comando da Capital, já então poderosas multinacionais do tráfico de drogas.
Mas não hesitei em aceitar o desafio. Sempre, em minha carreira política havia me voltado para as questões de Segurança e como filho de policial, conhecia bem o ambiente onde iria me mover. Mesmo nos meus 81 anos de idade, eu me sentia capaz de dar uma contribuição para meu estado. Adiei meus planos de temporadas em Portugal e assumi a Secretaria.
Quando tomei posse, em fevereiro de 2018, já vivíamos mais de 30 anos de governos de esquerda no Brasil, e a cúpula política bem como a imprensa haviam adotado a postura de ver criminosos como “vítimas da sociedade” e policiais como violentos e truculentos. Era a narrativa dita “politicamente correta”, embora totalmente equivocada. Nesse período, o número anual de assassinatos crescera de 14.000 em 1984 para cerca de 60.000 no governo de Dilma Roussef.
Assumi com um propósito: Fazer com que em Goiás o policial e o cidadão se aproximassem, e com que o bandido pagasse por sua escolha.
Procurei pessoalmente defender o policial sempre que injustiçado pela imprensa, apoiá-lo na sua função, garantir seu equipamento e armamento e amparar seus familiares em caso de ferimento ou morte. Promoções e homenagens seguiram sem exceções, o critério do merecimento. Fundamos, com o apoio da classe empresarial, tendo à frente o SECOVI (Sindicato da Habitação do Estado de Goiás), a APOL – Associação dos Amigos dos Policiais e Bombeiros, cuja finalidade era – e ainda é, pois permanece ativa – prestar socorro imediato às famílias dos policiais e bombeiros acidentados (ou falecidos) em ação. Desde então, até o momento em que escrevo, inúmeras famílias foram auxiliadas no infortúnio, de imediato e sem burocracia, pela APOL, tendo contado com a eficiência dos diretores, à frente o presidente Antônio Carlos, o superintendente Sergio Katayama e a secretária Claudia Flores.
Goiânia não era então o que se poderia chamar uma cidade segura. Poder-se-ia dizer o mesmo do Estado de Goiás como um todo, e do Brasil idem (até hoje). Caixas eletrônicos eram explodidos todas as semanas, mesmo no centro da cidade, e o dinheiro levado. Duplas de motociclistas tomavam celulares dos trabalhadores que aguardavam nos pontos de ônibus. Um saque de dinheiro num caixa eletrônico de um banco nas horas mais ermas era uma perigosa aventura
Os representantes das classes policiais tiveram porta aberta em meu gabinete, e se alguma demanda não estava ao meu alcance, eu acompanhava o representante da associação policial ao Governador, na busca de uma solução. Aconteceu algumas vezes, sempre contando com a boa vontade do governador José Eliton.
A presidente da APPB (Associação das Pensionistas da Polícia Militar e dos Bombeiros de Goiás), representante das viúvas idosas de policiais, espalhadas pelo Estado, chefiava por 20 anos a Associação. Quando assumi a Secretaria, fiz uma visita a ela e me admirei do desvelo com que ela atendia àquelas senhoras, já entradas em anos, que buscavam algum tipo de assistência em Goiânia. Seu nome: Venuzia Alencar Chaves. Administrava um pequeno hotel, cuidadosamente tratado, onde abrigava as pensionistas que vinham do interior, e dispunha de veículo e secretária para acompanhar aquelas senhoras em suas consultas médicas e exames hospitalares. Seu empenho era deveras impressionante. Doei à APPB, enquanto ocupei a Secretaria, todos os meses, metade do meu salário, como contribuição pessoal.
Procuramos, com o Delegado Geral André Fernandes de Almeida e o Comandante Geral da PM, Cel. Silvio Vasconcelos Nunes, uma cooperação com o Ministério Público e com o Tribunal de Justiça. O chefe da Inteligência da Secretaria, delegado Danilo Fabiano mantinha permanente contato com os chefes da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e da ABIN em Goiás. O Ministério Público, diga-se de passagem, montou um eficiente departamento de Inteligência, que muito auxiliou no combate ao crime em Goiás. Como apreendíamos muitas armas modernas nas mãos dos traficantes e estas eram encaminhadas à Justiça, por várias vezes, graças à cooperação e esclarecimento do então presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Gilberto Marques Filho e do encarregado do setor de Segurança do TJ, desembargador Itamar de Lima, conseguimos doações para a PM desse material apreendido, o que aliviava nosso apertado orçamento.
O trabalho era integrado, não só com a DGAP – Diretoria Geral de Administração Penitenciária, chefiada pelo competente Cel. Edson Costa, como internamente, na Secretaria, com as chefias, como a da Polícia Técnico-Científica, cuja superintendente era a delegada Rejane Silva Barcelos e o PROCON, cuja superintendente era a delegada Darlene Costa Araújo. Pessoalmente, eu estava muito bem assessorado, pois meu ajudante-de-ordens era o competente major Pedro Henrique Batista (que quando escrevo, já é Coronel e comanda o Policiamento da Capital) e minha chefe de gabinete a dinâmica delegada Emília Podestá.
Logo no início da gestão, discutindo com o delegado Danilo Fabiano, disse de um plano que me ocorrera, a ser executado juntamente com a DGAP, a Diretoria de Administração Penitenciária: fazer uma varredura minuciosa nas penitenciárias e apreender os telefones celulares, cortando a comunicação dos chefes do crime entre si. Danilo tinha uma ideia melhor: escutar essa comunicação, e nos antecipar às ações criminosas que eles combinariam executar. Foi uma bela ideia. Conseguimos autorização para a escuta, e com um moderno equipamento israelense, pudemos interceptar os planos dos traficantes, apreender drogas e armas, e até frustrar um plano de fuga em massa do presidio da cidade de Formosa, além de abortar uma operação de novo cangaço, que terminou com uma verdadeira batalha em Brasilândia de Minas, onde a quadrilha estava homiziada em uma chácara. Foi a última operação da modalidade visando Goiás, até hoje (2026).
Sou muito grato ao então comandante de Operações Especiais do Exército em Goiânia, Gen. Mario Fernandes, que gentilmente aquiesceu em treinar os nossos soldados da ROTAM no que havia de mais moderno no Exército em termos de combates especiais. Em boa parte, graças a esse treinamento, nos confrontos mais violentos, e contra traficantes muito bem armados e dispostos a tudo, a PM saiu-se sempre vencedora.
O reconhecimento da população quanto ao trabalho do policial e a autoestima deste, estou certo, cresceram naquele ano de 2018.
Em 2018 desapareceram os estouros de caixas bancários e os assaltos das duplas em motos, que visavam principalmente telefones celulares. Não se viram mais em Goiás assaltos a carros fortes de companhias de transporte de valores. Assassinatos, assaltos, roubos e furtos tiveram queda expressiva naquele ano e continuaram em queda nos anos posteriores. Um total de 34 quadrilhas de assaltantes foram desmanteladas, só em 2018, e chefes das facções criminosas presos foram transferidos para prisões de segurança máxima em Rondônia.
O novo governo, que se iniciou em 2019, recebeu uma polícia equipada e motivada, e como deu sequência ao combate à criminalidade e à valorização do policial, Goiás é até hoje um dos estados mais seguros da Federação.
Nota da redação do Jornal Opção
É importante ressaltar que o artigo do editor João Paulo Alexandre, do Jornal Opção, trata o governo — na verdade, quatro governos — de Marconi Perillo como um todo. Portanto, a referência não é única e exclusivamente à gestão de José Eliton — que governou Goiás por apenas nove meses. Por sinal, no segundo parágrafo de seu texto, Irapuan Costa Junior faz um retrato nada lisonjeiro da segurança pública em Goiás na gestão do tucano-chefe. A rigor, na prática, praticamente endossa (e até amplia) o que informou o jornalista, que tão-somente registrou fatos.
Porém, de fato, quando Irapuan Costa Junior assumiu a Secretaria de Segurança Pública, a situação melhorou. Por quê? Porque, competente, pragmático e sério, adotou medidas duras, que não vinham sendo adotadas. Certa feita, Marconi Perillo nomeou um historiador que, puramente teórico, não tinha a simpatia da polícia e seus resultados como secretário foram pífios. Consta que, ante casos graves e emergenciais, ele perguntava aos subordinados: “O que Napoleão faria?”
Vale insistir num ponto: a gestão de Irapuan Costa Junior na Segurança Pública — por sinal, muita curta — foi positiva. O “comando geral” de Marconi Perillo, de acordo com policiais militares e civis, não foi.
Não uma ou duas, e sim várias vezes, jornalistas do Jornal Opção ouviram críticas de tucanos coroados — gente de esquerda e centro-esquerda — à atuação de Irapuan Costa Junior como secretário de Segurança. Diziam que era “duro demais” e “reacionário”. A rigor, era um peixe fora d’água na gestão tucana… de centro-esquerda. Ou, como Fernando Henrique Cardoso, de esquerda mesmo.


