Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Saúde, felicidade, virtude e a enfermidade das drogas

O uso da droga é responsável pela dificuldade do aprendizado, pelo abandono dos estudos, pela redução da capacidade laboral e pelo desemprego voluntário

Entre as pregações do “politicamente correto”, ou seja, do mimetismo das esquerdas no Brasil, está a da liberação das drogas. Não faltam artistas usuários para essa pregação, até mesmo nomes muito conhecidos e famosos na classe. Entre os políticos também não faltam exemplos. Até um ex-presidente da República empunha essa bandeira, de resto patrocinada por ONGs nebulosas, como a Open Society, do não menos misterioso George Soros.

Não há, contudo, entre todos os defensores da medida, quem mostre, sem deixar grandes dúvidas, sua vantagem. Nem mesmo quando se referem à maconha, droga que, na linguagem politicamente correta, é classificada como “a mais inofensiva”, quando, por um mínimo de verdade, deveria ser dita “a menos prejudicial”. Ela foi liberada em alguns Estados norte-americanos, a começar pelo Colorado, e em todos eles houve um aumento na criminalidade.

As opiniões sobre o uso de drogas divergem, segundo a perspectiva.

Se visto pela ótica unicamente policial, é crime ou contravenção; pela ótica “politicamente correta”, apenas hábito; pela ótica dos governos, na maioria dos casos, questão de segurança, mas também de saúde pública.

Se o leitor concorda com meu raciocínio, o uso de drogas é, antes de tudo, uma doença, uma enfermidade. Tanto é uma enfermidade que admite tratamento e cura. Como inúmeras outras doenças, vem em prejuízo do desempenho físico e psicológico do portador. Mesmo se vencida, deixa sequelas, mormente nos aparelhos respiratório e nervoso central. Ora se apresenta em casos leves, ora casos agudos; tende a se agravar se não cuidada, pois o usuário tem a tendência, à medida que não obtém mais a mesma satisfação, a aumentar a sua dosagem ou a migrar para drogas mais pesadas, podendo levar à morte.

Se o leitor contemplar o desfile de verdadeiros zumbis, na Cracolândia Paulista, certamente concordará que se trata de pessoas doentes, muito doentes.

Muitos outros argumentos poderíamos chamar em socorro desta nossa tese, mas os que apresentamos já são bastantes, para a afirmativa: o uso de drogas é uma doença, e necessita de tratamento. Como acontece com toda e qualquer doença, é fundamental para a cura a vontade do doente.

Como em qualquer enfermidade, as crises agudas, os ataques mais sérios podem ter consequências graves para o doente e para os circunstantes.

O uso continuado pode levar a estados de redução da percepção, do raciocínio e de toda capacidade cognitiva. O uso da droga é responsável pela dificuldade do aprendizado, pelo abandono dos estudos, pela redução da capacidade laboral e pelo desemprego voluntário. Responde pela maternidade precoce e irresponsável, pelo descaso na criação dos filhos seja na educação, seja na alimentação, seja nos cuidados médicos, evoluindo para os maus-tratos e até a morte.

O uso de drogas é culpado pelas agressões de filhos aos pais, principalmente quando lhes falta dinheiro para a compra, por muitos furtos, roubos e até assassinatos.

A droga, para a classe artística, “abre a mente” ou ajuda “na criação”. Mas não é isso que se vê: artistas talentosos na juventude, mas usuários, cedo cessam sua produção artística ou cultural e não mais criam na maturidade, como aconteceu com Bill Evans (1929-1980), nos EUA, um dos maiores músicos de jazz de todos os tempos, cuja morte, também precoce, foi devida ao uso de heroína. O saxofonista Charlie Parker morreu aos 34 anos e o trompetista e cantor Chet Baker morreu aos 58 anos.

Charlie Parker: morte aos 34 anos | Foto: Reprodução

Há casos de morte por overdose ou em um surto, como ocorreu recentemente com o funkeiro MC Kevin, aqui no Brasil. Artistas de grande sucesso quando mais jovens, hoje na maturidade não mais conseguem criar, quando são sabidamente consumidores.

Sim, não há como negar que o uso de drogas representa uma doença, até mais cruel que muitas outras, pois reside no doente a possibilidade de cura, e muitas vezes falta a ele a vontade de se curar; e pior, muitas vezes existe a vontade, mas faltam as forças para tanto. Em ambos os casos o indivíduo se condena a uma meia vida, a alguns momentos de euforia ilusória, contra toda uma existência vivida pela metade. Pois não se pode ser virtuoso se não se for feliz, não se pode ser feliz se não for saudável. Essa é uma regra universal, válida para todos os lugares e para todas as épocas: Saúde, Felicidade e Virtude andam juntas.

O poeta romano Décimo Juvenal, há dois mil anos, em suas “Sátiras”, já afirmava:

Décimo Juvenal: poeta romano | Foto: Reprodução

Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são.

Peça uma alma corajosa que careça do temor da morte,

que ponha a longevidade em último lugar entre as bênçãos da natureza,

que suporte qualquer tipo de labores,

desconheça a ira, nada cobice e creia mais

nos labores selvagens de Hércules do que

nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de um rei oriental.

Revelarei aquilo que podes dar a ti próprio;

Certamente, o único caminho de uma vida tranquila passa pela virtude.

Num dos romances mais famosos — merecidamente — já escritos, “Frankenstein ou o Prometeu Moderno” (Companhia das Letras/Penguin, 424 páginas, tradução de Christian Schwartz), de Mary Shelley (1797-1851), o personagem central, o monstro que se sente doente sem cura em seu aspecto repulsivo, responsável por sua não aceitação pelos homens, numa fala a seu criador, o Dr. Frankenstein, pede a ele que também lhe crie uma companheira. Que por origem será tão repugnante quanto ele, e que a ele se unirá na repugnância, um confortando o outro. E termina sua argumentação:

— Eu era bom, mas a desgraça fez de mim um demônio. Torne-me feliz e serei outra vez virtuoso! 

O filósofo, historiador e professor estadunidense Will Durant (1885-1981), uma mente destacada nos meios acadêmicos dos USA no século XX, paraninfando uma turma de formandos em filosofia em uma universidade americana, na década de 1950, baseou seu discurso aos jovens justamente sobre esse tema: Saúde, felicidade, virtude. Terminava assim:

— Sede sadios e sereis felizes; sede felizes e sereis bons; e então sorvei, até a última gota, o elixir da existência. 

Há controvérsias: uma figura conhecidíssima dos meios artísticos cariocas, pertencente mesmo ao círculo de artistas da Música Popular Brasileira, se jactava meses atrás, pela imprensa, de fumar maconha por 30 anos, caracterizando na sua fala o fato como um hábito inofensivo. Inofensivo compactuar por 30 anos com o tráfico, sendo seu cliente assíduo? Só por aí já se pode dizer que o cidadão é doente. E se um dia seu traficante de estimação desaparecer, em poucos dias verá ele que inferno viverá em sua abstinência forçada. Convencer-se-á então, de que está doente.

O leitor, principalmente se tiver em sua família ou em seu círculo de amizade algum caso de usuário de drogas, há de concordar com o raciocínio: o uso tira a alegria, a saúde, a virtude, e não só do usuário.

A liberação das drogas não é o caminho para a solução dos enormes problemas que elas criam. Qual o caminho? Há que se tentar alguns.

Com a doença espalhada pelo mundo, o consumo de drogas é na verdade uma pandemia, e assim precisa ser encarada. Talvez por uma reunião de cúpula dos maiores países, e que são os mais afetados pelo problema. Uma convocação de seus maiores cientistas da área médica, biológica e de saúde pública, para a busca de solução ou soluções farmacêuticas, imunológicas ou outras muitas que possam existir.

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