De Aveiro, Portugal — A gastronomia portuguesa, admirada em todo o mundo, não alcançou essa fama por acaso. Uma conjunção feliz de fatores, alguns de caráter geográfico, outros de feição histórica, se uniram para trazer à cozinha lusitana a excelência de que hoje desfruta. Vamos resumir para os leitores do Jornal Opção.

A natureza dotou Portugal de uma costa atlântica abundante em toda sorte de pescado. Nas cidades costeiras portuguesas há abundância de peixes, camarões, lagostas e polvos pescados no dia.

Embora a maior parte da superfície portuguesa seja de solos medianos ou pobres, existem áreas de grande fertilidade, como nos vales do Tejo e do Douro, onde se produzem uvas, azeitonas, trigo e muita coisa mais. Há extensas pastagens, onde se criam ovinos, caprinos e bovinos.

Mas os temperos são fundamentais, e é aí que entra a parte histórica. Até o fim da Idade Média, a Europa não conhecia os temperos, exceto o sal, o mel, ou o resultante da maceração das uvas e das amêndoas. Imagine o leitor a sensaboria das comidas.

Os temperos, ao contrário, abundavam em outros continentes, principalmente na Ásia desde antes de Cristo. A chegada das “especiarias” trazidas da Índia, quando das navegações, nos séculos XIV e XV, despertou nos europeus um mundo novo de sabores, e enorme curiosidade. Pimentas, cravinho, cardamomo, noz-moscada, açafrão, canela eram elementos novos no cozinhar e combiná-los entre si e com os alimentos conhecidos iria se tornar uma arte.

Valiam muito, essas especiarias, por isso mesmo. Sua busca, comercialização e transporte custavam caro, o que os fazia privilégio apenas das cortes reais, a princípio. Grãos de pimenta do reino valiam como moeda, dote e até herança, no século XV.

Séculos se passariam antes que as especiarias ficassem ao alcance do restante da nobreza, depois do clero e da burguesia comercial, até chegar à base da pirâmide social. A infanta D. Maria de Portugal (1538-1577), filha de D. Duarte e Isabel de Bragança, neta de D. Manuel, o Venturoso, quando casada com o príncipe Alexandre Farnese, se muda para Parma, em 1566, e leva seu livro de receitas, o primeiro conhecido em Portugal. São quinhentos anos de experiência e aprimoramento que fazem a cozinha portuguesa ser o sucesso que é hoje.

Ao contrário do que acontece na maioria dos lugares, em Portugal come-se bem em todos os locais onde se encontra um restaurante, e eles são muitos. O hábito de cozinhar em casa, no país, só existe em 20% das habitações.

Há uma profusão de restaurantes, pequenos, médios e grandes, nas cidades e fora delas, onde se pode almoçar, jantar ou buscar, devidamente acondicionada, uma bela refeição à sua escolha, para consumir em casa.

Uma recomendação ao turista que vem a Portugal: não busque apenas os belos restaurantes, de vistosa decoração, que abundam principalmente na capital, Lisboa, e nas cidades grandes, como Porto.

A sofisticação e a modernidade podem esconder o que há de melhor nos pratos portugueses, que é o sabor tradicional, fruto da experiência de que falamos linhas atrás. Pode-se comer melhor num pequeno e familiar restaurante de margem de estrada do que num sofisticado restaurante lisboeta montado para atrair turistas.

Busque os restaurantes preferidos dos locais, aqueles que os portugueses frequentam no seu dia a dia, pois são os melhores. Dê preferência aos familiares, aqueles tocados pelos proprietários, que ali permanecem todo o tempo. São os que não permitem queda de qualidade, e em geral são simpáticos e acolhedores.

Picota fica no centro de Aveiro

Ramalho, Laura e Armanda: o trio que opera o bem-sucedido Restaurante Picota, em Aveiro | Foto: Divulgação

Em Aveiro, onde moro, a uma centena de metros de casa, descobrimos um lídimo representante dessa classe de pequenos restaurantes familiares, simpáticos, onde se degusta do que há de mais apetitoso que a cozinha portuguesa pode oferecer. Tornamo-nos frequentadores, como o são os legítimos portugueses das redondezas, que lá se assentam ou que chegam para buscar suas encomendas feitas por telefone ou de véspera, e que ali estão acondicionadas e à espera.

O Picota fica em Aveiro, ao fim da Rua de São Bartolomeu, no centro da cidade, a poucos passos da capela dedicada ao santo e cujas lendas fazem parte da história religiosa local.

Sua fachada e sua porta de entrada são despretensiosas e são de molde apenas a orientar os locais e a freguesia cativa. Não foi feita para chamar turistas, até porque seu espaço é limitado: uma dezena de mesas, se tanto.

O que caracteriza o pequeno Picota não é a quantidade, mas a qualidade. Não houve goiano que estivesse em Aveiro quando aqui estamos, e que levado por nós ao Picota — e foram muitos — não elogiasse os pratos preparados por Dona Armanda.

“Seu” Ramalho e Dona Armanda são o casal proprietário do Picota e dele não arredam pé, o dia todo, de terça a domingo. Enquanto ele cuida do caixa e da grelha, ela reina absoluta na cozinha.

A nora Laura cuida das mesas e dos clientes que chegam para as encomendas. O filho Antônio Paulo é engenheiro e trabalha fora, mas dá uma ajuda nos dias de grande movimento, principalmente nos fins de semana.

O quarteto é de uma enorme simpatia e mesmo em meio à azáfama, sempre encontra um tempinho para dois dedos de prosa com os frequentadores mais assíduos, como minha mulher e eu, quando aqui estamos.

Assim ficamos sabendo mais: a atividade de restauração é uma tradição familiar, que praticam com gosto, embora exija muito trabalho e dedicação.

Tanto assim que as segundas feiras, quando a casa não abre e teoricamente seria dia de descanso, os donos estão em sua quinta, colhendo os ovos, preparando as galinhas e os leitões, ou confeccionando seu azeite puríssimo, uma das delícias da casa.

Nunca será uma experiência perdida um almoço ou jantar no Picota, provar o vinho da casa e testar um dos pratos preparados pessoalmente por Dona Armanda. Além, é claro, de uma das sobremesas caseiras também de sua lavra. Para qualquer gourmet, uma inesquecível experiência.

Tenho exemplo em casa: minha nora Andrea, incorrigível gastrônoma, esteve certa vez, anos atrás, conduzida por minha mulher, degustando os quitutes do Picota. Passaram-se os tempos, mas até hoje, por vezes, aí em Goiânia, em meio a uma de nossas conversas, ela suspira, e fala: “Que saudades daquele bacalhau feito por Dona Armanda!”

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