Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

O Rio de Janeiro não é mais lindo

Uma das mais belas cidades do mundo, potencial polo de turismo com condições únicas de localização e clima, destruída pela degradação política e social

A decadência política do Rio de Janeiro, com todas as suas consequências administrativas, econômicas e morais, é um fato social que por sua relevância e implicações está pedindo um estudo sociológico profundo. Até para que não se repita.

Fui testemunha presente de um Rio de Janeiro literalmente maravilhoso, nos anos 1950 e 1960. A extraordinária beleza natural da cidade era aliada a um trânsito ordenado e eficiente, onde o transporte urbano dava-se via dos bondes elétricos e depois dos ônibus elétricos, e o suburbano por uma Estrada de Ferro Central do Brasil organizada, limpa e segura.

Museu Nacional do Rio de Janeiro | Foto: Reprodução

Na Segurança Pública, o perigo residia apenas nos “descuidistas”, os humildes e mansos batedores de carteiras. Que aliás, eram bastante raros.

O turismo era florescente e as maiores celebridades mundiais acorriam à cidade, em todas as épocas e não apenas nos dias de carnaval. Que era divertido, organizado e seguro.

O ensino, do básico ao universitário, era excelente, reconhecido inclusive no exterior.

As poucas favelas existentes foram praticamente erradicadas no governo Carlos Lacerda (1960 a 1965). Até o fim do regime militar, a cidade ainda se admirava, mas o populismo já começava a fazer das suas. Tivemos então três décadas e meia de desastres. Falemos dos governadores.

Ainda no regime militar, governou Chagas Freitas, de 1979 a 1983. Populista, condescendente com a contravenção (jogo do bicho) e com muitas acusações de tolerante com a corrupção.

Mas o pior estava por vir: Leonel Brizola por duas vezes (de 1983 a 1987 e de 1991 a 1994) com um Moreira Franco de permeio (1987-1991). Deve-se a Brizola o rolar ladeira abaixo da segurança pública do Rio, com tudo que trouxe de mal: aliado e dependente dos bicheiros nas campanhas eleitorais, conteve a polícia carioca no combate à contravenção e com isso a cidade viu a  favelização acelerar e chegar a invasão das drogas na esteira do jogo do bicho.

Seguiu-se Marcelo Alencar (1995-1999), o amorfo governador, amigo do também amorfo Fernando Henrique Cardoso, que queria mesmo só tomar seus drinques.

Daí em diante, e isso é uma indiscutível medida do declínio político e moral do Estado, nenhum governador tentou por freio à favelização da cidade (poderia perder votos) e todos acabaram presos, em uma ou outra ocasião, por corrupção, exceto o atual. Estiveram ou estão atrás das grades Moreira Franco, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão.

Imagine-se a ramificação de tanta corrupção pelos órgãos e empresas estaduais, e chegando às prefeituras. Pensemos nos reflexos, principalmente com os desvios afetando a Educação, a Saúde, os Transportes e a Segurança, e em como foram se aviltando esses e outros serviços públicos.

E os reflexos no tecido social, com os cariocas, já contemplativos por natureza, por um lado se acostumando e pensando ser natural roubar dinheiro público e por outro, cada vez mais se adaptando ao “jeitinho”, ou seja, à tendência de tentar resolver os problemas complexos com soluções simples e malandras.

Marxismo e figuras caricatas

A degradação moral veio com a disseminação das drogas e com o “marxismo cultural”, no meio artístico e jornalístico. Celebridades não escondem o uso e pregam a liberação de drogas. Tornou-se chique apoiar tudo quanto se presta à dissolução da família tradicional.

Pois o Rio, que havia perdido o status de capital da República em 1960, jamais perdeu a posição de centro artístico nacional.

Falamos dos governadores, mas as representações cariocas no Congresso sempre abrigaram malandragens e bizarrices. Convivi com várias, na Câmara dos Deputados e no Senado. Umas, mais conhecidas, como o Cacique Juruna ou o cantor Agnaldo Timóteo. Outras, menos, mas tão estranhas quanto. Como Benedita da Silva, que teve seu primeiro mandato, de deputada federal, em 1986.

Lembro-me de quando chegou à Câmara com seu diploma, e exigiu, na secretaria, um carro oficial. Um funcionário lhe explicou não terem os deputados federais direito a veículo, e teve que encarar um escândalo, pois Benedita alegava que ele a discriminava por ser “preta, mulher e favelada”.

O apavorado funcionário acabou por lhe entregar um carro da administração da Câmara, o que ocasionou, dias depois, outro escândalo de Benedita: a polícia deteve o veículo, achando estranho um casal de jovens passeando em um carro oficial. Eram os filhos da deputada, que fez outro auê, acusando a polícia de racista.

Convivi no Senado com Abdias do Nascimento, famoso por sua luta contra a desigualdade racial. Discursava com frequência, mas o assunto era só um: a discriminação que os malvados brancos promoviam contra os pretos como ele. Só que, tendo sido casado com a talentosa atriz negra Léa Garcia, separou-se dela e casou-se depois com a americana Elizabeth Larkin, louríssima de olhos claros. Ninguém entendeu essa sua união com a malvada branca racista.

Darcy Ribeiro foi outro que foi meu contemporâneo no Senado. Ícone da esquerda brasileira, para quem sempre foi uma sumidade, nunca fez nada digno de nota em sua passagem pela Câmara Alta. Preguiçoso, quase nunca comparecia às sessões. Pertencia à comissão de Relações Exteriores da qual era eu presidente. Tive que mandar recolher em seu gabinete os processos a ele distribuídos, pois os engavetava e nunca os despachava.

Beleza do Rio de Janeiro | Foto: Ricardo Stuckert

Havia o Jacques D’Ornelas, um lunático, sargento do Exército, expulso por fazer pregação comunista nos quartéis, e eleito em 1982 deputado federal. Fazia discursos estapafúrdios contra o capitalismo explorador. Certa feita, fez violento discurso contra o presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo, cujo governo havia vendido aviões de treinamento Tucano, da Embraer, para o governo de Honduras.

Segundo D’Ornelas, eram armas e só um governo insano fornecia armas a outro governo, pois eram instrumentos de destruição e morte. Na sequência, no mesmo discurso, voltava a atacar Figueiredo, por ter o governo brasileiro interceptado aviões líbios que transportavam armas doadas por Muamar Kadafi para o governo sandinista (comunista) da Nicarágua. Só um governo insano para impedir a remessa de armas para o governo sandinista, dizia. Armas que são instrumentos de liberdade e luta contra o capitalismo. Afinal, ficamos todos sem saber se armas eram instrumento de destruição ou de libertação.

Em geral, se aparecia em uma legislatura uma figura exótica, era eleita pelo Rio de Janeiro. Aliás, acontece até hoje. Vide figuras como Jandira Feghali, Alessandro Molon, Jean Willys, Marcelo Freixo ou David Miranda, na Câmara. Figuras extremamente perturbadoras, bizarras, jamais contribuíram com ideias positivas para o processo legislativo para que foram eleitas pelos votantes do Rio de Janeiro.

No Senado também são eleitas até hoje, pelo Rio, figuras que nada têm a ver com as funções da Casa, que ali chegam pela fama em setores completamente estranhos ao Legislativo, como Romário, ou apenas barulhentas, como Lindberg Farias. Mas deixemos o Congresso.

Segurança pública

Não há outro Estado, em toda a Federação, em que o problema da segurança pública seja tão grave quanto no Rio de Janeiro.

Ali, mais que em qualquer outro lugar, a campanha “politicamente correta” de abominar a polícia e ver bandidos como “vítimas sociais” sempre teve apoio político e jornalístico. O resultado foi uma cidade tomada pelo tráfico e pelo assalto, uma polícia desmotivada, áreas dominadas por marginais ou por milícias.

Uma das mais belas cidades do mundo, potencial polo de turismo com condições únicas de localização e clima, destruída pela degradação política e social.

O Rio de Janeiro é uma cidade estiolada, que explode em festa quatro dias no ano, explosão que só pode ser entendida como catarse pelo que passa nos outros 361 dias, em sua decadência.

Um exemplo dessa decadência foi o incêndio do Museu Nacional. Entregue aos cuidados da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que por sua vez está entregue a um partido político de esquerda, foi o Museu objeto do mais completo descaso, embora abrigasse o que há de mais importante da memória nacional.

O reitor psolista Roberto Lehrer tem um orçamento de 3 bilhões de reais, mas não se preocupou de dotar o prédio de um sistema adequado de combate a incêndios, que custaria uma ínfima parte de sua verba, e preservaria ao menos em parte os valores históricos, hoje perdidos. E como o Rio é o Rio, não houve cobrança, até hoje, de responsabilidades. Voltará o Rio um dia ao ser o que era há sessenta anos? Talvez daqui a outros sessenta.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.