Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

O dia em que um prefeito fez um jantar só a base de caça para me agradar

A consciência alertou: a última coisa a fazer será uma desfeita para com essa gente simples, bem-intencionada, ansiosa por agradecer e agradar

Imediatamente, porém, a consciência alertou: a última coisa a fazer será uma desfeita para com essa gente simples, bem-intencionada, ansiosa por agradecer e agradar.

Aconteceu no ano de 1978, num município do então setentrião goiano, hoje Estado do Tocantins, lá na divisa com o Maranhão. Região de muitas carências, poucas sedes municipais dispunham de um serviço de tratamento d’água. Um programa da Saneago, a companhia de saneamento estadual, com o apoio do governo federal, aprovado pessoalmente pelo presidente Ernesto Geisel, possibilitou construir estações de tratamento em vários desses municípios desassistidos. Foi num deles que se deu a história seguinte:

— A região aqui é boa de caça, prefeito? — perguntava eu, então governador, ao prefeito municipal que me levava do aeroporto local para a sede da prefeitura, onde assinaríamos um contrato para a construção da estação de tratamento e da rede distribuidora de água na capital municipal.

— É boa. O sr. gosta de caça, governador? — afirmou o prefeito, já indagando de meu gosto.

— Sou apreciador — respondi, encerrando o assunto e passando para os temas que haviam me levado ao município. Não sabíamos, mas começava ali um mal-entendido que teria para mim algumas consequências.

Uma explicação para o leitor: na minha mocidade, fui caçador. Hoje me arrependo, me penitencio e sou incapaz de matar qualquer vivente, por insignificante que seja. Sequer tenho impulso para esmagar uma barata, o que deixa minha mulher, às vezes, furiosa comigo. Na minha época de juventude, não existia uma consciência ecológica, a caça era abundante e livre, e pertencia mesmo à cultura dos goianos e mato-grossenses, que expandiam a fronteira agrícola brasileira, a prática das caçadas. Hoje existe a consciência, as leis sobre a caça são severas, mas não é isso, a rigor, que me detém.

A reflexão do conhecimento longamente adquirido faz com que eu não admita destruir uma maravilha da natureza que é um animalzinho qualquer, como um pombo ou perdiz. Bilhões de células que se desenvolveram em harmonia, criando um organismo em perfeita consonância consigo mesmo e com o mundo em volta, é algo estético, maravilhoso, de se respeitar, admirar e preservar, não de ceifar. E, filosoficamente falando, somos todos irmãos, filhos da mesma mãe Natureza, do Poder Absoluto que convida a todos para participarmos do banquete da criação, vale dizer, compartilharmos todos da maravilha de existir, de viver.

Na época da conversa com o prefeito, eu ainda apreciava uma caçada, embora meu estômago recusasse terminantemente a carne de caça, fosse qual fosse. Nunca consegui apreciar nem mesmo uma perdiz, tida por muitos de meus amigos e companheiros como o mais apetitoso dos petiscos. Carne de paca, de queixada, de mateiro ou caititu, tudo isso era — e é — para mim intragável. E explico o mal-entendido de que falei lá atrás: o prefeito, ao me indagar se eu gostava de caça, falava em caça iguaria, carne de caça. E eu entendia que ele falava do esporte da caça, da caçada em si.

Meses após aquela visita, quase um ano passado, voltei à sede do município, agora com o sistema de abastecimento de água pronto para uma inauguração festiva. Inauguração que teve lugar na praça principal da cidade, lotada de gente entusiasmada com a chegada do benefício. Terminada a inauguração, já anoitecendo, findos os discursos e aberta a indispensável torneira, pelo prefeito, lançando água na garotada ao pé do palanque, demos por encerrada a solenidade. Mas a festança só iria se encerrar com um jantar no clube da cidade. Fomos à casa do prefeito, onde eu me hospedava, para um banho e lá íamos para o clube, quando o prefeito me cochicha:

— Temos uma surpresa para o sr., governador. Já o sr. vai ver.

Fiquei curioso, mas não disse nada. Chegávamos ao clube.

Ao entrarmos, vejo uma enorme mesa posta com várias bandejas, no centro do salão. Em posição ao lado dela três senhoras perfiladas, quase em posição de sentido. E diz o prefeito:

— Essa é a surpresa, governador. O jantar é do seu gosto, foi todo feito por essas três cozinheiras. E é tudo caça!

Meu olhar correu então em detalhes a mesa: minha primeira visão foi a de um tatu assado no próprio casco. Numa bandeja vizinha uma paca, também assada. E o prefeito explicava, enquanto um frio me corria pela coluna:

— Aqui, umas almôndegas de carne de veado, ali uma farofa de seriema…tudo como o sr. gosta!

As cozinheiras, agora sorridentes, posavam ao lado de sua obra, evidentemente orgulhosas e satisfeitas por terem tanto contribuído para a homenagem e para a noite memorável.

Traumatizado, já com o estômago apresentando seus protestos precoces, pensei comigo: E agora? Imediatamente, porém, a consciência alertou: a última coisa a fazer será uma desfeita para com essa gente simples, bem-intencionada, ansiosa por agradecer e agradar. Seja o que Deus quiser, mas nenhum gesto que mostre o mínimo desagrado.

Cumprimentei entusiasmadamente as três cozinheiras, sentei-me com o prefeito à mesa principal, e, sorridente, participei do mais sofrido jantar de toda minha existência. Procurava comer devagar, pois o prefeito se preocupava em não deixar vazio meu prato. Como demorou a passar o tempo, como tive que reunir toda minha força de vontade para deglutir as iguarias oferecidas. Mas, à custa de uma tremenda dor de cabeça e de muito digestivo no dia seguinte, já em Goiânia, tudo estava bem.

Hoje, passado quase meio século, perdeu-se na neblina do tempo a lembrança daquela noite para os locais do município. Já desapareceram muitas das pessoas presentes, inclusive assessores que conheciam minha aversão àquele tipo de alimento, mas que, calados, apenas observavam e se condoíam, sabendo do necessário e bem-intencionado domínio que eu auto exercia. E hoje posso comentar o acontecido, sem melindrar ninguém. O tempo muda a perspectiva dos fatos: o que ontem era constrangimento, hoje são boas risadas.

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