Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

O ano novo não será bom para Isabel dos Santos, a mulher mais rica de Angola e de Portugal

Grupo do ex-presidente José Eduardo dos Santos saqueou os cofres públicos do país africano. O governo tenta retomar dinheiro

José Eduardo dos Santos e sua filha, Isabel dos Santos | Foto: Reprodução

Os jornais portugueses e angolanos (como “O País”) exibem, neste início de ano, manchetes sobre Isabel dos Santos, conhecida como a mulher mais rica de Angola e de Portugal. Ela é dona de empresas na Suíça, na Inglaterra, em Portugal e Angola.

Isabel dos Santos, já conhecida dos leitores do Jornal Opção (confira link abaixo), é filha de José Eduardo dos Santos, que governou Angola desde os primórdios da descolonização portuguesa – em 1979 – até 2017, e de sua primeira mulher, a russa Tatiana Kukanova. José Eduardo afastou-se do governo alegando idade avançada, mas há rumores sobre problemas de saúde.

O fato é que José Eduardo mandou e desmandou por quase 40 anos no país africano – rico principalmente em petróleo e diamantes. Isso já diz muito da fortuna de Isabel, estimada em 3 bilhões de dólares.

Os rumores, as reportagens (em jornais europeus) e as acusações de dissidentes do regime angolano dando conta do enriquecimento ilícito de Isabel dos Santos são antigos, mas ela sempre procurou rebatê-los. E com papai no governo, um governo ditatorial, não havia como levantar o véu sobre as origens de sua fortuna.

Isabel dos Santos e o marido, Sindika Dokolo: unidos no saque aos cofres públicos de Angola | Foto: Reprodução

Ocorre que o sucessor de José Eduardo, o atual presidente João Lourenço, quer dar ares mais democráticos ao país e não parece disposto a endossar as “travessuras” de Isabel dos Santos, consentidas pelo papai. Mesmo tendo assumido a presidência com apoio dele.

Ao que parece, a coisa é por demais volumosa para que se fechem os olhos.

As estatais angolanas de petróleo (Sonangol) e de diamantes (Sodiam) devem ter sido objeto de algo parecido com o que ocorreu no Brasil com a Petrobrás e que desaguou no Petrolão e na Operação Lava-Jato. Não é de admirar: esse é o padrão de atuação das cúpulas esquerdistas aboletadas no poder. E não nos esqueçamos que José Eduardo era muito próximo de Lula da Silva e Dilma Rousseff, que mandaram muito dinheiro do BNDES para Angola, por meio da construtora Odebrecht. Um dos traços de união entre Lula e José Eduardo era justamente a construtora, o que por si só já basta para muitas interpretações pelos inteligentes leitores do Jornal Opção. Mas a casa de Isabel dos Santos agora caiu, ou pelo menos parte dela.

Jornal de Angola está mostrando o que ocorreu na gestão de José Eduardo dos Santos | Foto: Reprodução

Se no Brasil deve-se ao juiz Sergio Moro e a um grupo de procuradores a coragem de atacar a corrupção institucionalizada, em Angola, ao que parece, foi o próprio presidente João Lourenço quem resolveu pôr fim à roubalheira e fazer algumas apurações. Digo isto porque quem começou as investigações foram os serviços secretos angolanos, que por sua vez informaram ao Serviço de Recuperação de Ativos do governo; este acionou a Procuradoria Geral e a Justiça, deixando-as devidamente abastecidas de informações e provas documentais. Por isso os jornais portugueses abriram o ano de 2020 repletos de notícias sobre os procedimentos do Tribunal Provincial de Luanda quanto às empresas de Isabel dos Santos no país africano.

As informações mais sérias dizem respeito aos negócios com diamantes. Alega o Tribunal que a estatal Sodiam, monopolista dos diamantes, foi usada por Isabel dos Santos e seu marido, o congolês Sindika Dokolo, com consentimento do então presidente Eduardo dos Santos, e descreve os detalhes da corrupção.

Jornal de Portugal mostra o que Isabel dos Santos fez com o dinheiro dos angolanos | Foto: Reprodução

A Sodiam adquiriu, na Suíça, uma empresa joalheira falida, a De Grisogono. Pagou suas dívidas, promoveu sua reestruturação e capitalização, mas deteve apenas 50% das ações, cedendo as restantes a uma empresa de Isabel dos Santos e do marido, a Exem Mining. A Sodiam fez toda a operação via de outra empresa – a Victoria Holding – constituída em um paraíso fiscal, a Ilha de Malta, muito provavelmente para ocultar os detalhes. Isabel não teria despendido um tostão.

A partir de então, a Sodiam vendia à De Grisogono seus diamantes a preços reduzidos, e esta os revendia com lucro, através de outras empresas ou joalherias pertencentes a Isabel dos Santos, nos Emirados Árabes, nos EUA ou nas principais capitais europeias.

Ocorre que os lucros todos eram revertidos apenas para Isabel dos Santos e o marido, pois a Sodiam nunca recebeu dividendos em todos os anos que vem durando a sociedade, isto é, desde 2012.

Isabel dos Santos: a mulher de 3 bilhões de dólares | Foto: Reprodução de montagem

Há também imputações relativas à Sonangol, a petrolífera angolana. Segundo a sentença do Tribunal Provincial de Luanda, a mesma Exem Mining de Isabel dos Santos teria também sido beneficiada em uma associação em que a capitalização teria sido feita integralmente pela Sonangol, e esta nunca teria sido reembolsada por Isabel. Pura e simples apropriação de dinheiro público, é de se deduzir.

Há um agravante: Isabel dos Santos presidiu a Sonangol, durante o governo do pai, e foi demitida por João Lourenço logo que assumiu o governo. Mas o Tribunal não brincou: sentenciou o arresto das contas de Isabel dos Santos e do marido nos quatro bancos angolanos: BFA (Banco de Fomento de Angola), BIC (Banco BIC S.A.), BAI (Banco Angolano de Investimentos) e Banco Econômico, onde tinham saldos. Arrestou também as ações que Isabel detém em uma dezena de empresas (em algumas delas majoritariamente) com sede em Angola, entre as quais a telefônica Unitel (que Isabel estava negociando com um grupo árabe), os bancos BIC e BFA, a Ciminvest (investimentos), a ZAP Média (comunicações e publicidade), a Continental Angola (supermercados), a Cimangola (energia) e a Sodiba (distribuidora de bebidas).

Jornal de Angola, “O País”, escancara a investigação de corrupção de Isabel dos Santos | Foto: Reprodução

Além disso, o Tribunal responsabiliza também José Eduardo dos Santos pelos desvios, e cobra dos responsáveis o ressarcimento de 1 bilhão e 137 milhões de euros para o Tesouro Angolano. Um escândalo de dimensões lavajatianas.

Para complicar ainda mais a vida de Isabel dos Santos, o Banco de Portugal (o Banco Central português), abriu, no apagar de 2019, investigação sobre lavagem de dinheiro no EuroBic (Banco português de que ela detém metade do capital). Se o Tribunal de Luanda terá sucesso, ainda é uma dúvida.

Não se sabe também o montante dos arrestos. Possivelmente, como no Brasil, conseguir-se-á quando muito recuperar uma parcela do dinheiro desviado. Isabel dos Santos é muito rica, e poderá se homiziar na Inglaterra ou em Portugal, onde suas empresas são expressivas. Ou mesmo na Rússia, terra de sua mãe, por cuja cidadania está optando e de onde dificilmente seria extraditada.

O governo angolano conseguiu abortar uma transferência de 10 milhões de euros que um laranja de Isabel estava prestes a fazer para Moscou. Isabel, que há um ano não aparece em Angola (está vivendo em Dubai) temendo uma prisão, talvez consiga ficar livre para gastar seu dinheiro, que, mesmo com os arrestos, ainda é muito. Que o povo angolano, paupérrimo num país rico, sofrido por uma longa guerra de descolonização, a que se seguiu uma guerra interna pelo poder, possa ter de volta, ao menos em parte, o dinheiro que lhe foi subtraído, e que muita falta sem dúvida lhe faz.

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