Num destes dias, passados os dois turnos das eleições, anunciada a vitória de Lula da Silva, alardeada a equipe de transição, um meu amigo, de esquerda e (nem precisaria falar) eleitor do petista, dizia que há que se ser otimista. “Já está definida a coisa. Vamos torcer pelo sucesso do novo governo”, disse,

Respondi com o ditado popular mineiro-goiano acima, argumentando minha dificuldade em ser otimista com um governo que vai se repetir, que não é nenhuma experiência nova, e que tratou a coisa pública com o maior desrespeito e desonestidade por quinze anos.

Eu deduzia, pela equipe de transição anunciada, que teríamos mais do mesmo: quase a metade dela já havia, no passado, respondido a inquéritos por desonestidade e alguns, como ocorreu com o próprio presidente eleito, amargado algum período de cadeia.

Os mais destacados, e que possivelmente ocupariam ministérios, carregavam pecados que deveriam, no mínimo, inabilitá-los para qualquer função pública.

Essa equipe de transição abarcava uma fauna complexa: formuladores do Plano Real (os únicos aceitáveis na turma), que, dentro de sua vaidade e ingenuidade, não perceberam que foram usados para amealhar votos, mas não terão nenhuma influência no futuro governo; assaltantes de banco de sangue; ladrões de aposentadoria de velhinhos; incompetentes provados e comprovados; campeões de processos engavetados na Justiça; formuladores de estratégia soviética; diplomatas bajuladores de ditaduras; parasitas de construtoras corruptas; viciados em estatais e fundos de pensão, condutores de dólares na cueca; donos de esconderijo de caixas de dinheiro vivo; estatistas empedernidos; invasores de propriedade alheia; mensaleiros incorrigíveis e tanta coisa mais.

Xiomara Castro, presidente de Honduras: entusiasmo com o próximo governo do petista Lula da Silva e, sobretudo, com o dinheiro farto do BNDES | Foto: Reprodução

Lula da Silva já anunciou a criação, com dinheiro do trabalhador brasileiro, de dezena e meia de novos ministérios, para abrigar os companheiros saudosos e sedentos de cargos públicos — oh maravilha! — onde ganha-se muito e trabalha-se pouco ou nada.

“Como posso ser otimista?” — arguí. “Quem manda é Lula” — respondeu meu amigo (e aí concordei com ele). “E esse período de prisão serviu para sua reflexão e purificação. Agora inocentado, vai fazer um governo diferente e cuidadoso. Vai ser bom governo”, pontificou.

Tive que dizer a ele que Lula inocentado não foi. Livrou-se dos processos a que respondia, graças à amizade na cúpula judicial, mas os fatos continuavam à vista de todos, grávidos de provas, condenações, delações premiadas, devoluções de dinheiro roubado e pagamento de multas, inclusive no exterior.

Sugeri que perguntasse a quem é do ramo — como algum velho delegado de polícia, um diretor de agência prisional experimentado ou um vivido coronel da Polícia Militar — se cadeia melhora alguém. Iria ouvir um unânime “não” por resposta. Cadeia torna quem passou por ela mais cauteloso quando reincidir no crime, para não mais ser apanhado. E mais rancoroso e vingativo. Piora, pois, não melhora. Como, então, ser otimista? — perguntei, sem obter resposta.

Na Segurança Pública, vimos nos governos de esquerda, desde 1985 até 2017, uma sucessão de equívocos que elevou da casa de 20.000 para a de 60.000 o número de assassinatos anuais, na grande maioria com o narcotráfico de alguma maneira vitimando nossos jovens pobres de periferia.

Policiais foram demonizados por esses governos, presídios foram transformados em escritórios do crime organizado, permitiram que se criassem duas multinacionais do tráfico, o PCC e o Comando Vermelho, que hoje recrutam mais de 100.000 soldados bem armados, bucha de canhão entre esses jovens pobres.

Bandidos são tratados com leniência, fala-se em desencarceramento, quando deveríamos prender mais — em prisões de segurança máxima — e não se aceita a redução da maioridade penal.

Fala-se insistentemente na liberação das drogas. Desarma-se a população e não se cuida de desarmar a marginalidade, que ostenta seu armamento de guerra nas áreas dominadas pelo tráfico.

O MST, bando criminoso que até assassinou várias pessoas, é próximo de Lula da Silva, e mesmo antes de sua posse já ensaiou as primeiras invasões de terras, em sua guerra contra o que dá certo no Brasil: o Agronegócio. Houve boa melhora nos índices de criminalidade no governo atual, mais duro com a bandidagem, mas ao que parece tudo voltará a piorar a partir de 2023.

Na Educação, os índices brasileiros nas avaliações internacionais são de corar de vergonha. Embora gastando muito, o país está nos últimos lugares do mundo nos três níveis educacionais, numa queda livre que já dura três décadas e que por certo não vai ter freio no próximo governo. As universidades federais, muitas delas destaques mundiais em meados do século passado, hoje nos envergonham. Entre as 1.000 melhores na lista da avaliadora inglesa QS University Rankings devemos ter apenas duas ou três universidades brasileiras classificadas. Entre as 100 melhores, nenhuma, embora nossos vizinhos argentinos estejam presentes. E estejam presentes várias universidades da Austrália, Nova Zelândia, Cingapura e Coreia do Sul.

Não vou falar da Saúde. Só repetir um comentário que fiz aqui. No Brasil, morrem todos os dias pessoas pobres por falta de UTIs. O Brasil tem apenas um terço do que recomenda a Organização Mundial da Saúde.

Apenas com o dinheiro doado por Dilma Rousseff e Lula da Silva para Cuba construir um porto marítimo, esse problema estaria definitivamente resolvido. E a presidente de Honduras, Xiomara Castro de Zelaya, mulher do vexaminoso ex-presidente Manuel Zelaya, que usou a embaixada brasileira para tentar um golpe em 2009, autorizado por Lula da Silva, já confirmou sua presença na posse e adiantou que vai precisar de um bom dinheiro do BNDES para obras importantes de seu país. Suas esperanças são fundadas. No que aconteceu no passado e nas declarações lulistas em favor de uma integração latino-americana, integração com os maiores produtores de drogas do mundo, cujos governos, em sua maioria, estão comprometidos com traficantes. Onde as razões para o otimismo? — volto a perguntar, ainda sem resposta. Ou melhor, uma resposta pela tangente, de meu amigo: “Todos têm que se adaptar. Lula foi eleito pela maioria dos brasileiros”.

Respondo que, é claro, as regras do jogo democrático estão sendo seguidas, embora com alguns arranhões por parte do STF e do TSE.

Mas corrijo: Lula da Silva não foi eleito pela maioria dos brasileiros. Sequer pela maioria dos eleitores. Foi eleito pela maioria dos votantes, isto é, por apenas 40% dos eleitores. E os que votaram contra ele (eu nem diria que votaram em Bolsonaro) são os dos Estados mais adiantados da federação, onde o eleitorado é mais informado e livre do coronelismo atrasado e nefasto. Cerca de 85% do PIB brasileiro votou contra Lula. Isso nada tem a ver com a posse, que só obedece à diplomação do TSE, mas significa que existe hoje uma oposição diferente ao eleito: é uma oposição popular, esclarecida, que se revolta contra a corrupção, a baixa moral e os maus costumes. Vide os protestos nas praças e quartéis.

E há, ainda, o risco de uma cisão maior do que já existe, no tecido social brasileiro. “Não posso ser e nem sou otimista, nesse cenário. Mas torço para que vivamos, ao menos, quatro anos de relativa tranquilidade social.” Finalizei nosso diálogo.