Irapuan Costa Junior
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Livro de Gaston Paris sobre a Idade Média é um prato cheio para quem gosta de folclore e história

Gaston Paris: especialista em literatura francesa da Idade Média e quase Nobel de Literatura | Wikipédia Commons

Gaston Paris: especialista em literatura francesa da Idade Média e quase Nobel de Literatura | Wikipédia Commons

Tenho em mãos um livreto realmente curioso, que me foi remetido pelo advogado Mario Roriz, ávido leitor e intelectual por vocação. É um pequeno volume, editado pela livraria parisiense Hachette em 1895, há 120 anos, portanto. Tem o título de “Récits Extraits des Poètes et Prosateurs du Moyen Age”. Foi escrito por Bruno Paulin Gaston Paris (1839-1903), especialista em literatura francesa da Idade Média, membro da Academia Francesa e quase prêmio Nobel de Literatura (foi indicado pela Academia por três vezes, em 1901, 1902 e 1903).

O autor reúne no livro textos extraídos de três fontes francesas: poesias épicas dos séculos XI a XV, fábulas e contos dos séculos XII a XV e relatos históricos dos séculos XIII e XIV.

Gaston Paris abre a primeira parte, onde redigiu extratos de seis poemas épicos, com um resumo em prosa dos famosos versos decassílabos da “Canção de Rolando”, tido como o primeiro poema escrito em uma língua latina. A história do poema, abstraindo as proezas históricas que relata, é por si mesma interessante: foi escrito passados 200 anos das batalhas que descreve, logo, após longa reprodução oral das mesmas (o que acabou resultando em algumas imprecisões históricas), e tornou-se desde então parte do repertório dos trovadores e jograis europeus por outros 200 anos, servindo de estímulo a cavaleiros andantes, vassalos e nobres em preparo para batalhas, inclusive os cruzados, quando se dispunham a libertar Jerusalém.

Segundo os versos, cujo autor se desconhece, Rolando, lendário guerreiro, sobrinho de Carlos Magno e um dos 12 pares da França (ou da doce França, como se dizia na época), personagem principal da epopeia, é surpreendido por muçulmanos (embora quase certamente o tenha sido por camponeses bascos, e não islamitas) em Roncesvalles, Navarra, e é morto, após combater valentemente, quando os franceses se retiravam da Espanha, após o cerco de Saragoça, em 778 (ou em 802, pois há, aqui também, divergências).

Outro poema épico resumido por Gaston Paris é uma parte da “Canção de Guilherme”, também de autor desconhecido, tido como o maior poema da Idade Média, com seus 3 mil e 500 versos decassílabos, composto provavelmente em 1170. Conta as proezas guerreiras de Guilherme de Orange (chamado Guilherme do nariz curto, por ter perdido parte do ápice nasal num golpe de espada) contra os sarracenos (ou muçulmanos).

Também “A Iniciação de Per­ci­val” está resumida no livreto. Ex­traí­da do poema de Chrétien de Tro­yes, o mais célebre poeta da Idade Média (cerca de 1130-cerca de 1180), escrito em oito sílabas, ri­mando duas a duas, conta como Per­cival, filho do cavaleiro Pelinore, é levado pela mãe para retiro numa floresta, temerosa que o filho se torne cavaleiro e morra prematuramente, como o marido. Ocorre que Percival encontra na mata cin­co cavaleiros, com seus trajes de ga­la e seus cavalos brilhantemente a­jaezados e se maravilha. Acaba cor­rendo à corte do Rei Arthur e se tornando um dos cavaleiros da Tá­vola Redonda e auxiliar na busca do Santo Graal. A história-lenda é u­ma das mais conhecidas na Eu­ropa. Percival é o personagem Par­sifal, da ópera homônima de Wa­g­ner e de outro poema, de autoria do poeta alemão Wolfram von Es­sen­bach (1170-1220), que grafava Perzival.

Quanto aos contos e fábulas, Gaston Paris começa seu desfile com a história “Os três cegos de Compiégne”, que talvez o leitor já conheça, por ser um relato de humor negro muito difundido: conta como três cegos, que viajavam (a pé, naturalmente) de Compiégne para uma cidade vizinha são abordados por um rico seminarista, que simula dar como esmola uma moeda de ouro para eles, mas não o faz, ficando cada um certo que a moeda se encontra com um dos outros dois. O seminarista os segue para se divertir com as confusões que vêm daí. É o único conto conhecido de um poeta do século XIII, que tinha por nome Courtebarbe (barba curta), certamente bastante inteligente, a julgar pela criatividade do causo.

Boa parte das fábulas narradas por Gaston Paris são de autores anônimos e já compunham o folclore europeu quando foi feito o livro. Algumas foram extraídas do chamado Roman de Renard, livro de fábulas folclóricas onde os personagens principais são a astuta e bajuladora raposa Renard (nome próprio que passou a significar raposa em francês) e o obtuso lobo Insegrin, eterna vítima das espertezas de Renard.

La Fontaine reescreveu e apresentou como suas algumas fábulas desse livro, bem como algumas escritas por um monge franciscano inglês no início do século XIV, chamado Nicole Bozon. Bozon escrevia em francês, como era praxe entre os religiosos e outros eruditos ingleses da época. Gaston Paris, em seu livreto, mostra cinco fábulas escritas por Bozon e apropriadas por La Fontaine três séculos mais tarde: “A Repartição do Leão”; “Os animais Doentes de Peste”; “O Conselho dos Ratos”; “O Moleiro”, “O Filho e o Asno” e “A Leiteira e o Balde de Leite”. Contam-se entre as mais conhecidas de La Fontaine, e são por certo conhecidas do leitor.

A terceira parte do livro é puramente histórica, e relata sete episódios importantes para a época a que se referem (séculos XIII e XIV). O mais importante deles é “A Conquista de Constantinopla”, extraído de um livro escrito por um militar francês, Geoffroi de Villehardouin (1160-2012), e de uma crônica feita por um cruzado também francês, Robert de Clairi, que voltou à França em 2016, após a segunda tomada de Constan­tinopla. Relata as vicissitudes da quarta cruzada — a formada em 1199 — realizada pelos barões franceses. Conta as dificuldades de financiamento da expedição, principalmente para o pagamento dos venezianos para a travessia do Mediterrâneo até a Síria e as fraturas no grupo dirigente, além, é claro, dos combates. Para quem gosta de folclore e história, esse livrinho é um prato cheio.

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