Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Iluminismo americano radicalizou a ideia de liberdade. O francês influenciou o Brasil

A influência do Iluminismo no Brasil deu-se principalmente pela vertente francesa, a menos sucedida das três

O leitor por certo já terá travado conhecimento com o Iluminismo, movimento filosófico surgido no século 17, com René Descartes e Isaac Newton, e que tomou a Europa (mas não só ela) no correr do século 18 (por isso chamado Século das Luzes) e estabeleceu um novo pacto social onde foi influente.

John Locke: um dos filósofos mais importantes do Iluminismo inglês | Foto: Reprodução

Até que eclodisse, as sociedades europeias eram sujeitas ao domínio da nobreza e da igreja, situação que viria a se modificar a partir do desenvolvimento cultural propiciado pelo Renascimento e pela influência crescente da burguesia, resvalando para o Iluminismo, a Revolução Industrial, a Revolução Francesa e a Revolução Americana. O absolutismo monárquico como forma de governo, o domínio do conhecimento pelo clero e o mercantilismo na economia seriam postos em xeque pelas ideias iluministas de Denis Diderot, de John Locke, de Voltaire, de Montesquieu, de Jean-Jacques Rousseau, de Adam Smith, para citar os principais.

O apelo à razão, baseado nas descobertas relativas ao mundo físico, vinham colocar a ciência em oposição à religião católica, então dominante no mundo ocidental; o desejo do desenvolvimento e das melhores condições de vida da população indicavam uma mudança nas formas de governo; o mercantilismo, entendido apenas como troca de bens, estaria sob desafio do liberalismo econômico, valorizando a produção primária que era vista diferentemente, como geradora da riqueza.

Benjamin Franklin: polímata norte-americano | Foto: Reprodução

O Iluminismo traria profundas modificações para a organização econômica, social e política da maioria das nações mais ricas de então, e de suas relações umas com as outras ou com suas colônias. A Religião e a Ciência disputariam no campo do conhecimento, ainda que alguns filósofos, mais tarde (como Herbert Spencer), defendessem uma conciliação, em que cada uma guardasse sua influência própria e tivessem um objetivo comum. As sociedades buscariam, por meio da razão, formas de governo em que os benefícios da riqueza pudessem alcançar o maior número de pessoas, e os governos limitassem sua atuação às ações mais próprias e necessárias. Haveria a separação entre Igreja e Estado. O absolutismo estava sob fogo cerrado.

Foi uma enorme transformação, se pensarmos que, até a Idade Média, os monarcas dispunham do poder de vida e morte sobre os súditos, e a Igreja, via da Inquisição, tinha a faculdade até de punir com martírio e morte os ditos hereges.

O Iluminismo amenizou alguns monarcas (ditos déspotas esclarecidos) como Frederico II, da Prússia, Catarina II da Rússia e o português Marquês de Pombal, que, não satisfeito de separar Igreja e Estado, acabou por expulsar os jesuítas de Portugal. E chegou até nossas plagas, influenciando, por exemplo, a Inconfidência Mineira.

Ainda hoje, no Ocidente, é largamente adotada a repartição dos poderes em Executivo, Legislativo e Judiciário, tal como preconizado por Montesquieu, embora por vezes haja invasão da seara de um poder pelos dois outros, como é incômodo, mas não raro de se ver.

Gertrude Himmerlfarb, historiadora americana: há três iluminismos | Foto: Reprodução

A premiada historiadora americana Gertrude Himmelfarb (1922-2019), entre outras especialidades uma estudiosa do período vitoriano inglês, postulava que não existiu um Iluminismo, mas três: o francês, que ela batiza de “Ideologia da Razão”, o Inglês, que chama de “Sociologia da Virtude”, e o americano, a “Política da Liberdade”. Não se pode negar razão à estudiosa.

Embora as ideias iluministas fossem comuns nas três nações, os matizes de sua implantação seriam um tanto diferentes. Os franceses adotaram em suas mudanças políticas e sociais um rumo francamente racional, afastando a influência da religião, das tradições e da economia. Já nas transformações da Inglaterra, não se perdiam de vista as virtudes da tradição, da vida familiar e da vida em sociedade, os usos e costumes tradicionais. E os americanos fundariam seu desenvolvimento, a partir das primeiras ideias constitucionais, no primado da liberdade.

Qual das três vertentes do iluminismo melhor resultou para sua sociedade?

1
Iluminismo francês

Filósofos iluministas da França

A francesa, caracterizada pela crença de que a solução para os problemas sociais residia apenas no raciocínio, não levava em conta a realidade histórica, teorizava sobre liberdade, e entrou em confronto direto com a religião. “Esmagar a infame (religião)”, dizia Voltaire. Menosprezou, por outro lado as pessoas comuns (chamadas, pelos iluministas franceses, de “canaille” — ralé), vistas como incapazes de usar, elevadamente, a razão e de serem devidamente educadas. Esse movimento produziria a Revolução Francesa, marca mais famosa do Iluminismo, o Terror e finalmente Napoleão, uma espécie de volta ao “Ancien Regime”. Pouco restou.

2
Iluminismo inglês

Já o Iluminismo inglês teve na religião (principalmente no Metodismo) um aliado para a melhoria das condições de vida da população, considerava o senso moral como pertinente a todas as pessoas, por mais comuns que fossem, e pensava na tradição familiar e nas virtudes da convivência como meio de elevação social. Essa crença, sem dúvida, contribuiu para a estabilidade institucional inglesa.

3
Iluminismo americano

O Iluminismo americano, por sua vez, estabeleceu uma ordem política sobre o primado da liberdade, em consonância com a ideia inglesa do cultivo das virtudes públicas como sustentáculo social. Haveria uma separação constitucional entre Igreja e Estado, mas a organização social americana seria claramente pro-religião. E a liberdade ainda hoje é a grande inspiração do povo americano. Foi quem melhor proveito tirou do arejamento cultural e social do Iluminismo.

Influência no Brasil

A influência do Iluminismo no Brasil deu-se principalmente pela vertente francesa, a menos sucedida das três, pois o destino dos abastados da Colônia era Paris.

A Inconfidência Mineira da década de 1780 e a Revolução Pernambucana de 1817 são exemplos dessa influência. E a Proclamação da República deu-se inteiramente sob a marca do positivismo, movimento francês de Augusto Comte, derivado precisamente do Iluminismo francês, e professado pelos militares e republicanos brasileiros de então.

Uma resposta para “Iluminismo americano radicalizou a ideia de liberdade. O francês influenciou o Brasil”

  1. Avatar Jorge disse:

    Uma bela aula de historia com reflexões lúcidas .
    Jorge

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