Tenho tanto malhado na incompreensão do governo federal em resolver, com um mínimo de competência, nossos problemas mais graves — como o da Educação — que temo cansar o eleitor, ainda que consciente da necessidade do alerta. Para provar que não sou ranzinza, mas apenas responsável, segue uma página mais amena.

Ocupei, como se sabe, o governo de Goiás, de 1975 a 1979. A tarefa não era fácil, mas alguns episódios mais para o pitoresco ocorriam, quando em vez, e amenizavam a dureza e a responsabilidade de governar, que felizmente eu dividia com um corpo auxiliar competente. Contarei um deles.

Aconteceu no ano de 1978, num município do então setentrião goiano, hoje Estado do Tocantins, lá na divisa com o Maranhão. Região de muitas carências, poucas sedes municipais dispunham de um serviço de tratamento d’água.

Um programa da Saneago, a companhia de saneamento estadual, com o apoio também do governo federal, aprovado pessoalmente pelo presidente Ernesto Geisel, possibilitou construir estações de tratamento em vários desses municípios desassistidos. Foi num deles que se deu a história que conto a seguir.

— A região aqui é boa de caça, prefeito? — perguntava eu, então governador, ao prefeito municipal que me levava do aeroporto local para a sede da prefeitura, onde assinaríamos o contrato para a construção da estação de tratamento e da rede distribuidora de água na capital do município.

— É boa! O sr. gosta de caça, governador? – afirmou o prefeito, já indagando de meu gosto.

Procurava comer a caça devagar, pois o prefeito se preocupava em não deixar vazio meu prato. Como demorou a passar o tempo, como tive que reunir toda minha força de vontade para deglutir as iguarias oferecidas.

— Sou apreciador! – Respondi, encerrando o assunto e passando para os temas que haviam me levado ao município. Eu não sabia, mas começava ali um mal-entendido que teria para mim algumas consequências futuras.

Uma explicação para o leitor: na minha mocidade, fui caçador. Hoje me arrependo, me penitencio e sou incapaz de matar qualquer vivente, por insignificante que seja. Sequer tenho impulso para esmagar uma barata, o que deixa minha mulher, às vezes, furiosa comigo.

Na minha época de juventude, não existia uma consciência ecológica, a caça era abundante e livre, e a prática da caça pertencia mesmo à cultura dos goianos e mato-grossenses, que expandiam a fronteira agrícola brasileira.

Hoje existe a consciência, as leis sobre a caça são severas, mas não é isso, a rigor, que me detém. A reflexão do conhecimento longamente adquirido faz com que eu não admita destruir uma maravilha da natureza que é um animalzinho qualquer, como um pombo ou perdiz. Bilhões de células que se desenvolveram em harmonia, criando um organismo em perfeita consonância consigo mesmo e com o mundo em volta, é algo estético, maravilhoso, de se respeitar, admirar e preservar, não de ceifar.

Filosoficamente falando, somos todos irmãos, filhos da mesma mãe Natureza, do Poder Absoluto que nos convida a  participarmos do banquete da criação, vale dizer, compartilharmos todos da maravilha de existir, de viver.

Na época da conversa com o prefeito, eu ainda apreciava uma caçada, embora meu estômago recusasse terminantemente a carne de caça, fosse qual fosse. Nunca consegui apreciar nem mesmo uma perdiz, tida, por muitos de meus amigos e companheiros, como o mais apetitoso dos petiscos. Carne de paca, de queixada, de mateiro ou caititu, tudo isso era — e é — para mim, intragável.

Explico o mal-entendido de que falei lá atrás: o prefeito, ao me indagar se eu gostava de caça, falava em caça iguaria, carne de caça. E eu entendia que ele falava do esporte da caça, da caçada em si.

Meses após aquela visita, quase um ano passado, voltei à sede do município, agora com o sistema de abastecimento de água pronto para uma inauguração festiva. Inauguração que teve lugar na praça principal da cidade, lotada de gente entusiasmada com a chegada do benefício.

Terminada a inauguração, já anoitecendo, findos os discursos e aberta a indispensável torneira, pelo Prefeito, lançando água na garotada ao pé do palanque, demos por encerrada a solenidade.

Mas a festança só iria se encerrar com um jantar no clube da cidade. Fomos à casa do Prefeito, onde eu me hospedava, para um banho e lá íamos para o clube, quando o Prefeito me cochicha:

— Temos uma surpresa para o sr., governador. Já o sr. vai ver.

Fiquei curioso, mas não disse nada. Chegávamos ao clube.

Ao entrarmos, vejo uma enorme mesa posta com várias bandejas, no centro do salão. Em posição ao lado dela três senhoras perfiladas, quase em posição de sentido. E diz o prefeito:

— Essa é a surpresa, governador. O jantar é do seu gosto, foi todo feito por essas três cozinheiras! E é tudo caça!

Meu olhar correu então em detalhes a mesa: minha primeira visão foi a de um tatu assado no próprio casco. Numa bandeja vizinha uma paca, também assada. E o prefeito explicava, enquanto um frio me corria pela coluna:

— Aqui, umas almôndegas de carne de veado, ali uma farofa de seriema…tudo como o sr. gosta!

As cozinheiras, agora sorridentes, posavam ao lado de sua obra, evidentemente orgulhosas e satisfeitas por terem tanto contribuído para a homenagem e para uma noite memorável.

Traumatizado, já com o estômago apresentando seus protestos precoces, pensei comigo: E agora?

Imediatamente, porém, a consciência alertou: a última coisa a fazer será uma desfeita para com essa gente simples, bem-intencionada, ansiosa por agradecer e agradar. Seja o que Deus quiser, mas nenhum gesto que mostre o mínimo desagrado!

Cumprimentei entusiasmadamente as três cozinheiras, sentei-me com o prefeito à mesa principal, e sorridente, participei do mais sofrido jantar de toda minha existência.

Procurava comer devagar, pois o prefeito se preocupava em não deixar vazio meu prato. Como demorou a passar o tempo, como tive que reunir toda minha força de vontade para deglutir as iguarias oferecidas.

Mas, à custa de uma tremenda dor de cabeça e de muito digestivo no dia seguinte, já em Goiânia, tudo estava bem.

Hoje, quase meio século depois, perdeu-se na neblina do tempo a lembrança daquela noite, para os locais do município. Já desapareceram muitas das pessoas presentes, inclusive assessores que conheciam minha aversão àquele tipo de alimento, mas que, calados, apenas observavam e se condoíam, sabendo do necessário e bem-intencionado autodomínio que eu então exercia. E hoje posso comentar o acontecido, sem melindrar ninguém.

O tempo muda a perspectiva dos fatos: o que ontem era constrangimento, hoje são boas risadas.