Ditador Daniel Ortega, que acossa o povo da Nicarágua, é acusado de abusar de enteada
01 agosto 2026 às 21h00

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A nossa imprensa, de maneira geral, noticiou evidenciando certa surpresa, a declaração do “presidente” da Nicarágua, Daniel Ortega, de que não vai mais fazer eleições no país. Vai continuar no comando e pronto. Quem não gostar, que fique quieto ou vai para a cadeia.
Não tive qualquer surpresa com esta fala de Ortega, e vou contar por quê.
Em 1979, a ditadura familiar de Anastasio Somoza foi derrubada, após 45 anos de poder.
A derrubada se deu pela crescente revolta popular, que se exacerbou quando o ditador fez assassinar o jornalista Pedro Joaquín Chamorro, em 1978.

Somoza foi derrubada por uma larga frente, que se compunha dos “sandinistas”, grupo comunista apoiado por Fidel Castro até a Igreja Católica, passando por oficiais do Exército e forças políticas democratas que operavam na clandestinidade.
A coditadora Rosario Murillo sempre teve grande influência sobre Daniel Ortega, o ditador-presidente. Quando se casaram, ela tinha três filhos de um casamento anterior, e a mais velha, Zoilamérica Narváez, que vive exilada na Costa Rica, acusou e acusa, desde 1998, Ortega de tê-la abusado sexualmente, por anos
Ainda em 1979, o grupo sandinista marginalizou os demais participantes da luta contra Somoza, mandou assassinar o ex-ditador, que tinha se asilado no Paraguai, e Daniel Ortega assumiu a Presidência da Nicarágua.
Com manobras pouco ou nada democráticas, Daniel Ortega manteve-se na Presidência até 1990, quando a pressão internacional, EUA à frente, fez com que ele aceitasse convocar eleições presidenciais.
O motivo principal dessa aceitação foi a presença em território nicaraguense de uma guerrilha anticomunista, os “Contra”, cujo apoio na população rural e nas tribos indígenas vinha crescendo, pelos desacertos e desmandos de Ortega.
A vitória de Violeta Chamorro
Fui enviado como observador da OEA e do Senado brasileiro àquelas eleições. Ortega havia convocado observadores internacionais os mais variados, para – pensava ele – coonestar uma sua eleição para a Presidência nicaraguense.

O mais destacado observador que lá compareceu foi o ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter.
Mas o que pretendia Ortega, em sua mente totalitária: vencer as eleições de qualquer maneira. Na campanha, ainda na Presidência, ocuparia a TV – que era estatal – o tempo todo, enquanto os demais candidatos ficaram reduzidos a três minutos diários.
A principal opositora, Violeta Chamorro, viúva do jornalista assassinado por Somoza, teve seus comícios dissolvidos à pancada, a energia de seus palanques cortada, seus telefones de residência e escritórios desligados, mas não desistiu.
Além disso, Ortega determinou votação obrigatória por parte dos militares do Exército (10% do eleitorado), que ele acreditava serem em massa seus eleitores, até porque eram acompanhados por um oficial de confiança, em ordem unida, dos quartéis aos postos de votação.

Mas Ortega acabou prisioneiro da própria armadilha. A insatisfação popular era grande, embora não aparente, pois a truculência dos sandinistas já era conhecida. E ela surgiu quando foram abertas as urnas, com os observadores estrangeiros espalhados pelas secções eleitorais conhecendo os resultados. Violeta vencia por uma larga margem.
Os sandinistas, surpresos, passaram a noite reunidos sem saber o que fazer. Mas nada havia a fazer, pois os observadores aguardavam no centro de convenções de Manágua que os resultados fossem proclamados. Entre eles europeus de várias nacionalidades e, como disse, até o ex-presidente americano Jimmy Carter. Ortega e seus “companheiros” proclamaram os resultados, reconheceram a vitória de Violeta e se recolheram, lambendo as feridas.
O Fidel Castro da Nicarágua
Violeta Chamorro fez um bom governo (1990-1997) e conseguiu eleger dois sucessores, Arnoldo Alemán (1997-2002) e Enrique Bolaños (2002-2007).
Mas Ortega não desistia, e sempre apoiado e financiado por Fidel Castro, acabou vencendo as eleições de 2007.

Ortega havia aprendido a lição que lhe fora ministrada quando foi derrotado por Violeta Chamorro. Dominou completamente a imprensa. Perseguiu adversários e a Igreja.
Venceu as eleições de 2011, 2016 e 2021, adotando métodos infalíveis de vitória, entre eles o de prender opositores que cresciam na preferência do eleitorado.
O fato é que não correu mais riscos, para não abandonar o poder. E agora, neste instante, os riscos desapareceram por completo. Ortega avisou que não mais existirão eleições na Nicarágua, e ele governará por tempo indefinido, como fez seu mestre Fidel em Cuba. Pobre povo nicaraguense.
A história do abuso de Zoilaamérica
Quando falo em ditador de quinta categoria, me remeto a alguns acontecimentos, que divido com os leitores.
Ortega é presidente, mas existe, constitucionalmente, uma copresidente, que governa pari passu com ele. É sua mulher, Rosario Murillo, casada em segundas núpcias com Ortega.

Rosario Murillo sempre teve grande influência sobre Daniel Ortega. Quando se casaram, em 2005, ela tinha três filhos de um casamento anterior, e a mais velha, Zoilamérica Narváez, que vive exilada em Costa Rica, acusou e acusa, desde 1998, Ortega de tê-la abusado sexualmente (confira a denúncia dela: https://tinyurl.com/ynchj5tb), por anos.
A coditadora Rosario Murillo não apoiou a filha nessa desventura. Prefere o poder na Nicarágua.
Conheci pessoalmente Rosario Murillo quando estive na Nicarágua em 1990, nas eleições.
Eu estava em companhia do embaixador brasileiro no país, Sérgio Queiroz Duarte, no centro de convenções de Manágua, quando surgiu, em meio aos observadores internacionais e autoridades presentes, uma figura feminina que chamava a atenção pelos trajes bizarros. Usava um vestido estilo hippie, com uma microssaia, uma maquiagem extravagante, uma profusão de colares e pulseiras e se deslocava com desenvoltura no ambiente.
Indaguei do embaixador se sabia de quem se tratava, e sua resposta, para meu espanto, foi de que era aquela a primeira-dama nicaraguense, Rosario Murillo.
Outra informação que devo passar aos leitores: já naquele ano de 1990, era muito próxima a ligação Lula-Ortega. O PT mantinha em Manágua um escritório, uma delegação. Para quê? Não sei dizer.
É bom que se diga que Ortega sequer tem o curso secundário completo.
Esse é o homem que há vinte anos governa aquele país, e pelo visto, vai governá-lo até a morte.
Por isso, não me surpreende que ele escancare a ditadura em seu país; e digo se tratar de um ditador de quinta categoria: intelectualmente vazio, sem estudo; moralmente nefasto, a ponto de assediar a própria enteada; obcecado pelo poder a ponto de cometer as maiores baixezas para chegar a ele e de se recusar a deixá-lo; ideologicamente equivocado, por ser marxista, quando a crença fracassou no mundo todo.
Que essa moda, já que o padrão petista lhe é muito próximo, não pegue por aqui.


