Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Equívoco de Stálin levou a Operação Barbarossa a matar 500 mil soviéticos em 10 dias

O líder comunista acreditou que Hitler não repetiria o francês Napoleão. O detalhe é que o nazista pretendia atacar e atacou a União Soviética

O inesgotável assunto da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) continua rendendo livros, à medida em que arquivos ainda secretos (russos, principalmente) vão sendo abertos. O engenheiro Marcos de Castro, um estudioso da Segunda Guerra, recomenda “A Loucura de Stálin — Os Trágicos Dez Dias Iniciais da Segunda Guerra Mundial no Front Oriental” (Difel, 350 páginas, tradução de J. A. Gueiros), de Constantine Pleshakov, um escritor e professor de história russo radicado nos EUA. Escrito em 2005, foi traduzido em 2008. O livro mereceu elogios de historiadores de fama, como Robert Conquest e Simon Sebag Montefiore (que escreveu a melhor biografia de Ióssif Stálin publicada em português, editada pela Companhia das Letras: “Stálin — A Corte do Czar Vermelho”. Outra biografia é “Stálin — Paradoxos do Poder”, de Stephen Kotkin. O primeiro volume tem 1144 páginas).

Pleshakov retratou com minúcia os dez dias iniciais da Operação Barbarossa, a invasão nazista da União Soviética, em 1941. A par de uma detalhada crônica da guerra nestes dez dias cruciais, o autor faz uma análise da personalidade ditatorial e psicopata de Stálin, mostrando hora a hora, o custo em vidas, material e sofrimento que as atitudes desarrazoadas do ditador produziram sobre o povo da URSS, logo que se deu a invasão.

Alemães mataram 500 mil soviéticos em dez dias

Nesses dez dias, de 22 de junho a primeiro de julho de 1941, os alemães mataram 500 mil pessoas, destruíram vários exércitos soviéticos (28 divisões), inutilizaram uma imensa quantidade de material bélico e quase chegaram a Moscou. Pleshakov afirma — e de certa forma consegue demonstrar — que sem a paranoia de Stálin esse custo inicial pago pela URSS seria muito menor.

O sucesso alemão da primeira fase da guerra no leste foi fundado em dois fatores principais, e em ambos, cabe inteira responsabilidade a Stálin: a ausência de líderes competentes no Exército Vermelho e a falta de preparo logístico para repelir um ataque nazista. Em 1941, o exército soviético era um corpo de dimensões gigantescas, mas com microcefalia. Os oficiais mais experientes, mais inteligentes e com maior liderança haviam desaparecido nos expurgos de 1937-1939.

Lênin tentara afastar Stálin do comando da URSS. Considerava-o com pouca inteligência e muita brutalidade. Mas estava às portas da morte e não tinha forças para impor sua vontade. Stálin assumira em 1922, e, após a morte de Lenin em 1924, se impusera — liquidando todos os que pudessem tentar derrubá-lo, bem como os parentes e amigos destes. Seguira liquidando qualquer suspeito ou apontado por alguém como suspeito. Depois, foram mortos os descuidados, que falavam o que era considerado suspeito, mesmo que fosse uma anedota. Finalmente os totalmente inocentes, que nem descuidados ou suspeitos eram, mas que deviam servir de exemplo para uma comunidade qualquer, artistas ou escritores, por exemplo.

Nesses expurgos planejados, cujo fim era manter uma população aterrorizada e perfeitamente obediente, foram presos quase 2 milhões e fuzilados 700 mil, entre eles 35 mil oficiais do Exército Vermelho (o que de mais preparado existia no meio militar soviético). Comandaram a invasão alemã generais de competência lendária, como Manstein, Guderian, Rundstedt, Kleist e Hoth. Seus opositores do lado soviético eram os incompetentes que, por bajularem Stalin ou serem completas nulidades, haviam escapado à purga.

Basta dizer que os cinco marechais soviéticos então existentes eram assustados sobreviventes que haviam contornado o expurgo. Um deles, Semen Budenny, tinha a mulher, uma artista do Teatro Bolshoi, presa em um campo de concentração. Outro, Grigory Kulik, tivera a mulher, a bela aristocrata Kira, raptada, torturada e morta por ordem de Stálin. Imagine-se um oficial como estes tomando decisões que poderiam lhe custar a cabeça.

Nestes dez dias alguns poucos generais conseguiram lidar com Stálin e tomar algumas decisões para amenizar o desastre, como Konstantin Rokossovski e Georgy Zhukov. Mais destemido, Rokossosvky fora preso e brutalmente torturado durante o expurgo, mas, libertado, voltara a comandar. Zhukov tinha certa habilidade para dialogar com Stálin e não temia ser insistente quando a decisão a tomar era de importância capital. Ao final da guerra, seria a principal figura militar soviética.

Richard Sorge avisou Stálin que os nazistas iriam invadir a União Soviética | Foto: Reprodução

A crença equivocada de Stálin

O despreparo tático para repelir a invasão tinha raízes numa crença do ditador. Stálin acreditava que Adolf Hitler não repetiria o erro alemão da Primeira Guerra: combater em duas frentes. Estava convencido de que o chefe nazista respeitaria o tratado com ele assinado em agosto de 1939, e só atacaria a leste após derrotar a Inglaterra, o que não ocorreria, pelos seus cálculos, antes do final de 1942.

Stálin sabia, pois lera o livro de Hitler, “Minha Luta”, que mais dia, menos dia, o regime nazista buscaria seu espaço vital a leste, na União Soviética (que incluía a Rússia, a Ucrânia, a Geórgia, entre outras repúblicas), principalmente. Mandara mesmo traduzir para o russo o livro do líder nazista, e imprimira cópias para seus generais. Mas estava convicto de que tinha tempo para se antecipar e atacar primeiro.

Embora só recentemente tenha se descoberto o planejamento em sua extensão, Stálin vinha se preparando para a invadir a Alemanha. Todos os preparativos já vinham sendo feitos desde 1940 para uma guerra ofensiva. A indústria aeronáutica russa estava empenhada em aviões de ataque, isto é, bombardeiros. Por isso, faltaram caças quando a Luftwaffe — a força aérea alemã — atacou. E também porque os caças existentes, que em caso de invasão devem estar na retaguarda para não serem destruídos num primeiro momento, se encontravam maciçamente próximos à fronteira, onde foram metralhados ainda no solo. Numa invasão, forças consideráveis devem se posicionar próximo às fronteiras, com condições de contra-ataque e de repelir o inimigo. Não aconteceu.

Stálin, mesmo avisado pelos serviços de espionagem (pelo espião Richard Sorge, por exemplo) da iminência do ataque, não acreditou. Voos alemães de reconhecimento, além das fronteiras da Ucrânia, não o convenceram. Nem a informação de desertores comunistas do exército alemão, já no dia 20 de junho, fizeram com que ele se convencesse do que estava por vir no dia seguinte.

Mesmo após os alemães romperem as fronteiras e avançarem fundo, Stálin não saiu de sua letargia e impediu que seus generais dessem ordens de mobilização e resistência. Só tomaria as primeiras providências efetivas no dia 26 de junho, em reunião com os generais Zhukov, Timoshenko e Vatutin, três que se tornariam famosos nos anos seguintes de guerra.

General Zhukov: Stálin o respeitava e até temia | Foto: Reprodução

Enquanto isso, morria um soldado soviético a cada dois segundos e 20 milhões de russos estavam sob domínio alemão, informa Pleshakov. Qual a razão dessa teimosa inércia? A personalidade ditatorial tem esse desvio: confunde a realidade com sua vontade, mesmo à vista das evidências.

Stálin acreditava que Hitler não atacaria, e a um enorme custo de vidas só caiu inteiramente na realidade quando os alemães já haviam penetrado centenas de quilômetros na União Soviética. Pleshakov fala em seu livro da virada na guerra no leste e apresenta suas razões para a derrota alemã. Algumas dessas razões são sabidas: o clima e a extensão da União Soviética, desdenhados por Hitler (como por Napoleão em 1812), foram marcantes na derrota nazista. O auxílio norte-americano idem: mais de 600.000 veículos (entre locomotivas, caminhões, aviões, carros e motocicletas) foram doados pelos EUA à URSS. E os veículos eram apenas um item numa longa lista de fornecimentos.

A mudança no comportamento stalinista também foi importante, pois o ditador passou a valorizar o mérito dentro das forças armadas e cessou, até o fim da Guerra, as perseguições políticas e paranoicas. E o autor cita um fato despercebido por muitos historiadores de renome: o Japão auxiliou na derrota de seu parceiro do Eixo: O Império do Sol Nascente manteve um tratado de paz com a Rússia e não atacou a costa soviética do Pacífico. Se o tivesse feito, a URSS teria que manter ali tropas, cuja presença sem dúvida foi importante no oeste soviético contra a pressão alemã.

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