A era digital trouxe enormes facilidades ao homem de hoje. Pergunte o leitor aos seus familiares mais idosos se não se maravilham com seus iPhones, e se imaginavam, há algumas décadas, se veriam coisa igual.

Por outro lado, esses confortos da vida moderna, somados à velocidade da informação, à escassez do tempo e ao domínio da tecnologia, parecem roubar às letras e às artes o encanto dos tempos antigos. Hoje parece eliminada a dedicação plena, intelectual, à realização de algo pintado, esculpido, escrito ou musicado.

Não ouvi, neste século, nenhuma música popular de sucesso, que todos cantassem, como ocorreu, por exemplo, com “A Banda”, de Chico Buarque, em 1966. Ninguém produz mais uma música ao nível de “Garota de Ipanema”, o sucesso de Tom Jobim e Vinicius de Morais de 1962.

Uma pergunta, apenas, para ficarmos na literatura, e em nossa língua portuguesa: sinceramente, toda a produção de José Saramago — e olhe que é moderno, português e Prêmio Nobel de Literatura — pode, em sã consciência, se comparar a um livro como “Os Sertões”, que Euclides da Cunha escreveu há mais de um século?

Vargas Llosa e Euclides da Cunha

Vou contar ao leitor interessante fato ocorrido há alguns anos, e que mostra a atualidade de Euclides:

Em 1992, a Assembleia Nacional Francesa resolveu, em comemoração aos 500 anos do descobrimento da América, promover em Paris um encontro Europa-América Latina, e convidou integrantes dos congressos dos vários países latinos para as solenidades e conferências. Fui designado pelo Senado para representar o Brasil.

Num almoço, coincidiu ficarmos lado a lado, o escritor peruano Mario Vargas Llosa, também convidado, e eu. Llosa era, já nessa época, um escritor famoso e muito premiado (em 2010 seria Prêmio Nobel de literatura). Havia lançado, poucos anos antes, na década de 1980, um livro inspirado na Guerra de Canudos, que intitulou “A Guerra do Fim do Mundo” (Alfaguara, 608 páginas, tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht).

Não resisti à curiosidade e perguntei a Vargas Llosa por quê, sendo um homem da região amazônica, resolvera escrever um livro sobre o Nordeste brasileiro, região dele desconhecida.

O escritor respondeu sem hesitação que o fizera por dois motivos: em primeiro, pelo vigor do livro de Euclides sobre Canudos. Disse-me que essa obra monumental, “Os Sertões” — que por sinal completava noventa anos de lançamento — era o livro que todo escritor almejava escrever um dia. Era a obra-prima sonhada por todo homem de letras.

Mas havia outro motivo: ficara impressionado com a vida de Euclides da Cunha, tão ativa, operosa, multifacetada, inquieta e angustiada — com final trágico (e romanesco), inclusive.

A vida do escritor, pesquisador e engenheiro Euclides da Cunha daria outro grande livro, afirmou Vargas Llosa. Contou-me sobre as pesquisas feitas para seu livro no Brasil, sua viagem à Bahia e à região de Canudos, sobre a documentação que conseguira, e terminou com uma revelação curiosa: dos jornais baianos da época de guerra em Canudos, que buscava, houve um exemplar que não conseguiu encontrar na Bahia. Mas foi encontrá-lo na Biblioteca do Congresso, em Washington, nos EUA.

Acrescentou que sempre almejava conhecer mais sobre Euclides. Vargas Llosa ficou surpreso quando eu lhe disse que havia saído recentemente no Brasil um livro escrito por uma neta de Anna de Assis, a viúva de Euclides da Cunha, contando toda a tragédia da família, seus antecedentes inclusive. O livro tem o título de “Anna de Assis — História de um Trágico Amor”, de Judith Ribeiro de Assis.

Como mostrasse curiosidade, tomei seu endereço e lhe enviei o livro, quando cheguei ao Brasil. Fiquei sabendo posteriormente que Vargas Llosa havia sido recepcionado, em sua viagem à Bahia, por Jorge Amado, que lhe prestara apoio. Os dois eram cogitados, então, para o Nobel de Literatura, que Vargas Llosa acabou conquistando. E que nenhum brasileiro, em qualquer campo, logrou até hoje alcançar.

Dirá talvez o leitor: Euclides da Cunha não está tão atual assim, pois o encontro com Vargas Llosa e toda essa conversa sobre o escritor data de 1992, ou seja, de trinta anos atrás.

Tragédia atingiu filho de Euclides da Cunha

Sem desmerecer o argumento, prossigo com um fato, desta mesma semana. Meu amigo alemão Edgar Welzel, residente na cidade de Sttutgart, em Baden-Württemberg, e que escrevia a coluna Carta da Europa no Jornal Opção até há pouco tempo, chamou-me por telefone.

Euclides da Cunha, Ana de Assis e Euclides Filho | Fotos: Reproduções

Edgar Welzel manifestou sua preocupação — que aliás é disseminada na Europa — com a guerra da Ucrânia, que parece não ter fim, e no fundo ameaça se estender por outras nações europeias.

Mas mais que isso, falou-me da sua curiosidade em saber os detalhes que cercavam a morte trágica de Euclides da Cunha, numa chácara na Piedade, no Rio de Janeiro. O escritor foi fulminado numa troca de tiros com o amante da mulher (Anna de Assis), um cadete do Exército, chamado Dilermando de Assis (que se casaria com a viúva e chegaria a general).

A tragédia iria mais além: sete anos após o tiroteio da Piedade, o filho de Euclides e Anna, que levava o mesmo nome do pai, numa tentativa de vingá-lo, viria a balear Dilermando de Assis em um cartório, também no Rio de Janeiro, em 1916. Mas também seria morto por ele, no confronto.

Dilermando de Assis era campeão de tiro no Exército, e muito mais preparado para um embate, que os Euclides da Cunha, pai e filho.

Edgar Welzel gostaria de se inteirar dos antecedentes e de todo o ocorrido, mas não sabia se existia literatura a respeito. Lembrei-me de minha conversa com Vargas Llosa e do livro escrito pela neta Judith Ribeiro de Assis, de Anna de Assis e Dilermando.

Fiquei de encontrá-lo em algum sebo, já que se encontra esgotado, e enviá-lo para a Alemanha.

Cumprindo minha promessa, satisfaço a curiosidade de meu amigo Edgar Welzel, e demonstro ao leitor que sim, de fato, o grande Euclides da Cunha, assim como sua obra literária (que não se restringe a “Os Sertões”) permanece atual. E assim ainda será por muito tempo.