Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Dilma Rousseff não quer perceber o óbvio ululante: pode até não cair, mas não está governando o país

O fato indiscutível é que o Brasil já pagou um preço deveras elevado pelos sonhos ideológicos, pela incompetência e pela corrupção dos anos petistas. Precisamos de um basta. Legal e constitucional, mas que não tarde

Dilma e Lula: eles criaram um novo peronismo, o Lulopetismo, mas inventaram sobretudo o governo que não governa

Dilma e Lula: eles criaram um novo peronismo, o Lulopetismo, mas inventaram sobretudo o governo que não governa

A presidente Dilma, segundo rumores brasilienses, ainda não se deu conta da fragilidade de sua situação. Acredita que as manifestações anti-impeachment promovidas pelos movimentos amestrados (a custas de dinheiro público), como CUT, MST e UNE, são espontâneas. Pensa que com a queda cada vez mais inevitável do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, a situação do governo tende a melhorar. Acha que tem ainda grande influência no PMDB, e não percebe que ele está cada vez mais se afastando de seu governo. Os integrantes do partido que são seus auxiliares, como os ministros Henrique Eduardo Alves e Celso Pansera, também estão fragilizados, visados pela operação Catilinárias, da Polícia Federal. Isso sem falar em seu ex-ministro de Minas e Energia, o senador sarneyzista Edison Lobão, que também parece ter a cabeça a prêmio.

Nem a carta de desamor do vice-presidente, Michel Temer, conseguiu mostrar a verdade pemedebista para a governanta. E ela acha que a situação desfavorável na Câmara dos Deputados será anulada pela proteção que Renan Calheiros dará a ela no Senado; nem se perguntou ainda quanto o enrolado presidente cobrará por isso, se vier a ocorrer. Nem quis saber até que ponto poderá ele ser atingido pela mesma operação Catilinárias, que tem em sua mira dois cidadãos tidos como obedientes afilhados de Renan: Sérgio Machado (por ele indicado para a Transpetro, de onde teve que sair sob suspeitas) e o deputado Aníbal Gomes (tido como seu operador, seja lá o que isso signifique). Sem contar que Renan está temeroso e agastado.

Está a presidente muito confiante nas decisões futuras do Supremo Tribunal Federal, e não pondera que ministros daquela corte têm limitações na gratidão por sua nomeação, a maior delas relacionada à preservação da própria biografia. Con­tinua, corre à boca pequena, a tratar com a prepotência de sempre os que com ela trabalham, sejam camareiras, ajudantes de ordens ou ministros de Estado, para quem não poupa tom de voz elevado, e mesmo, comenta-se, palavrões.

Dilma Rousseff parece não ter tomado conhecimento dos graves fatos revelados pela jornalista Leandra Peres, no “Valor Eco­nô­mico”. Segundo esta, Arno Augustin, um dos funcionários mais próximos de Dilma, e que com ela se identifica na maneira stalinista de tratar os subordinados, quando secretário do Tesouro, foi à exaustão alertado pelos funcionários do ministério da Fazenda — e por escrito — para os riscos das “pedaladas”. Os avisos foram por ele, Arno, e pela presidente ignorados da maneira mais ignorante e prepotente.

Com suas alegações vitimistas de “golpe”, Dilma não parece conhecer que Tribunal de Contas da União e Tribunal Superior Eleitoral fazem caminhar processos de que dificilmente conseguirá se defender. E são absolutamente democráticos e constitucionais. É fato que a Procuradoria Geral da República (leia-se Rodrigo Janot) parece mais condescendente, no embate Cunha-Dilma, com o governo e com o PT. E mais acirrado, muito mais, contra Cunha. Mas toda boa vontade, até a imaginária, tem limites.

A economia se esvai, suas faces mais malvadas, desemprego e inflação, começam a se mostrar e nada o governo consegue fazer para controlá-la. Apesar da quase inimputabilidade de seu maior apoio político, ou seja, Lula, a lama já chegou a seus calcanhares, com as investigações envolvendo seu filho caçula e a prisão de seu primeiro-amigo, José Carlos Bumlai. Lula se fragiliza, ele também.

Dilma Rousseff é um poste, só que agora em equilíbrio instável, com a popularidade despencando. Só ela parece não saber que está apenas esperando a queda inevitável de quem nunca poderia ter subido até onde se encontra. A presidente (isso é característico da “esquerda revolucionária”) tudo fará para não perder a posição, ainda que não seja digna dela.

Talvez supere mesmo as dificuldades do momento, e escape da lâmina do impeachment. Mas nunca terá condições de governar, e vem provando isso a cada dia, desde que iniciou o primeiro mandato (ou mesmo antes, no governo Lula). Suas intervenções na economia como um todo foram catastróficas, e na energia elétrica em particular foi a mais atabalhoada possível. Sob seu comando direto a Petrobrás naufragou e tenta (tentará ainda por muitos anos) salvar ao menos seu casco, para continuar navegando no futuro. Sua adesão ao “bolivarianismo” e sua tolerância quase cúmplice com ditaduras de esquerda fora da América comprometeram nossa diplomacia e sangraram o Tesouro Nacional já depauperado.

A presidente se vê obrigada a ler discursos, pois cada improviso seu é algo de se rir ou a lastimar. Ainda que continuasse no governo superando a grave ameaça imediata do impeachment, o que faria Dilma Rousseff para seguir governando? Aceitaria para ela o semiparlamentarismo que Michel Temer vem propondo para si próprio? Só se não se lembrar do parlamentarismo que João Goulart aceitou para se sentar na cadeira que ela hoje ocupa. Nem a extraordinária habilidade de Tancredo Neves, então primeiro-ministro, conseguiu manter de pé a situação política artificial criada em 1961, que redundou no movimento de 1964. Dilma Rousseff se re­cusa a aceitar o fato, mas é apenas um zumbi. Uma meio-morta, esperando a desaparição definitiva, tanto mais dolorosa quanto mais demorada.

Dilma bate no peito e afirma que nunca se apossou de dinheiro público e não tem recursos no exterior. Depende de como se veem as coisas. O dinheiro público que ela subtraiu de nossas necessidades para fazer obras na Nicarágua, em Cuba, no E­quador e algures, com certeza nunca voltará integralmente ao Brasil. São economias sem capacidade de pagamento, e que, além disso, são chefiadas por quem não gosta de pagar. Sendo assim, ela se apossou de parte de recursos do Tesouro, no mínimo, para satisfazer uma veleidade ideológica e pessoal. E eles pertenciam ao sofrido trabalhador brasileiro.

Dilma Rousseff pode até não ter recursos no exterior, mas tem créditos. Estou mentindo? Imaginemos hipoteticamente que Dilma, deposta e frente à possibilidade de uma devassa que envolvesse sua gestão, fugisse para Cuba. Alguém duvida de que ela ali seria recebida de braços abertos e teria casa, comida e roupa lavada até o último de seus dias? Quanto vale isso? Calculemos, é fácil: Dilma, com seus 68 anos, tem, segundo as estatísticas brasileiras, uma expectativa de vida de mais dez anos, no mínimo. Façamos nossas contas com 12 anos.

Fidel daria a ela uma bela mansão (para os pa­drões cubanos) e as mordomias correspondentes por esses 144 meses de vida (espero que ela viva mais que isso, sinceramente), e que, digamos, custassem 10 mil dólares ao mês. Um milhão e meio de dólares, no mínimo, é o crédito indireto que Dilma Rousseff tem em Cuba. Uma bela soma.

Mas não pense o leitor que qualquer comunista teria essas regalias na terra de Fidel. Dilma as conquistou quando levou mais de 1 bilhão de dólares para a modernização do porto de Mariel; e quando, às custas do trabalho em regime análogo à escravidão de milhares de “mé­di­cos” cubanos, enviou para a ditadura castrista milhões de dólares confiscados ao duro trabalho desses profissionais nas áreas mais distantes do Brasil, sem condições adequadas de instalação, equipamento e medicamentos. E outros favores, tal­vez, que não sabemos. O fato indiscutível é que o Brasil já pagou um preço deveras elevado pelos so­nhos ideológicos, pela incompetência e pela corrupção dos anos petistas. Precisamos de um basta. Legal e constitucional, mas que não tarde.

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