Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Construtora da família da cineasta Petra Costa está na raiz de roubo denunciado pela Lava Jato

Que a diretora gaste seu dinheiro, mas que se abstenha de tentar pregar moralidade e simular comportamento ético

“…há algo errado no paraíso/é muito mais que contradição/sou eu caindo num precipício/você passando de avião...”  — Os Paralamas do Sucesso

Petra Costa: diretora de cinema | Foto: Reprodução

O saudoso Paulo Francis (1930-1997), um dos maiores jornalistas do país, costumava referir-se ao cinema brasileiro com uma de suas frases ácidas: “O cinema brasileiro não vale o celuloide que gasta”. Sempre fui forçado a lhe dar razão, e por uma questão matemática. As premiações que contemplam as produções do cinema, seus atores e produtores são inúmeras, mundo afora. Mas de importância, mesmo, são apenas cinco, se levarmos em conta que premiar um filme, um ator, um diretor, um produtor ou qualquer profissional afim exige critério, conhecimento, seriedade e isenção. Essas cinco premiações são o Oscar (de Hollywood), o Globo de Ouro (de Los Angeles), o Leão de Ouro (de Veneza), o Urso de Ouro (de Berlim) e o Palma de Ouro (de Cannes). Acho graça quando me falam que tal ou qual filme foi premiado, por exemplo, no Festival de Cinema de Havana, certame que não pode, por razões várias, ser minimamente levado a sério.

Pois bem, o cinema brasileiro, em décadas e décadas de existência, que já produziu centenas de filmes, jamais foi premiado com um Óscar, um Globo de Ouro ou um Leão de Ouro. Por duas vezes foi premiado com um Urso de Ouro (“Central do Brasil”, em 1998, e “Tropa de Elite”, em 2008) e uma vez com a Palma de Ouro (“O Pagador de Promessas”, em 1962). Matematicamente, uma premiação expressiva a cada vinte anos, em média, ou menos de um prêmio por cada mil filmes realizados. Nunca um Oscar, a mais importante láurea.

Nosso cinema recebeu prêmios menores, em um ou outro ano, vendidos pela cinematografia nacional como grandes vitórias (caso de “Eles Não Usam Black-Tie”, em 1981, no festival de Veneza). Muitas centenas de filmes foram produzidas, principalmente nos últimos 35 anos, com o uso de dinheiro público, sob a égide das esquerdas governamentais, parceiras indiscutíveis dos “meios artísticos e culturais”, desde que “engajados”. Se o leitor necessita de um depoimento insuspeito, por dentro do meio, leia ou ouça o cineasta Ipojuca Pontes, que é sério, tem talento e conhece os meandros menos limpos do meio cinematográfico brasileiro, justamente por ter sempre tido o cuidado de evitá-los.

Petra Costa e a ex-presidente Dilma Rousseff | Foto: Reprodução

Embrafilme, Ancine, Lei Rouanet serão sempre nomes ligados à má qualidade cinematográfica, às salas de cinema vazias (ninguém gosta de assistir filmes ruins) e ao aproveitamento de dinheiro público. Que estaria muito melhor colocado, por exemplo, na Saúde. Pouquíssimos cineastas não se enquadram entre esses aproveitadores descarados do Tesouro, e fazem seus filmes com dinheiro próprio ou do meio empresarial. Nem por isso fazem cinema que preste.

Walther Salles, filho do banqueiro e diplomata Walther Moreira Salles e da socialite Elisinha Salles, se inclui neste último grupo. Dono de grande herança, compraz-se em aplicar parte dela em filmes que pouca gente vê. Tem cerca de duas dezenas de produções em seu acervo, mas só “Central do Brasil” recebeu um prêmio dos cinco julgadores que contam, mencionados acima. Uma sua produção contou com atores de fama mundial e deve ter custado uma fortuna. O tema (“Diários de Motocicleta”, de 2003) era um Che Guevara jovem, em viagem de moto pela América do Sul. Uma glorificação do maníaco homicida, que agradou mesmo só à esquerda latino-americana. Mas o dinheiro é dele, o pai se fez rico, pelo menos ao que parece, sem roubar o Erário, e ele faz dele o que bem entende. Não nos deve nada e em troca não somos obrigados a assistir a seus filmes.

Petra Costa e a Andrade Gutierrez

A cineasta Ana Petra Costa, de 36 anos, é outra que faz filmes com dinheiro próprio. Mas se podemos classificar a filmografia de Walther Salles de inócua, a de Petra é nociva. E aqui chegamos ao tema central deste artigo: o filme “Democracia em Vertigem”, da cineasta, que foi notícia por semanas, até a presente, em que, indicado para o Oscar de melhor documentário, foi derrotado por um filme americano e por outros. Há algo muito errado no paraíso de Petra Costa. “Democracia em Vertigem” é, em tudo por tudo, muito mais que contradição. A começar pelo que pretendeu provar: o golpismo na deposição de Dilma Rousseff.

A integrante do PT foi impedida após um processo irretocável, em sessão plena do Senado, presidida pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowsky, a quem poder-se-ia acusar de parcial a favor de Dilma Rousseff, nunca contra ela. Ministro sabidamente indicado para a Corte por suas ligações com Lula da Silva, chefe do petismo e chefe da ex-presidente, um verdadeiro superpresidente enquanto ela ocupava o Planalto e o Alvorada. Aliás, se houve algum golpismo, foi o fatiamento do artigo 52 da Constituição Federal, aplicado de forma errada à “presidenta”, para beneficiá-la, obra de Renan Calheiros e Lewandowsky. Mas a contradição continua.

Petra Costa: seu documentário “Democracia em Vertigem” concorreu a Oscar | Foto: Reprodução

Não concordamos com a interpretação de Petra Costa quanto ao afastamento de Dilma Rousseff, mas reconhecemos seu direito de defender seu ponto de vista. Democracia é tolerância, até com mentirosos, que, contudo, devem ser desmascarados. E ela usou o fato da indicação ao Oscar para atacar o governo brasileiro lá fora, e atacá-lo com meias verdades e falsidades, o que não é justo. E o caso vai mais além.

Pesa sobre a fortuna de Petra Costa, ao contrário do que acontece com a de Walther Salles, a mais abjeta corrupção: a corrupção que atinge o dinheiro público, o dinheiro da saúde da criança pobre, sua educação, seu futuro. Petra Costa é filha de Marília Andrade. E Marília Andrade, por sua vez, tem como pai Gabriel Donato de Andrade, um dos fundadores da Construtora Andrade Gutierrez, que só perde, na medida da régua da Lava-Jato, para a super campeã Odebrecht, na escala da corrupção. A construtora da família de Petra está na raiz dos roubos denunciados em Curitiba, e de outros, alguns por denunciar, como a quebra da telefônica Oi, mostrada em uma das melhores reportagens investigativas brasileiras, na revista “Piauí” nº 125 (fevereiro de 2017; a revista, por sinal, é de João Moreira Salles, irmão de Walther Salles).

Aí há até uma certa lógica, no interior da contradição: defender Dilma Rousseff, para Petra Costa, é defender os companheiros quadrilheiros. Dizem que há ética entre bandidos, e este deve ser um exemplo. Petra Costa não tem como negar: é beneficiária de um dos maiores casos de corrupção do Brasil, e talvez do mundo. Até prova em contrário, o dinheiro que gasta, seja para fazer seus filmes, seja para a vida de luxo de esquerdista chique, é em parte sujo.

Petra Costa, como a mãe, pertence à classe que Paulo Francis chamava de “comunista fantasia”, e que os franceses tratam como “gauche caviar”. São os pseudo-marxistas ricos, donos ou herdeiros de grandes fortunas, que adotam uma retórica anticapitalista e pró-proletariado, mas não abrem mão dos hábitos de consumo de que só conseguem desfrutar porque possuem boa dose de capital.

A própria Petra Costa estudou em Nova York e Londres, nunca em sua adorada Cuba. Marília, sua mãe, presa no célebre Congresso da UNE em Ibiúna, em 1968, e seu pai, Manoel Costa Junior, sempre viveram às custas da empreiteira Andrade Gutierrez, mesmo na época do regime civil-militar. Até mesmo na época em que alegam terem vivido na clandestinidade, o que nunca ficou comprovado. Marília, quando resolveu morar na Europa (época em que hospedava Lurian, filha de Lula), foi para Paris, não para a paupérrima Albânia comunista. Foi junto com o segundo marido, Felipe Belizário Wermus, o petista argentino sombrio que escondia o próprio nome e se nomeava Luís Favre, mais tarde casado com outra “comunista fantasia”, Marta Suplicy. Que Petra Costa gaste seu dinheiro, cuja origem não é das mais limpas, enquanto ele não é devolvido ao povo brasileiro, o que possivelmente até não acontecerá. Mas que se abstenha de tentar pregar moralidade e simular comportamento ético. No seu caso, é muito mais que contradição.

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