Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Confúcio, as cabras e a Polícia Militar

Policiais militares são o alvo preferido de desocupados, autointitulados defensores de direitos humanos, que atuam como se os integrantes da PM não os tivessem

Policiais militares: sociedade brasileira precisa ter uma visão mais
positiva daqueles que às vezes pagam com a vida para protegê-la
| Foto: Wildes Barbosa

Não estranhe, caro leitor, o título acima, que sugere uma improvável relação entre o filósofo chinês, o mais antigo dos animais domésticos e nossa gloriosa Polícia Militar. Tudo se explica nas linhas seguintes.

Comecemos com uma velha fábula, que muito bem pode ter sido real. Dizem que lá pelo ano 500 antes de Cristo, o mais famoso sábio oriental, Kong-Fu-Tzi, que os ocidentais batizariam de Confúcio, meditava em sua cabana, quando foi procurado por um camponês, que lhe pedia auxílio. “Conte-me o que lhe aflige”, disse Confúcio. “Mestre, meu vizinho, Li-Jiang-Ching, vendeu-me uma cabra, mas, como é muito esperto, desconfio que me esteja enganando”, respondeu o campônio. “Como assim? ”, quis saber o sábio. “Com­prei-lhe uma cabra de 2 anos de i­dade, mas desconfio que ele esteja me entregando a mãe dela, que tem 8 ou 9 anos. Como são idênticas, não sei o que fazer. Se ele me engana e le­vo a mãe, ela viverá seis ou sete anos a menos, e grande será meu prejuízo. Em minha casa somos muito pobres para suportá-lo, mestre”.

O filósofo levantou-se e pediu que o lavrador o levasse aos animais. Chegando à choupana de Li-Jiang-Ching, de fato lá pastavam duas cabras idênticas, mãe e filha, que só o dono saberia separar. Confúcio olhou-as por alguns instantes, e virando-se para o suplicante, disse-lhe: “Leve as duas para sua casa. Amanhã você devolverá a de Li-Jiang”. O camponês obedeceu, sob o olhar astuto do vendedor. Ninguém se atreveria a contradizer o sábio mais respeitado da região.

Confúcio: o sábio chinês que deu a dica precisa para um homem não ser ludibriado

Quando se distanciaram, Con­fúcio disse ao comprador: “Che­gan­do, você as amarre à porta de sua casa, não se aproxime delas e nem deixe que ninguém se aproxime. Aguar­de até que eu lhe procure”. Somente no dia seguinte, ao entardecer, Confúcio chegou à casinha do intrigado camponês, onde as duas cabras, amarradas, baliam de fome e sede. Arrancou um tufo de capim de uma moita pró­xima e atirou entre elas. Uma apressou-se a devorá-lo enquanto a outra apenas olhava. “A que está comendo é a sua cabra”, disse o sábio. “Alimente as duas, dê-lhes de beber, e devolva a Li-Jiang-Ching a cabra que é dele.” E diante do olhar de interrogação do outro: “Só uma mãe, morta de fome, deixa o alimento para um filho. Só uma mãe protege os filhos mesmo com risco de sua vida”. E voltou às suas profundas meditações.

Na sexta-feira, 12, formou-se em Iporá nova turma de praças da Polícia Militar goiana. Uma quarentena de no­vos soldados, entre os quais duas mulheres, uma de­las, por sinal, a primeira da tur­ma. Quem já presenciou so­lenidade igual, há de concordar: é comemoração to­can­te, presidida pelo comandante-geral da corporação, onde se lembram as etapas vencidas no curso de preparação, se exaltam as práticas de companheirismo, amor à pátria, honestidade, coragem e devoção à causa da segurança da sociedade.

São feitos votos de felicidades nas perigosas missões que virão pela frente, e um sacerdote pede a proteção de Deus para os soldados. Cala-se sobre isso, mas cada qual sabe que alguns colegas, senão ele mesmo, ficarão pela estrada da vida, vitimados pelas armas de marginais que irão enfrentar. O último ato da formatura é o juramento solene que fazem os novos praças, e que se encerra com o compromisso de defesa da sociedade “mesmo com o risco da própria vida”.

Ora, como dizia Confúcio, há um fundo de doação materna em qualquer proteção que implique em risco de vida. Nem sempre se reconhece isso. Pelo contrário, nos últimos anos, incentivou-se uma prática nefasta de inculpação dos policiais pelo que ocorre em cada confronto com marginais. Se uma bala perdida atinge alguém, a culpada sempre é a polícia. Se ela leva a melhor num confronto armado, é truculenta. Se leva a pior, ninguém velará por sua família. Pro­curadores há que adoram acusá-la e juízes que a condenam sem levar em conta as difíceis circunstâncias em que vivem e trabalham. São o alvo preferido de desocupados, autointitulados defensores de direitos humanos, que atuam como se os próprios policiais não os tivessem. Há algo de materno na ação policial, repito, e é muito ingrata a sociedade que não o reconhece, e não estima e valoriza como deveria o seu guardião fardado. Para não dizer que há algo muito doente nessa mesma sociedade, se ela dá proteção excessiva aos bandidos que vivem em seu meio e a agridem. Estamos precisando aprender um pouco mais, e não só com os sábios, como Confúcio.

Mídia critica Trump e suaviza sobre Obama

O presidente dos Estados Unidos, Do­nald Trump, apenas fala em construir um muro na fronteira com o México, para evitar a imigração ilegal, que enriquece ban­didos “coiotes”, põe em risco a vida de pessoas que em desespero tentam burlar a lei e favorece assaltantes e estupradores.

Trump é execrado pela mídia mundial e pelos “artistas ativistas” — que quase todos o são — como Meryl Streep. Em outras palavras, é atacado por toda a esquerda.

Barack Obama, na véspera de deixar a Presidência dos EUA, revogou a lei chamada “pé seco, pé molhado”, que outorgava visto permanente de residente para os cubanos que, fugidos dos irmãos Castro, sobreviventes das balas da guarda costeira da ditadura, dos afogamentos e tubarões, conseguissem chegar à liberdade nos EUA. A imprensa e os artistas silenciam. Ninguém dá um pio. A esquerdalha vive mesmo em uma realidade paralela, cumpre admitir.

Origem da expressão ‘conto do Vigário’

Foi preciso estar em Portugal para saber a verdadeira origem da expressão “conto do Vigário”. Ao contrário do que muitos — senão todos — pensam, a história que originou a frase não tem a ver com padres, párocos, abades ou curas. Nem é brasileira, é portuguesa.

Fernando Pessoa: o escritor que registrou o “conto do Vigário”

Caso totalmente laico, é contado por Fernando Pessoa, com o título de “Um Grande Por­tu­guês”. Está numa coletânea de contos do poeta (e escritor, cla­ro), publicada pela Editora As­sírio & Alvim, no ano passado.

Resumo: existia, no Ribatejo, Portugal, ainda antes da proclamação da República, um negociante de gado e refinado malandro, chamado Manoel Peres Vigário. Ele devia um conto de réis a dois outros “colegas”, que andavam inquietos para receber seu rico dinheirinho, como dizem por lá. Eis que surge um quarto malandro, cuja digna profissão era a de falsário, com uma partida de notas de cem mil-réis, que, de tão malfeitas, só à noite poderiam ser passadas. A proposta era “cedê-las” a Manoel Vigário a vinte mil-réis cada. Pe­chinchando, Manoel Vigário acabou por obter vinte delas, a dez mil-réis a unidade. Tinha algo gestando na cabeça.

Chega, na noite seguinte, a uma tasca onde bebiam seus dois credores, um Manoel Vigário já aparentemente embriagado, senta-se à mesa dos mandriões e diz que quer quitar sua dívida, enquanto entornava mais alguns copos na companhia deles. Fazendo-se ainda de mais bêbado, saca as vinte notas de cem e diz: estão aí as vinte notas de cinquenta mil-réis que pagam minha conta com vocês.

Mais que depressa, passado apenas o tempo de observar que as notas não eram de cinquenta, mas de cem mil réis, os irmãos as embolsam. Manuel Vigário pede um recibo, que, obtidas pena e tinta do estalajadeiro, redigem e assinam: “Recebemos vinte notas de cinquenta mil-réis cada, perfazendo um conto de réis que nos devia o senhor Manoel Vigário, ficando quitada a dívida.”

No dia seguinte, ao examinar as cédulas, veem os dois irmãos finórios o quanto são imperfeitas e o risco de passá-las adiante. Dar queixa de Vigário ao juiz? Como, se o recibo que deram fala em notas de cinquenta mil-réis e aquelas falsas recebidas são de cem? A história, que acabou correndo de boca em boca, ficou conhecida como o “caso do conto de réis do Vigário”. Que acabou resumida em o “conto do Vigário”.

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Carlos Spindula

Não conhecia essa versão da origem da expressão “conto do vigário”. Eu conhecia a versão de que houve um português que veio ao Brasil e se apresentou como vigário e enganou várias pessoas.