Celg levou energia para uma cidade e um professor, ao discursar, reclamou: “Ô luzinha ruim”
15 agosto 2026 às 21h00

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Ainda com a intenção de descansar o leitor das abordagens zangadas relativas ao descaso governamental com nossa educação, nossa saúde, nossa segurança e tanta coisa mais, conto hoje mais um fato curioso, vivido nos anos 1970, no então Norte goiano, hoje Estado do Tocantins.
O episódio, que conto a seguir, ocorreu em uma das cidades das margens do Tocantins, das que mais clamavam por energia permanente e de confiabilidade.
Lá por meados de 1978, chegou na cidade a linha de transmissão da Celg, foi feita uma excelente rede de distribuição, atendendo domicílios, comércio e iluminação pública, e toda a cidade se preparou para uma inauguração festiva.
No dia certo, chegaram as autoridades estaduais, os aviões pousaram no aeroporto local, despejando assessores, diretores da Celg, deputados, secretários de Estado e o indispensável governador, pois a ocasião era única.
Incomodado com as interrupções e com o discurso que já ia longe, um assessor do governador resolveu dar uma ajuda: postou-se atrás do orador e soprava a leitura quando ele não conseguia ler algum trecho. O Professor tolerou a ajuda uma ou duas vezes, mas logo perdeu a paciência e proferiu, sem se afastar do microfone: “Pare de falar no meu ouvido! E isso que você disse não está escrito aqui, não!”
Foram alojados todos para o pernoite, pois a inauguração, para que todos pudessem apreciar o brilho das lâmpadas, teria que ser logo após o escurecer.
O palanque, na praça principal, já estava armado e à espera, com um colar de lâmpadas sobre ele e com a chave para a ligação inaugural instalada. Já no lusco-fusco, houve um desfile escolar, terminando na praça, em frente ao palanque, com os colegiais portando lamparinas de querosene, que a partir daquele dia seriam demitidas de suas funções e uma grande faixa à frente do desfile, gritando: “Adeus às lamparinas”. Tudo acontecendo sob aplauso da população, em peso na praça, e das autoridades, já todas aboletadas no palanque.
Caia a noite e chegava a hora da apresentação da estrela da festa, a energia, materializada nas lâmpadas a serem acesas sobre o palanque.
O presidente da Celg fez seu discurso, enaltecendo a energia como promotora do grande progresso que fatalmente ocorreria na região a partir de então, e acionou a chave, dando por inaugurado o benefício.
A seguir falariam prefeito e govenador, já com as luzes benfeitoras brilhando sobre suas cabeças. Assim foi feito, e as lâmpadas acesas sob o aplauso de todos, e gritos de “Viva a Luz” e “Viva a Energia”.

Viria a seguir o discurso do Prefeito, e, após, a fala do governador. Um jantar solene, no clube da cidade, encerraria as festividades.
O prefeito, tomando o microfone, anunciou que falaria em seu lugar o Professor X, expoente da intelectualidade local, já bem entrado em anos, que havia educado mais de uma geração na cidade, ensinando Português, Matemática, Geografia e História. Era também colaborador de alguns jornais da região. Figura respeitadíssima na cidade, enfim.
Assessores, vereadores, deputados, prefeitos abriram alas, para que o Professor avançasse até o microfone. Baixo e magrinho, engravatado, num terno de brim caqui, cabeleira alvíssima, a simpática figura chamava a atenção pela espessura das lentes de seus óculos — o que chamávamos, à época, de “fundo de garrafa”.
Chegando no microfone, sacou do bolso do paletó uma meia dúzia de folhas de papel almaço escritas à mão e pôs-se a lê-las, após saudar as autoridades do palanque. Era um apanhado histórico do município, desde antes de sua emancipação, com suas figuras e seus fatos mais importantes, seus políticos, seus feitos, seus homens de letras, os mais destacados, hoje em posições importantes na capital, e por aí afora…
Ocorre que, algumas vezes, o Professor tropeçava em algumas palavras escritas em seu talhe de letra já tremida pela idade.
Um assessor do governador, incomodado com as interrupções e com o discurso que já ia longe, resolveu dar uma ajuda: postou-se atrás do discursante e soprava a leitura quando ele não conseguia ler algum trecho. O Professor tolerou a ajuda uma ou duas vezes, mas logo perdeu a paciência e proferiu, sem se afastar do microfone: “Pare de falar no meu ouvido! E isso que você disse não está escrito aqui, não!”
Surgiram alguns risos abafados na assistência, logo calados para ouvir a continuação do discurso.
O assessor, ressabiado, se afastou, e o Professor continuou sua oração – e suas paradas, para decifrar a própria garatuja. Já no final do discurso, empacou de vez, e não conseguia ler seu escrito. Afastava e aproximava o papel dos óculos — e nada. O silêncio, na plateia e no palanque, era de cemitério.
Irritado, o professor levantou os olhos para a fileira de lâmpadas recém acesas, que oscilavam à brisa do Rio Tocantins sobre sua cabeça. E sentenciou, demolindo de vez a estrela máxima da festa: “Ô luzinha ruim!”
A gargalhada explodiu na praça toda.


