Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Ao retratar a batalha de Ardenas, Antony Beevor escreve um livro “menor”

Último trabalho do historiador britânico é bom, mas não está à altura dos outros. O motivo: o objetivo de estudo

Antony Beevor, historiador bestseller autor de Ardenas 1944  | Foto: Jeremy Sutton-Hibbert/Getty Images

Antony Beevor, historiador bestseller autor de Ardenas 1944 | Foto: Jeremy Sutton-Hibbert/Getty Images

Comentando o último livro do historiador britânico Antony Beevor (Ardenas 1944 – La Última Apues­ta de Hitler – Editorial Planeta, Barcelona), publicado neste ano, afirmei não estar à altura do relato sobre a batalha de Stalin­grado, feito pelo mesmo autor, em um livro de 1998. Pareceu-me que, ao dedicar um livro inteiro a um episódio bem mais curto e menos re­levante que a Ba­ta­lha de Stalin­grado, o autor (que é, de fato, a maior autoridade na Inglaterra sobre a Segunda Guerra, tendo outras obras sobre o tema), terminou por se deter longamente em detalhes de menor importância.

Por outro lado, omitiu alguns acontecimentos anteriores e posteriores à batalha, bem como traços da personalidade dos envolvidos, principalmente comandantes militares, dos dois lados em guerra. Ne­nhuma batalha – parodiando José Ortega y Gasset – pode ser separada de sua circunstância: os acontecimentos de sua origem, suas consequências, os generais que movem os cordéis no teatro de operações. A comparação entre os dois livros não é difícil e explica o porquê da superioridade de um sobre o outro: ela reside na própria importância maior de uma batalha sobre a outra.

A batalha de Stalingrado durou oito meses. A batalha das Ardenas, pouco mais de um mês. Stalingrado marcou o ponto de inflexão da Segunda Guerra; foi quando os exércitos nazistas, depois de quatro anos de vitórias, foram pela primeira vez detidos, obrigados a assumir a defensiva e, depois, o recuo. As Ardenas não foram mais que um estertor de uma Alemanha nas cordas, já fadada ao nocaute, que conseguiu atingir o adversário com um cruzado de direita, mas sem forças sequer para atordoá-lo. Não gratuitamente, Beevor, no título de seu livro classifica a batalha das Ardenas como a última aposta do ditador nazista na guerra que deflagrou e perdeu.

Livro de Antony Beevor não poderia ser melhor, pois a batalha de Ardenas não lhe deu fôlego suficiente para fazer uma grande obra

Livro de Antony Beevor não poderia ser melhor, pois a batalha de Ardenas não lhe deu fôlego suficiente para fazer uma grande obra

Se em Stalingrado os soviéticos perderam 4.500 blindados e sofreram mais de um milhão de baixas, nas Ardenas, americanos e britânicos perderam 800 carros de combate e, entre mortos, feridos e desaparecidos, tiveram 90 mil homens tirados de suas linhas. Os alemães, por sua vez, perderam nas Ardenas 600 tanques e assemelhados, e tiveram 65 mil baixas, um número irrisório perto do que perderam em Stalingrado: 1.500 blindados e mais de 700 mil soldados.

Esses números mostram a disparidade entre as duas batalhas, o que torna desde já impossível que sejam retratadas com o mesmo vigor, a mesma riqueza de detalhes e a mesma expressividade em dois livros com número quase igual de páginas. A guerra ainda não estava perdida quando os alemães esmoreceram nas ruínas de Stalingrado, em fevereiro de 1943, mas seu desfecho já estava certamente escrito quando se feriu a batalha das Ardenas; estava escrito, aliás, desde o dia em que os aliados desembarcaram na Normandia, no dia 6 de junho de 1944.

A derrota de Hitler em maio de 1945 era certa; apenas demorou 330 dias para ser escrita nos campos de batalha a oeste, onde as forças que poderiam deter, em parte, os soviéticos estavam empenhadas contra americanos e britânicos, entre outros (brasileiros inclusive). E a leste, onde os soviéticos avançavam, tudo arrasando em sua passagem. A história destes onze meses fatais não será entendida com a leitura de um livro restrito no tempo e no espaço da Guerra como o “Ardenas 1944”.

Quem desejar compreender bem o ocorrido nestes dias decisivos, poderá fazê-lo através de ao menos três livros, que por serem de fontes de diversas nacionalidades (e não só de um lado da contenda) dão uma visão, em seu conjunto, menos parcial dos fatos. São eles: “A Agonia da Alemanha”, do francês Georges Blond; “Invasão 44”, do alemão Paul Carell; e “Os Últimos Cem Dias”, do americano John Toland. Uma indicação para o leitor: eu diria que tais livros, embora já antigos (foram es­critos na década de 1960), se por um lado não foram beneficiados com a abertura de certos arquivos (soviéticos, principalmente) só agora accessíveis, por outro foram muitas vezes calcados em entrevistas com personagens centrais dos fatos narrados, então vivos, e hoje desaparecidos.

O livro de Georges Blond (1906-1989) abrange os acontecimentos na Alemanha de julho de 1944 a maio de 1945, começando, pois, depois do dia D (desembarque aliado na Normandia), já com a cons­piração do coronel Stauf­fenberg para matar Hitler, até a capitulação nazista. Embora francês, Blond traça em seu livro perfis muito nítidos de personalidades alemãs, como o general Walter Model, um dos principais co­mandantes da ofensiva das Ardenas, coisa que Beevor se absteve de fazer.

Talvez por ser também escritor, além de historiador, o francês desce a detalhes que extrapolam o simples relato militar, como quando observa as diferenças entre: o caráter do tosco, mas desprendido soldado russo até a morte; e o bem equipado, bem alimentado e bem apoiado na retaguarda soldado americano. Blond, diga-se de passagem, foi acusado de simpático ao governo de Vichy durante a Guerra.

O livro de Paul Carell (1911-1997) abrange o período de 3 de junho (vésperas do dia D) até a libertação de Paris, em 25 de agosto de 1944. Logo, não aborda a ofensiva das Ardenas, mas mostra o que se passa no lado alemão quando se abre a frente ocidental, o que levaria Hitler a imaginar a desesperada e fracassada tentativa de dividir os aliados com um ataque a oeste. As razões das vitórias anglo-americanas aparecem claramente na sequência, e um ilustrador exemplo está no capítulo que conta a batalha por Cherbourg, importante porto na costa francesa, que os alemães conseguiram manter, apesar do intenso bombardeio por mar e pelo ar, até 29 de junho.

O major-general americano Barton vai até o bunker do major alemão Küppers, comandante da guarnição que defende Cherbourg para intimá-lo a render-se, pela última vez, antes de um assalto final. Küppers havia rechaçado outras ofertas. O general mostra ao major seu mapa de operações e Küppers, a quem falta munição e até alimentos, vê, com espanto, que está cercado por abundantes tropas muito equipadas, armadas e municiadas. Mas não é isso que o demove de continuar lutando e sim a designação, no mapa inimigo, de suas posições, seus efetivos e até o nome de seus subordinados que comandam os pelotões. A superioridade material e de informações dos americanos era tão desproporcional que seria uma loucura, um desperdício de vidas, persistir no combate.

Já o clássico de John Toland (1912-2004) relata o que se passa em 1945 na Alemanha, de 27 de janeiro, quando ainda se lutava nas Ardenas, até a capitulação nazista, em 8 de maio. O livro é excelente e entre seus pontos altos existem dois dignos de destaque: um é sobre a Conferência de Ialta, muito bem relatada ali. Mostra claramente como um Stalin astuto e sem escrúpulos engana Churchill e Roosevelt para descumprir suas promessas e se apossar do leste europeu. Quem anteveria a tragédia seria o nazista Goebbels, num artigo sobre a Conferência, onde afirmaria: “Sobre todo o leste e sudeste da Europa, a União Soviética baixará uma cortina de ferro”.

Noutro ponto do livro, Toland fulmina a fama de reto e incorruptível do famoso e buliçoso general americano George S. Patton. Conta a história da célebre coluna Baum: logo após ser contida a ofensiva das Ardenas, em 24 de março de 1945, a quarta divisão blindada americana, tendo participado da luta, acabara de atravessar o rio Reno, quando seu comandante, general William Hoge, recebeu um telefonema de Patton. Ordenava que um agrupamento tático fosse enviado através das linhas alemãs até o campo de prisioneiros de Hammelburg, adentrando 100 quilômetros no território inimigo. O objetivo era libertar algumas centenas de prisioneiros americanos.

Na realidade, o que Patton desejava era libertar seu genro, John Waters, um dos prisioneiros do campo, o que negaria até para Eisenhower no futuro, mas que já havia revelado por carta à sua mulher. Hoge e pelo menos dois outros generais americanos mostraram-se contrários à missão, verdadeiramente suicida. Mas Patton forçou o envio. A coluna, chefiada pelo capitão Abraham Baum, contava mais de 50 veículos, a maioria blindados e cerca de trezentos homens. Chegou até Hammelburg, mas não conseguiu voltar. Os homens foram mortos ou aprisionados e os veículos destruídos ou capturados. O genro de Patton também não foi libertado. Baleado na refrega e hospitalizado, só foi libertado no fim da guerra.

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Ulisses Silveira

Quando vai ser lançada a edição brasileira? Tenho todos os livros do Beevor e estou no aguardo desta edição no Brasil