No dia 26 do mês passado, o jornalista José Fucs, colunista do “Estadão”, publicou um artigo intitulado “Lula, o Revanchismo e a Miragem da Pacificação”.

O jornalista começa com uma citação do discurso de posse do presidente: “A ninguém interessa um país em pé de guerra ou uma família vivendo em desarmonia. É hora de reatarmos os laços com amigos e familiares”. E prossegue afirmando que, 25 dias depois, esse espírito de conciliação presente no discurso presidencial não teria se materializado em atos. Pelo contrário, uma série de medidas tomadas no início do governo eram de molde a prestigiar a hegemonia petista e seguir os velhos clichês esquerdistas que não levam ao apaziguamento. O jornalista relaciona 13 ações do governo, que em tempo recorde — menos de um mês — apontam para um revanchismo que contradiz a afirmação pacifista do discurso de posse. São elas:

1 – Na viagem oficial à Argentina, o presidente declarou que o impedimento de Dilma foi um “golpe”. Na verdade, foi uma ação que seguiu todos os trâmites legais, inclusive a validação pelo Supremo, e com o aval do vice-presidente e de ministros do atual governo Lula.

2 – Na mesma viagem, Lula deixou claro que o BNDES voltará a financiar obras nos países “amigos”. O que significa que o Tesouro voltará a estar sujeito aos calotes das ditaduras de esquerda, como no passado, impostos ao trabalhador brasileiro por pura questão ideológica.

3 – Repetidas vezes, manifestou o presidente a disposição de estimular a aproximação da América Latina. O que significa tolerância com extremismos e até narco-estados.

4 – Criou a Procuradoria de Defesa da Democracia, nome pomposo para um departamento de censura governamental.

5 – Declarou que autonomia do Banco Central é “bobagem”.

6 – Declarou que meta de inflação é desimportante; o que importa é meta de crescimento.

7 – Declarou que “a tal de responsabilidade fiscal” faz o povo sofrer.

8 – Declarou que gasto público doravante deve ser considerado “investimento”.

9 – Promoveu a volta do voto de qualidade no CARF – Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, em benefício do Estado e em prejuízo dos pagadores de impostos.

10 – Fez a defesa da criação da moeda comum com a Argentina, cuja economia está de rastros.

11 – Declarou que os empresários não trabalham e ficam ricos à custa dos trabalhadores, no melhor estilo marxista.

12 – Declarou que deseja a revisão das reformas trabalhista e da Previdência e dos marcos reguladores das ferrovias e do Saneamento, importantes conquistas para destravar nosso desenvolvimento.

13 – Elevou o número de ministérios de 14 para 37, favorecendo, com dinheiro público, os companheiros políticos e ideológicos, muitos dos quais com sérias pendencias judiciais e discutível qualificação para a função.

A biografia de Lula muito mais ganharia se se aplicasse a ser, como anunciou, o líder pacifista do Brasil, talvez até com um aceno a Bolsonaro para a deposição conjunta das armas e a busca da solução dos pesados problemas nacionais. Responderia com um gesto nobre a grosseria do antecessor em não lhe passar a faixa presidencial

Atrevo-me a dizer que a lista do ilustre colunista está incompleta, se levarmos em conta as ações e declarações lulistas em mais algum tempo, antes e depois das eleições; e posso acrescentar mais de uma dezena itens em que o revanchismo e o rancor “progressistas” mostram presença:

I – Em 25 de agosto passado, em entrevista à TV, Lula afirmava que parte do agronegócio (o setor mais importante de nossa economia) é “fascista e direitista”.

II – Como primeira medida após tomar posse, o presidente restringiu duramente a atividade de tiro esportivo, caça e colecionamento de armas, atingindo um setor muito identificado com Bolsonaro. Alegou seu ministro da Justiça ser uma medida a favor da segurança, mas todos os elementos desse setor esportivo têm atestado de antecedentes e exame psicológico, o que não acontece com boa parte dos ministros seus colegas. O setor é apenas esportivo, inofensivo do ponto de vista da segurança. Por outro lado, em nenhum momento ninguém do governo falou em combater o tráfico e seu armamento, raiz maior de nossos problemas nesse particular.

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Lula da Silva e Jair Bolsonaro: cadê a pacificação? | Foto: Reprodução

III – Uma das primeiras medidas do novo governo foi a exoneração em massa dos militares servindo no Governo Federal e o veto ao ajudante de ordens de Bolsonaro para um cargo de comando. Mas sabemos que é no meio militar, e não no partido do presidente que se encontram profissionais mais preparados e corretos. Outras demonstrações de menoscabo com as Forças Armadas, pelo ministro da Justiça: as armas civis cadastradas no Exército devem migrar para a Polícia Federal (insinuando que o Exército não faz bem o controle, o que não é verdade) e deve ser criada uma Guarda Nacional, um exercitozinho particular partidário-ideológico. 

IV – Houve um desrespeito ou ao menos uma desconsideração com a Lei das SA na nomeação dos Presidentes do BNDES e da Petrobrás, para colocar nos cargos companheiros sem maior qualificação, não levando em conta que são grandes empresas, lidam com dinheiro público e exigem responsabilidade em sua condução.

V – Em conjunto com o STF (leia-se Alexandre de Morais), o governo respondeu com prisões maciças aos atos de depredação de 8 de janeiro. O número de prisões sem processo atingiu cerca de 1500 manifestantes, quando nem 10% deles participaram dos atos de vandalismo.

VI – O ministro da Justiça escolhido por Lula foi por 15 anos filiado ao que há de mais radical no espectro partidário brasileiro, o PC do B. Quem se filia ali ou é ignorante, o que não pode ser o caso, pois trata-se de um ex-juiz, ou é um radical de esquerda, isto é, um comunista anti-revisionista, na linha de Stálin. Flávio Dino já se declarou publicamente comunista (nem precisaria). Isto quer dizer que tem uma visão de segurança pública igual ou pior do que a que vigorou de 1985 até Dilma, quando o número de assassinatos no nosso território passou da casa dos 20 mil para a dos 60 mil anuais.

VII – A escolha dos líderes do governo na Câmara, no Senado e no Congresso não obedeceu a nenhum critério de moderação (ou de correção). José Guimarães, dos dólares na cueca, é o líder na Câmara; Jacques Wagner, que aparece em vários casos de corrupção e em delação premiada da Odebrecht será líder no Senado; E Randolfe Rodrigues, que será líder no Congresso, também aparece em escândalos, como o chamado mensalão do Amapá e em delação de executivo da Odebrecht. Nenhum deles é exemplo de conciliação.

VIII – O presidente, em inúmeras aparições públicas, continua atacando seu antecessor, o que sem dúvida não contribui para qualquer conciliação.

IX – Uma inexplicável transferência de Marco Gramacho, o Marcola, chefão do PCC, que se encontrava em prisão de segurança máxima em Rondônia e agora volta a Brasília não é de molde a tranquilizar a população brasiliense e brasileira. Esse cidadão comanda uma multinacional bilionária do tráfico de dentro da cadeia. Só não consegue fazê-lo se estiver confinado em segurança máxima, como estava.

X – A volta galopante da Lei Rouanet, que até que se prove o contrário se presta a beneficiar artistas ricos sem preocupação com bilheteria, foi uma das primeiras medidas de governo.

XI – Já se anuncia a volta dos médicos-escravos cubanos.

Em suma, Lula parte para seu terceiro mandato, ao que parece, movido pelo revanchismo e pela vaidade de ser o líder da América Latina. Sua biografia muito mais ganharia se se aplicasse a ser, como anunciou, o líder pacifista do Brasil, talvez até com um aceno a Bolsonaro para a deposição conjunta das armas e a busca da solução dos pesados problemas nacionais. Responderia com um gesto nobre a grosseria do antecessor em não lhe passar a faixa presidencial. E, pelo menos em parte, acalmaria metade do eleitorado brasileiro, até hoje abespinhado. Que os Flávio Dino de seu governo querem calar à força.