Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

A Universidade Federal do Rio de Janeiro e sua triste trajetória

A UFRJ, cuja história é meritória, não figura nem entre as 600 melhores universidades do mundo. E fica bem atrás de USP e Unicamp

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), até 1965 chamada Universidade do Brasil, esbanja tradição. Nasceu em 1792, como Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, no reinado de D. Maria I (a “Louca”, ou a “Piedosa”, dependendo do ponto de vista). Incorporou, em 1808, graças a D. João VI, uma Faculdade de Medicina e em 1891 uma Faculdade de Direito. Tornou-se em 1920, no governo Epitácio Pessoa, a primeira universidade federal brasileira.

Fui seu aluno (na Escola de Engenharia) de 1956 a 1960, e posso testemunhar o prestígio, não só nacional, como internacional, que a Universidade desfrutava então. Meu testemunho se prende, é claro, à unidade onde eu estudava, mas não creio que houvesse grande diferença de credibilidade quanto a outras unidades, como a Faculdade de Medicina (chamada “da Praia Vermelha”, por se situar nesse logradouro carioca, à época), a Faculdade de Direito e a Faculdade de Belas Artes, onde lecionava, no curso de Arquitetura, o professor catarinense Emilio Baumgart (1889-1943). Em 1928, Emilio Baumgart projetou e construiu, no centro do Rio, o edifício art-déco A Noite, então a maior estrutura de concreto armado do mundo.

Emilio Baumgart: brilhante professor da UFRJ | Foto: Reprodução

Não existia uma avaliação comparativa internacional das universidades, como existe hoje. Se houvesse, tenho certeza que a UFRJ (então ainda Universidade do Brasil) sair-se-ia bem no concerto internacional. Adianto tal afirmativa baseado em seu corpo docente, e dou alguns exemplos de professores da Engenharia com quem convivi e aprendi, ou mesmo trabalhei, ocasionalmente.

Aderson Moreira da Rocha era catedrático de Estruturas, autor de muitos livros sobre a matéria, cujos estudos chegaram a ser usados para compor as normas técnicas francesas sobre concreto armado e protendido. Seu assistente, Adolpho Polillo, também autor de vários livros, foi reitor de 1981 a 1985, respeitadíssimo. Jorge Oscar de Mello Flôres, que lecionava Mecânica dos Fluidos, tinha estudos teóricos publicados internacionalmente. Recebeu no Rio a visita da então maior autoridade mundial no assunto, o professor Hunter House, do MIT (o célebre Massachussets Institute of Technology) e da Universidade de Columbia. Fora conhecer o brasileiro que tivera a audácia de corrigir umas equações suas, que não estavam bem adequadas à Física Newtoniana.

Jorge Oscar de Mello Flôres (com Antônio Ermírio de Moraes) | Foto: Reprodução

Outro que deixou extensa obra publicada, não só em sua especialidade (Resistência dos Materiais), mas também sobre figuras da engenharia brasileira, foi Sydney Santos. Tinha uma cultura verdadeiramente enciclopédica.

Antônio Alves de Noronha, que fizera os cálculos do Maracanã, era doutor honoris causa pela Universidade de Zurique. Fernando Lobo Carneiro criou um teste de laboratório para resistência do concreto que foi adotado nos Estados Unidos e na Europa, e que era mundialmente conhecido como “teste brasileiro”.

O economista Mario Henrique Simonsen era um dos mais jovens e promissores professores, então. Eu poderia citar vários outros, mas essa amostra é bastante para que o leitor faça uma imagem da seriedade do estudo universitário de então, na UFRJ. Embora estivéssemos em plena Guerra Fria, não me lembro de nenhum professor levantar assunto político ou ideológico nas aulas que ministrava. O foco era formar bons profissionais, responsáveis e competentes em suas futuras carreiras. Lembro-me ainda de que, por mais técnica que fosse a matéria, o professor corrigia os erros de português que encontrava em nossas provas escritas. Era a época das cátedras vitalícias: um professor, para chefiar uma cadeira, prestava um duríssimo concurso, onde defendia uma tese inédita sobre o assunto da cátedra.

Mario Henrique Simonsen deu aulas na UFRJ | Foto: Reprodução

Na história da UFRJ estão presentes reitores importantes, como o Conde de Afonso Celso (1925-1926), o historiador Manuel Cícero Peregrino da Silva (1926-1930), o matemático Inácio Manuel Azevedo do Amaral (1945-1948), Pedro Calmon (1951-1966), Deolindo Couto (1950-1951), Clementino Fraga (1966-1967), Djacir Menezes (1969-1973), Adolpho Polillo (1981-1985), todos homens ilustres, com enorme produção literária e inúmeros serviços prestados ao país.

A escolha dos reitores, que eram nomeados pelo ministro da Educação, dava-se por indicação do Conselho Universitário, um colégio bastante eclético, que tinha em sua composição os reitores e pró-reitores, os diretores das várias faculdades e institutos de ensino, representantes do corpo docente, do corpo discente e do corpo funcional e ainda pessoas indicadas pelos órgãos representativos das classes produtoras (em geral, um representante do setor primário, um representante da indústria e um do setor de serviços). Foi assim até 1985 (governo Sarney), quando se resolveu “democratizar” a escolha dos reitores, por intermédio de uma votação direta, onde os eleitores eram funcionários, professores e alunos, que fariam uma lista tríplice para ser enviada ao Ministério da Educação. Foi o início da derrocada.

Universidade Federal do Rio de Janeiro caiu de qualidade possivelmente por causa da ideologização política | Foto: Reprodução

Os Conselhos Universitários indicavam os mais preparados para o cargo. Esse era seu interesse. Já a “democratização” contemplava outra visão das qualidades do reitor: se o candidato fosse exigente, cuidadoso, preocupado com o desempenho de cada funcionário, era tido como “carrasco” e nenhum funcionário votava nele. Se era exigente com o cumprimento dos planos de aulas, com as avaliações, com a frequência e o aproveitamento, era um “Caxias”, repelido por alguns professores e a maioria dos alunos. Passaram a ser escolhidos reitores “boas praças”, isto é, relapsos e descuidados, em grande parte das universidades.

Além disso, as esquerdas, muito presentes nos meios universitários, e com mais tempo (pois estudam menos) que os alunos e professores mais aplicados, passaram a manipular ideologicamente essas eleições, e fazer exigências convenientes para elas, como, por exemplo, nas listas tríplices, escolher sempre o primeiro da lista. Um exemplo deu-se em 1998, na UFRJ, com a nomeação do professor José Henrique Vilhena de Paiva, o mais qualificado da lista. Foi impedido por 44 dias de entrar na universidade pelo movimento estudantil de esquerda, que queria como reitor o comunista Aloisio Teixeira.

Foi-se a época dos reitores de grande nomeada, e vieram os populistas, que como sabemos mais recuam que avançam. Um exemplo dessa “democratização” às avessas, que vem em prejuízo da universidade, foi a eleição do professor Roberto Leher para reitor da UFRJ para o período 2015-2019. Leher é mais famoso como político do que como educador. Foi fundador de um dos partidos mais retrógrados da política brasileira, o marxista PSOL. Em sua administração aconteceu o incêndio de nosso maior e mais importante museu, o Museu Nacional, confiado à administração e guarda da UFRJ, vale dizer, do PSOL. O dr. Israel Klabin, ex-prefeito do Rio de Janeiro, quando do incêndio, em 2018, lembrou ter conseguido no ano 2000, verba de 80 milhões de dólares, do Banco Mundial, para equipamento e modernização do Museu Nacional. Só que o banco exigia que a administração do Museu se desse por uma organização social sem fins lucrativos, cuja diretoria seria escolhida unicamente por capacidade, abstraída qualquer injunção política. A UFRJ rejeitou a oferta. E o museu tinha, quando do incêndio, deficiente sistema de administração, manutenção e proteção, o que facilitou enormemente o desastre, a despeito do orçamento da UFRJ superar os 3 bilhões de reais.

O aparelhamento do ensino brasileiro se deu principalmente nos governos Lula e Dilma, com a proliferação de cursos de baixa qualidade, métodos de ensino ideológicos e de rendimento sofrível, inchamento sem critério do corpo docente e das administrações educacionais. Só no último governo Dilma Rousseff, teriam sido contratados 30% a mais de funcionários e professores no MEC, o que equivale a 100 mil funcionários admitidos sem outro critério que o ideológico. Tudo isso causou incontáveis prejuízos, que podem ser medidos, de maneira indiscutível, por números que não mentem. Em todas as avaliações internacionais, o ensino brasileiro, nos três níveis, básico, médio e universitário, tornou-se um dos últimos, em qualquer instituição avaliadora.

No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2018, entre 79 países, o Brasil era o 70º em matemática, o que é desastroso. E aqui voltemos a nossa vetusta UFRJ. Qual sua posição no concerto internacional das universidades? O avaliador Times Higher Education World University Ranking, que avalia todo ano cerca de 1300 universidades em mais de 90 países, publicou recentemente seu resultado de 2020. A UFRJ estaria entre as 100 melhores? Não. Aliás, nenhuma brasileira estava, embora uma argentina estivesse. Estaria entre as 200? Também não, como nenhuma brasileira, de resto. Mas estará entre as primeiras 300, seguramente, dirá o leitor. Infelizmente, não. Entre as 300 está a Universidade de São Paulo (USP). E entre as primeiras 600? Ainda não. Entre elas está, é verdade, a Universidade de Campinas (Unicamp). A UFRJ vai aparecer lá perto da milésima posição, em companhia da Universidade de Brasília (UnB), no último terço da classificação, e em vexaminosa posição para uma universidade com sua tradição e história. Triste trajetória.

9 respostas para “A Universidade Federal do Rio de Janeiro e sua triste trajetória”

  1. Jairo Antoinio Ribeiro disse:

    É com enorme satisfação que leio toda semana os artigos do Dr. Irapuan, figura que o estado de Goiás deve se orgulhar. Culto, educado, sábio, figura que ao se afastar da politicagem esquerdista que impera no Brasil, preferiu se distanciar dessa nojeira, fixando residência em Portugal. Sábia decisão.

  2. Eduardo Chaves Vieira disse:

    Parabéns pelo artigo, Sr Irapuan Costa Jr. Ele é uma síntese de toda ruína e deterioração que se abateram sobre a UFRJ, notadamente sob a influência ou sob a gestão da maléfica esquerda brasileira, capitaneada pelo PT e seus nefastos satélites como PSOL e PC do B. Triste trajetória de um dos maiores símbolos do ensino superior no Brasil. Que Deus nos livre desse cancer!

  3. fleurymar de souza disse:

    Como sempre, seus comentários chegam para esclarecer muito. Parabéns

  4. Janaina C O Villanova disse:

    Matéria com viés altamente ideológico, governista e com papel de desinformar a população. Só a COPE fala por si só e desmente esta tentatva de confundr a população. O desmonte da educação vem acontecendo já, ao menos, 20 anos e se dá por ignorância de governos que não querem a transformação social pela ciência e pela educação. No entanto, o maior desmonte está sendo promovido há 1 ano e meio, sob a batuta do PR Jair Messias Bolsonaro e seus filhos que, além de agirem para desmontar legados de qualquer governo anterior que não tenha cunho de extrema direita, são negacionistas, especialmente, da ciência. Mas nós vamos resistir e as universidades seguirão incluindo e progredindo, à revelia de obscurantistas como o senhor e políticos de baixo clero. Todos temporais. As IES públicas do país são atemporais e sobreviverão aos senhores, cujas histórias tristes e escuras serão lembradas e lamentadas.

  5. Bibliotecaário83 disse:

    Toda critica construtiva é valida e bem vinda. Não é o caso da apresentada acima!

    O autor (Irapuan Costa Junior) faz comparações descabidas quanto ao tempo e erra nos seguintes pontos: primeiro, não se faz comparações entre as antigas faculdade isoladas que deram origem a Universidade do Brasil (e que posteriormente foi renomada para UFRJ) e a estrutura atual que atua em 3 munícios diferentes (Capital do RJ, Duque de Caxias e Macaé). Se quisesse ser honesto em sua ponderação deveria ter analisado o prestigio das instituições que fundaram a UFRJ e comparar como são avaliados os cursos ao longo dos anos.

    Segundo, comparar um período da ditadura – quando professores foram presos, aposentados compulsoriamente e alguns tiveram de se exilarem do país – com o período democrático após 1985 é tipico que quem tenta falsear/reescrever a história. Sugiro que procure alguns artigos e teses que analisam a produção científica do Brasil ao longo dos anos, é possível ver como a Ditadura impactou negativamente. Sem falar todos os demais problemas econômicos e de saúde que foram entregues quando os generais deixaram o poder…

    Terceiro, endeusar o modelo de contração de OS para prestação de serviços é fechar os olhos para todos os problemas que são advindos dessas empresas – parece até que não vive no Brasil e não vê todos os problemas de superfaturamento de preços. Isso só falando dos hospitais de campanha do estado do RJ durante a pandemia.

    Quarto, colocar o salario dos servidores junto com a verba de custeio da universidade é um grande equivoco, a não ser que ache que um prédio, um tomografo, um microscópio e uma pessoa são a mesma coisa – na área de Administração, existem formulas para calculo sobre a quantidade de trabalhadores necessários em relação a prestação de serviço oferecido. Compare os repasses do MEC para as IFES e do Min. da Economia com pessoal.

    Outra sugestão é olhar os vários rankings que observam as instituições superiores de ensino e ler quais são os critérios que estão sendo considerados na avaliação. Outros 2 rankins de prestigio, QS World University Rankings https://www.topuniversities.com/ e Academic Ranking of World Universities http://www.shanghairanking.com/ mostram a UFRJ entre as 350 melhores instituições do Mundo.

  6. Fatima Reynaldo disse:

    Sinto aqui um melancólico recalque por parte do autor do texto. Inveja? Impotência? Tesão recolhido? Tudo junto e mais a forte ideologia política recheando sua confissão antidemocrática? Todo o mundo sabe da importância da UFRJ. Entrar na instituição é o sonho de milhões de jovens brasileiros. Não será um mal amado que vai apagar o brilho de uma das maiores faculdades brasileiras.

  7. Rafaela disse:

    Será que isso só tem a ver com ideologia?? E o sucateamento das instituições públicas? Sem investimentos é difícil evoluir!
    E mesmo sem investimento nesse caos que estamos vivendo, as universidades públicas estão a frente das pesquisas aqui no Brasil em relação ao Covid-19.
    Então, quando o Brasil entender e valorizar o estudo, inclusive o científico, as coisas podem começar a mudar.

  8. Triste mesmo!… Ideologias não devem jamais ocupar espaços nas academias, ou predominar em sociedade alguma.
    Assim surgem as ditaduras e embrutecem mentalidades tornando-as parciais.
    Temos que pensar no todo, respeitando visão e diferença de opiniões. Só assim evoluímos, nos desenvolvemos e crescemos de fato em todos os sentidos universalmente.

  9. Leonardo disse:

    Vc é literalmente um “engenheiro de obra pronta”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.