Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

A dramática história de um empréstimo para a Celg obtido em Londres

Com o apoio de Alfredo Moutinho dos Reis e Delfim Netto, o governo de Goiás conseguiu financiamento para a terceira etapa de Cachoeira Dourada

Usina de Cachoeira Dourada | Foto: Reprodução

Nunca foi fácil a luta dos goianos pela energia elétrica, base do conforto e do desenvolvimento econômico de qualquer sociedade. Desde 1918, quando na antiga capital se instalou o primeiro gerador, até os dias de hoje, quando o monopólio da distribuição da Enel escancara as falhas, que antes de serem da empresa (embora ela tenha lá suas culpas) são da falta de concorrência.

A história da energia elétrica em Goiânia começa antes da mudança da capital, com a instalação em Campinas, de uma pequena hidrelétrica pelos padres redentoristas, para uso próprio, inclusive da serraria que possuíam. Continua com a usina do Jaó, inaugurada em 1936, mas que não resistiu a uma cheia extraordinária em 1945, perdeu sua barragem e saiu de operação. Quem já era vivo naquela época se lembra das noites de escuridão.

As trevas só começaram a ceder dois anos depois, quando se instalou nos arredores da capital, junto ao córrego Botafogo, um gerador adquirido em São Paulo, que depois se soube: era montado em um motor de submarino italiano, desativado na guerra recém-terminada. Mas cumpriu sua função, enquanto se construía a usina do Rochedo, no Rio Meia Ponte, que entrou em operação em julho de 1955, ano em que foi criada a Centrais Elétricas de Goiás S.A. (Celg) e teve início a construção da usina de Cachoeira Dourada, no Rio Paranaíba.

A história dessa usina se confunde com aquela do desenvolvimento goiano e da luta de sua gente, com sacrifício, por esse desenvolvimento. Só com esse sacrifício foi possível a um Estado ainda pobre, então longe dos centros industriais mais ricos, voltado basicamente para a pecuária, avançar para uma maior renda interna.

Cachoeira Dourada teve sua primeira etapa inaugurada em 1963 (34 MW). Outras três etapas se seguiriam, inauguradas em 1970, 1977 e 1994, até atingir a potência final de 658 MW. A Celg optou por privatizá-la em 1997, por orientação do governo estadual, quando vendeu a geração e continuou com a transmissão e a distribuição, justamente as partes mais problemáticas e menos rentáveis do complexo energético, algo até hoje enigmático.

De 1955 a 1997, Goiás fez um enorme esforço técnico e econômico para a construção da usina. A contribuição técnica foi de vários engenheiros, goianos principalmente, dos quais um se destaca, como projetista e construtor da usina, por muitos anos: Oton Nascimento, que marcou a engenharia goiana com seu talento, e foi o primeiro a presidir a Celg.

A contribuição econômica foi do povo goiano, que aceitou nessas décadas pagar, com seus salários, as pesadas contas de energia, das quais uma parcela era voltada para os investimentos que a Celg fazia, religiosamente, em Cachoeira Dourada, linhas de transmissão e redes de distribuição. E o goiano pagava seus impostos, que quitavam em parte os financiamentos que a empresa obtinha da Eletrobrás e do BNDES para tocar as obras. Muitos embates se travaram, longe da imprensa e da opinião pública, para que mantivéssemos nossa Usina. Vou revelar alguns deles hoje, para os leitores.

No final da década de 1960 e na de 1970, quando a economia brasileira cresceu bastante, o setor energético era ditado pela Eletrobrás, e esta era dirigida (na maior parte desse período) pelo competente engenheiro Mário Bhering. Furnas Centrais Elétricas, a maior subsidiária da Eletrobrás, era dona de várias usinas, e era presidida por John Cotrim, engenheiro muito influente no setor. Cotrim obtinha o que desejava da Eletrobrás.

No governo Otávio Lage, Cotrim mostrou desejo de encampar a Usina de Cachoeira Dourada, e adicioná-la a Furnas, o que deu bastante trabalho ao então presidente da Celg, Joaquim Guedes Coelho.

Empréstimo obtido pela Celg em Londres

José Carlos de Almeida, Irapuan Costa jr. e Alfredo Moutinho dos Reis | Foto: Reprodução

No governo Leonino Caiado, as pressões continuaram, o que levou a um atrito meu (que era presidente da Celg) com Cotrim, amenizado pela interferência de Mário Bhering. Uma briga com a Celg, que abastecia Brasília, não era boa para Furnas, que, contudo, trabalhava nos bastidores, tentando diminuir a Celg junto às autoridades de Brasília e, segundo suspeito, dificultando nossos empréstimos junto à Eletrobrás e ao BNDES para as obras de Cacheira Dourada. Minhas suspeitas eram baseadas no prestígio de Cotrim na área federal e na burocracia que enfrentávamos para liberar nossos empréstimos, o que originava atrasos e desgastes com os empreiteiros que às vezes arcavam com demora para receber suas faturas.

Os empréstimos externos eram desconhecidos, até que ocorreu uma novidade: Em março de 1972, instalou-se em Londres o European Brazilian Bank (Eurobraz), uma associação do Banco do Brasil e gigantes financeiros, como Deutsch Bank, Bank of América, Banque de Paris e Swiss Bank. E foi nomeado diretor um economista do Banco do Brasil, também professor, Alfredo Moutinho dos Reis. Quando li a notícia, veio-me uma ideia. Moutinho havia lecionado na Escola de Engenharia da Universidade Federal de Goiás, a meu convite, num curso de Economia para Engenheiros. Dava-me bem com ele. Liguei para ele em Londres:

— Moutinho, Irapuan. Um desejo, o de sucesso para você nesta empreitada, e uma pergunta.

— Diga, Irapuan

— O Eurobraz pode emprestar à Celg, diretamente, para as obras de Cachoeira Dourada? Quais as exigências?

— Pode. Se você me der garantias, como as contas de energia e me apresentar um intermediador financeiro que as receba e co-garanta, eu lhe empresto. Me informe por telex (à época era o meio mais rápido de comunicação) quanto precisa, qual o agente financeiro e lhe informo juros e prazo possíveis. Para Cachoeira Dourada, que abastece Brasília, minha diretoria aprova fácil.

Mario Bhering, Leonino di Ramos Caiado (governador) e Irapuan Costa Júnior (presidente da Celg) na Eletrobrás | Foto: Reprodução

Informei nossas necessidades, dei a Caixego como garantidora e aguardei a resposta. Moutinho não se fez de rogado e no outro dia me informava as condições. Fiquei boquiaberto: os prazos eram muito maiores que os da Eletrobrás e do BNDES e os juros, muito menores. Acertei os detalhes com Moutinho, avisei o presidente da Caixego (que era Índio Artiaga) e marcamos nossa ida a Londres para a outra semana, para assinatura do contrato. Dentro do maior sigilo, para evitar uma possível sabotagem dos interessados em nos tomar Cachoeira Dourada. No dia do embarque para Londres (que era à noite), fui cedo para o Rio de Janeiro, onde tinha algumas coisas a resolver. Estava no escritório que a Celg tinha na cidade, quando Moutinho me chama de Londres:

— Soube agora que os empréstimos como o da Celg têm que ter aprovação de um conselho ligado ao Ministério da Fazenda.

Senti um desânimo. Aquilo significava um atraso de pelo menos um mês, e talvez uma inviabilidade. Mas Moutinho continuou:

— Por sorte, o Delfim (o ministro Delfim Netto, da Fazenda) está no Rio. Disse a ele que você ia ligar e pedi que desse uma solução.

Delfim Netto, nessa época só era menos importante que o presidente Emilio Garrastazu Médici. Liguei para ele, embora sem muitas esperanças até mesmo de ser atendido ao telefone, mas me surpreendi. Me atendeu com atenção, informalidade e disposição positiva, quando lhe expliquei o problema. Perguntou-me apenas:

— Você tem papel timbrado da Celg com você?

— Tenho. Estou em nosso escritório aqui no Rio.

— Faça uma carta para mim pedindo autorização do Conselho, diga da urgência e me traga aqui. Vamos resolver isso. Faça em duas vias.

Fiz a carta, e fui ao gabinete do Ministério da Fazenda, que felizmente era bem próximo, no Centro do Rio.

Delfim Netto tomou uma cópia, guardou na gaveta, escreveu algo na outra, e me devolveu. Estava escrito: “Autorizado, ad referendum do Conselho”. E assinado. Pelo então poderoso “czar de economia”. Ninguém contestaria.

Embarcamos para Londres, assinamos o contrato, tivemos dinheiro para o término da terceira etapa da usina. No primeiro encontro com Mário Bhering, vi que não havia gostado de nossa desenvoltura:

— Quando tomar dinheiro do exterior por favor me avise com antecedência, Irapuan, ou eu perco o controle do andamento das obras.

Bobagem. Estávamos escapando de sua tutela financeira e segurando nossa usina da cobiça de Furnas. Foi uma vitória.

Anos mais tarde, em 1987, Furnas daria um golpe na Celg. Mas isso fica para outro artigo.

Uma resposta para “A dramática história de um empréstimo para a Celg obtido em Londres”

  1. Avatar Baron Camilo of Fulwood disse:

    Para quem viveu este tempo difíceis, traz memória emocionantes.

    Irapuan Costa Junior, e muito outros foram os “Golden Boys” de Goiás. Pena que o tempo da tecnicalidade já não existe mais!

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