As desigualdades socioeconômicas distanciam as pessoas, em uma sociedade, como também afastam regiões, uma das outras, em uma nação. Não há como manter-se um relacionamento natural com condições muito desiguais. Os mais favorecidos circulam em outro universo e tem em comum outros interesses do que os desfavorecidos.

Enquanto o rico discute a última moda ou a próxima viagem ao exterior; o pobre está preocupado com o emprego e a violência na favela. Enquanto um dá vazão aos sonhos, o outro rumina a dura realidade. A coexistência entre os desiguais existe somente no trabalho ou nas relações comerciais. Socialmente são mundos à parte. Vivemos e circulamos em guetos, ignorando a realidade do continente. Quem olha pela janela do carro e questiona as condições de vida do pedinte do semáforo? A indiferença é a tônica… mal e mal se dá um trocado.

A cidade e as desigualdades sociais | Foto: Reprodução

Essa realidade coloca às sociedades um desafio político, que é a manutenção de uma convivência harmônica. O que não é um desafio de pequena monta. Não só as duras condições de vida dos menos favorecidos é um fator de discórdia, mas, acima de tudo, o exercício da comparação entre as situações dos que têm para os que nada têm. A inveja é outro elemento desagregador. A igualdade, mesmo na miséria, não provoca a inveja. A razão da revolta é a desigualdade, ela é o estopim da insatisfação.

Não por menos, por inveja, Caim matou Abel. A inveja é o pior veneno existente para o convívio entre os humanos. A comparação do ter mais ou menos é uma prática comum. Mesmo nas pequenas unidades, como a família, por exemplo, os choques de inveja não deixam de existir. E a inveja não se manifesta só por diferenças materiais. Elas acontecem também em confrontos de condições pessoais. Um ser desprovido de beleza física, inveja um belo; um deficiente, um atleta; um tímido, um desinibido… A única condição que não provoca a inveja é o “bom senso”, como bem identificou Descartes: “é a única condição de que ninguém sente-se carente. Todos se consideram bem aquinhoados”.

Há duas categorias de inveja: a entre as pessoas a as que ocorrem no âmbito social. A inveja pessoal é   mais facilmente identificável   e entendida. Já as outras, as sociais, ocorrem de forma pouco explícita e não são facilmente identificáveis. Estas manifestam- se de forma geral no preconceito contra os “ricos ou riqueza”.

A inveja tem muito a ver com a cultura de um povo. Abusando de um certo reducionismo, tomemos duas culturas como exemplo.  Enquanto nos países católicos condena-se a riqueza, nos países protestantes o criador de riqueza é endeusado. A consequência é nos países predominantemente católicos existir uma maior inveja do rico, do bem-sucedido, enquanto nos de cultura protestante haver socialmente uma admiração dos bem-sucedidos.

Max Weber, economista e sociólogo alemão, no seu clássico livro “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, analisando as causas do maior desenvolvimento dos países anglo-saxônicos em comparação com os latinos, desenvolveu a tese de ser a religião o diferencial desses resultados.

O protestantismo vê no indivíduo próspero uma benção de Deus. Há uma forte relação entre o ascetismo intramundano e a crença na predestinação. O protestante era convicto de que seu agir, ou seja, o trabalhar diligente, era vontade de Deus para sua vida. Ser predestinado permitia a justificação do acúmulo, do sucesso financeiro e eliminava o conflito entre sorte e merecimento.

O capitalista austero-empreendedor é bem-visto pela sociedade protestante, Já o catolicismo estigmatiza a riqueza, que é condenada socialmente — menos a do Vaticano, que reina no luxo e da usura. A inveja não é só um veneno as relações pessoais, mas também — desestimulando o empreendedorismo — é um empecilho ao desenvolvimento socioeconômico.