Jorge Wilson Simeira Jacob
Jorge Wilson Simeira Jacob

Quem concede pedaços da liberdade individual perde a dignidade

De pequena a pequena atadura, vamos comprometendo o instrumento que é a defesa da dignidade. Por isto o Liberalismo não transige na defesa da liberdade individual

“Creio que, em qualquer época, eu teria amado a liberdade; mas, na época em que vivemos, sinto-me propenso a idolatrá-la.” — Alexis De Tocqueville, “Da Democracia na América”

A honra é indissociável do livre arbítrio. Quem não tem a liberdade plena de fazer escolhas está sujeito a ter maculada a sua dignidade. A liberdade individual é o único instrumento de defesa da honra pessoal. Um escravizado só pode defender a sua recusando-se a lamber os pés dos seus algozes. Pode ser subjugado pela força, mas não se entrega sem resistência. Mantém o espírito de homem livre, que não se dobra à servidão. Mesmo quando cai, cai de pé.

Somos tolhidos em nossa liberdade, desde o nosso parto. Só nos primeiros instantes da vida somos realmente livres. Quando podemos   nos manifestar com os recursos que temos: chorar, espernear, evacuar, sem preocupar-nos com as consequências. Porém, no correr do tempo, a cada minuto de vida começamos a alienar a nossa liberdade. As imposições familiares sucedem-se com o evoluir da nossa idade: horários, higiene, respeito aos outros, à natureza… Se antes, o regime do bebê assemelhava à anarquia, na infância caminha para sujeição a uma boa dosagem de autoritarismo. A liberdade na puberdade fica tolhida pela submissão filial. Cada vez mais vamos sendo domesticados para nos limitar tendo em conta os circundantes.

Cada vez mais a sociedade limita as nossas liberdades. Na fase adulta, como cidadãos, somos politicamente submetidos ao seu poder. É um mal necessário. Necessitamos dele para regrar as relações sociais. A ele cabe assegurar o direito à propriedade, à soberania, à herança, à justiça, enfim à paz social. A evolução de uma sociedade baseada na Força para a do Direito é uma conquista à qual temos que ceder um naco da nossa liberdade. Evidentemente, quanto menos melhor. Os governos não deixam de ser uma ameaça, por deter o monopólio da Força, que deve ser contida pelas leis.

Frédéric Bastiat diz, no livro “A Lei”, que as leis existem para defender o cidadão do poder do governo e não o contrário | Foto: Reprodução

Segundo Frédéric Bastiat (1801-1850), no seu clássico livro “A Lei”, as leis existem para defender o cidadão do poder do governo e não o contrário. Se na relação familiar a nossa dignidade está razoavelmente protegida pelo amor maternal, na sociedade necessitamos das leis. Se o governo exorbita dos seus poderes, resta ao cidadão exercer o direito do voto. Se este for negado, resta como último recurso as armas. Por isto a importância que adquiriu a democracia plena, apesar de seus muitos defeitos.

Quando Gulliver, depois do naufrágio, chega exausto na ilha dos liliputianos, cai em profundo sono, acorda, depois de nove horas, amarrado ao solo por milhares de fios da espessura de um fio de cabelo. Imobilizado vê ao seu redor minúsculas figuras, seres humanos do tamanho da sua mão. Dá-se conta de que perdeu a liberdade. Está à mercê da sorte. Enquanto Gulliver foi sendo preso durante um longo tempo por finos fios, nós vamos entregando a nossa liberdade por pequenos liames: subserviência, negligência, interesses de curto prazo… De pequeno fio a pequeno fio vamos sendo aprisionados. A cada concessão que fazemos cedendo pedaços da liberdade individual, corresponde um passo em direção ao nó da desonra. No final da vida, de pequena a pequena atadura, vamos comprometendo o instrumento que é a defesa da nossa dignidade. Por isto o Liberalismo não transige na defesa da liberdade individual.

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