Aquela trupe de artistas amadores, maltratados, as lonas velhas, remendadas, o palco limitado e o velho par de trapézios tudo era improvisação e pobreza. O velho circo só sobrevivia pela devoção de seus artistas e pela mudança de público. Era um eterno peregrino. Os artistas vivendo em condições precárias, acampados como ciganos, fazendo arte pela arte, e o circo sobrevivendo pela curta permanência nos arrabaldes das cidades.

À falta de outros meios de diversão, como o cinema e a televisão, eles propiciavam ao público entretenimento. Os espetáculos circenses atraíam multidões, desde os romanos, onde o público divertia-se com as feras devorando os cristãos e com as lutas de gladiadores.

O avanço da tecnologia ameaçou o primarismo do circo à morte. Só não morreu de vez com o surgimento do Circle Du Soleil, que reinventou o espetáculo circense. Em um lance genial, três artista de rua perceberam a oportunidade de inovar. Existia razão para isto, pois mantinha-se intacto o interesse das pessoas por diversão. Os palhaços e os mágicos continuavam a encantar as crianças. Os acrobatas, os trapezistas, os domadores mereciam   as atenções de todos.

 Mas o circo pedia uma nova feição. Ela aconteceu ao sair da pobreza, da improvisação, para o esplendor dos espetáculos ricos da concepção à apresentação. A lona descorada deu lugar à modernas instalações itinerantes e mesmo fixas, como em Las Vegas e Orlando – com seus enormes e luxuosos teatros para exibições permanentes.

No Circle Du Soleil o especulo não para. Não deixa tempo para pensar. Uma exibição é seguida de outra, sem intervalo, e muitas vezes simultaneamente.  Desde a chegada, os espectadores são envolvidos em um ambiente festivo. São recepcionados por palhaços que os guiam perambulando por todo o teatro como se os fosse levar aos seus assentos, mas deixando-os em lugares errados.  Não há tempo perdido. É diversão continua enquanto dura o espetáculo. E até ao término, quando resta o encantamento da arte circense levada ao extremo do bom gosto e da qualidade. É uma brincadeira levada à sério.

O circo é como a política, outra brincadeira mas com pretensões de coisa séria. A diferença está em que no circo os espectadores têm consciência da brincadeira e na política os eleitores inconscientemente não percebem o engodo. O circo é a arte do encanto, da brincadeira, a política a do desencanto, da mistificação.

Se na encenação a arte circense compara-se a um sonho, nas eleições a política, a um pesadelo, que se repete no Brasil a cada quatro anos. Cada uma mais deprimente do que a anterior. A decadência do processo é visível. Está cada vez mais distante do processo de escolha dos mais capacitados a governar para ser um espetáculo grotesco, de mal gosto, de baixo nível. O circo evoluiu. As eleições involuíram.

Os artistas-candidatos circulam nas feiras comendo pastéis. O tempo todo fazem mágicas e malabarismo com promessas de fim do mundo, indo ao ridículo para chamar as atenções. Não há limites à mistificação, intriga e injúria. Só o que vale é demonizar os adversários. Colocados frente à frente encenam uma civilidade que não tem. Como não tem também o mínimo respeito pelo público. Pior dos mundos — dão a impressão de não terem respeito por si mesmos. Beijam e abraçam hoje os que os ofenderam no passado.

Não há dignidade aparente. É um vale tudo. Mas os enganados são só os eleitores. Os candidatos sabem ser uma farsa as suas brigas eleitorais. São como as “marmeladas” dos lutadores de luta livre. Estão simplesmente encenando. Só os ingênuos se escandalizam se os inimigos de hoje forem os aliados do amanhã. Os bandidos do passado serão os heróis do futuro. É só uma questão de circunstâncias.

O eleitor faz questão de ignorar que as eleições são um truque barato. Um espetáculo de circo mambembe. Elas não resistem a um mínimo de visão crítica, pois esta não anda junto da paixão. O público faz por merecer. Entra no jogo passionalmente — nada é racional no comportamento do eleitorado. Vota-se em razões que nada tem a ver com a capacidade de administrar um país. Toma-se partido pela aparência do/a candidato/a, a sua religião, uma frase ou palavra mesmo fora do contexto … e por aí vai. Vota-se não pelo passado, pelo histórico, valem mais as ilusões do que a realidade.

Seria simplesmente um espetáculo a divertir se não fossem as consequências. Tragédia escrita é o processo eleitoral. Passadas as eleições, vem a realidade. Em vez de sonho, descobrimos o pesadelo. Mas, donos de memórias fracas, continuaremos a ser enganados por esses candidatos-circenses que com suas “artes” tem culpados a acusar e um público a enganar. Como aqueles recepcionistas-palhaços que perambulam com os espectadores para deixá-los nos lugares errados. E assim vamos esperando a volta do novo espetáculo circense, pois ruim com ele pior sem ele…até que um iluminado resolva reinventar as eleições.