Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes). Italo Calvino

O tempo é a mãe da verdade. Nada como o tempo para depurar os fatos. Um livro pode ganhar notoriedade momentânea mesmo tendo pouco valor, mas só os clássicos superam o tempo. Por isto, ainda que não ignore a importância de textos novos, escolho também para minhas leituras algum dos clássicos. “Minha Formação” (Editora 34, 228 páginas), de Joaquim Nabuco (1849-1910 — viveu 60 anos), que está sempre na lista dos recomendados nas escolas, é um desses. Vale a pena ser lido. Venceu o tempo por seus méritos.

Joaquim Nabuco foi um político nos anos finais da Monarquia, que se notabilizou na luta pelo fim da escravidão no país. De família de políticos destacados, Joaquim Nabuco era um grande orador e homem de letras. Autor de “Minha Formação”, “Um Estadista no Império” e “Das Pensees Detachées”, entre outros. Por trinta anos empenhou-se ao lado de outros liberais pelo abolicionismo. De visão perspicaz, tendo vivido certo tempo no exterior, faz uma análise comparativa das características do povo inglês, francês, americano e nós.

Joaquim Nabuco: um intelectual entre o Império e a República | Foto: Reprodução

Chama a atenção no texto descobrir como a cultura de um povo pouco altera-se na sua essência ao passar de quase dois séculos. Os povos, inclusive nós, já éramos culturalmente o que somos depois de tantos anos. Entre os submetidos à sua análise, ainda que reconheça valores nos franceses, nos americanos, destaca os ingleses. Ele amava Londres.

Disse Joaquim Nabuco: “Só há… um grande país livre no mundo. A Suíça é um país livre, mas é pequeno; os Estados Unidos são livres, mas há nele, sem falar na sua justiça, a lei de Lynch, que lhe está no sangue… A França é um grande país e livre, mas sem espírito de liberdade arraigado, sempre sujeito às crises das revoluções e da glória. Surpreende na Inglaterra o governo da Câmara dos Comuns, a sua suscetibilidade às oscilações do sentimento público. Sobretudo a autoridade dos juízes. Só há um país do mundo onde os juízes são mais fortes do que os poderosos: é a Inglaterra”.

A par da liberdade, Joaquim Nabuco dá atenção à tradição, como base do temperamento nacional. “O inglês compreende e penetra a grandeza do sistema que se perpetua mais do que as revoluções, ao contrário do latino, que pode viver e ser feliz em solo político oscilante, sujeito a terremotos contínuos… O progresso é governado por algumas regras elementares: conservar do existente tudo o que não seja obstáculo invencível ao melhoramento indispensável; outra que o melhoramento justifique o sacrifício da tradição; outra regra é respeitar o inútil que tenha o cunho de uma época; outra deixar ao tempo a incumbência de experimentar o novo…dessas regras resulta o dever de demolir com o mesmo amor e cuidado o que outras épocas edificaram”.

Joaquim Nabuco herdou o seu liberalismo do pai, senador José Tomás Nabuco de Araújo Filho. As ideias da liberdade individual desde cedo colocaram o seu talento de escritor, orador e político na luta pela libertação dos escravos. Joaquim Nabuco não media esforços e assumia os riscos em defesa do abolicionismo. Foi ter com o Papa Leão XIII para pedir uma encíclica que orientasse os padres em defesa dos escravos, pois o clero mostrava-se indiferente à sorte dos escravos. Mostrou ao Papa que os libertos seriam acréscimo ao seu rebanho. Encíclica que, prometida, só foi publicada depois do 13 de Maio.

Dois episódios das vidas dos escravos marcaram Joaquim Nabuco. Quando menino, sentado na varanda da casa da fazenda onde foi criado, um jovem escravo, nos seus dezoito anos, lança-se aos seus pés implorando para que fosse comprado, pois no engenho vizinho era muito maltratado…e não aguentava mais. Outro foi o caso de um escravo que se suicidou quando soube ter Joaquim Nabuco não ter sido reeleito.

A Lei Áurea, em 13 de maio, um movimento dos liberais, foi um golpe fatal na Monarquia, em 15 de novembro. Mesmo assim, segundo Joaquim Nabuco, a princesa imperial Isabel dirige-se ao abolicionista Rebouças no vapor Alagoas, que os levava para o exílio, dizendo: “Se houvesse ainda escravos no Brasil, nós voltaríamos para libertá-los”. Desnecessário alertar ao fato de ser Joaquim Nabuco um admirador de Dom Pedro II, a que descreve como um estadista e homem virtuoso.

Joaquim Nabuco viveu intensamente como intelectual e político. Conviveu com inúmeros nomes históricos do Brasil e do mundo. Foi um expoente no seu tempo. Amante da liberdade, que não queria só para si, mas para todos. Morreu como embaixador brasileiro em Washington, em 1910, aos sessenta anos de idade. Seu corpo foi transportado para o Brasil a bordo do cruzador americano, o North Carolina, destacado para essa missão, e comboiado pelo encouraço brasileiro Minas Gerais para receber na pátria os funerais que a pátria reserva aos seus filhos ilustres.

O livro “Minha Formação”, de Joaquim Nabuco, é um clássico, por isto sobreviveu aos tempos.