O Criador, segundo a Bíblia, expulsou Adão e Eva do Paraíso, pelo pecado original, condenando-os a amassar o pão com o suor das suas testas. Esta condenação estabeleceu a primeira das desigualdades entre os homens: os que têm que suar as testas para comer o pão e os que morreriam de fome.

A partir daí nunca mais os homens tiveram igualdade na partilha dos bens terrestres. O esquema funcionou pacificamente enquanto a humanidade resumia-se a um restrito núcleo familiar, uma organização que pratica o ideal comunista de dar: “A cada um de acordo com as suas necessidades e de cada um das suas possibilidades”. Mesmo assim, não impediu a rebeldia de Abel matando Caim, seu irmão. Este evento, de pura inveja, marca o início das demonstrações de insatisfação com a desigualdade.

Na história de Roma os irmãos Graco¹ foram assassinados por suas propostas de redução das desigualdades econômicas dos plebeus. Não só em Roma, mas em toda a humanidade a desigualdade nunca deixou de incomodar. Só não foram às últimas consequências por terem sido desestimuladas pela pregação: do cristianismo, no Ocidente, que promete que os céus serão dos humildes; e das tiranias do Oriente, que sufocavam as vontades pela força.

Na Índia, a maior democracia do mundo, as aspirações são contidas pela religião e pela divisão da sociedade por castas. Com estes instrumentos de dominação, os desfavorecidos são contidos pela resignação e pelo fervor religioso. Recentemente, no século 18, surge a ideologia socialista baseada na luta de classes. Segundo esta concepção, uma ação política faria uma justiça social distribuindo os frutos independentemente do suor derramado.

  Esse discurso pôs calor no debate entre a inveja e o egoísmo. Uns cobiçando o que não lhe pertence e outros recusando-se a abrir mão das suas conquistas. Uma disputa que pode ser classificada como a luta do capitalismo versus o socialismo ou do egoísmo versus a inveja.

A democracia americana inovou com o voto universal. Deu poder político às massas, que pressionam os governos a redistribuir as rendas, tributando quem tem para transferir aos outros. Os governos, com vistas aos votos da maioria, para aplacar os apetites, alargam a sua ação intervencionista. A consequência foi o incessante crescimento da máquina governamental, cuja degeneração e corrupção é correspondente. Como viciado, que um gole, em vez de saciar a sede, pede outro, assim são as expectativas populares e o crescimento da avidez da burocracia².

Porém, como na Física, a Economia também tem limites. Nesta apresenta-se no esgotamento da capacidade contributiva dos cidadãos. Como os recursos são sempre inferiores às necessidades, chega-se a uma situação de atrito entre a inveja e o egoísmo, entre o “nós e eles”, tão bem explorado pelos demagogos.

Há, porém, uma distinção a ser feita: onde o tributo arrecadado retorna em benefícios ao povo e, onde, não retornam, são gastos com a máquina pública. Quando o produto da arrecadação retorna em serviços e benefícios aos cidadãos, há uma redução na desigualdade; mas se a máquina governamental esteriliza os recursos arrecadados em sua manutenção, há o aumento da desigualdade. De onde conclui-se ser o governo perdulário, burocrático, o maior responsável pelas desigualdades.

A desejada melhoria das condições dos menos favorecidos deve começar pelo melhor cuidado com aquilo em que todos são iguais. Somos todos igualados, independentemente da situação socioeconômica, no uso dos bens fundamentais: Segurança, Justiça, Soberania Nacional, Educação e Higiene. Somos também nos bens de uso comum: na qualidade da água, do ar, das vias públicas, comunicação, mobilidade…

Somos, ricos e pobres, desiguais é no consumo dos bens conspícuos: carros e restaurantes de luxo, aviões particulares, iates, as grifes… Aceita esta divisão entre os diversos bens (fundamentais e conspícuos), um processo de redução da desigualdade deve começar pelo governo cuidando dos bens fundamentais e deixando os não fundamentais por conta da sociedade.

Assim, o governo melhoraria a vida de todos naquilo em que estamos igualados, que é o fundamental para a qualidade de vida e deixando as desigualdades entre os Abeis e os Caims limitada aos bens conspícuos, que segundo a Bíblia devem ser conquistados com o suor de cada um.

Notas sobre os Graco e a burocracia brasileira

¹ Os irmãos Graco são conhecidos reformadores romanos que tentaram realizar a reforma agrária e outros tipos de reformas em benefício dos pobres. Ambos, chamados Tibério e Caio, foram eleitos tribunos da plebe e acabaram sendo vítimas dos senadores insatisfeitos com as medidas defendidas por eles.

² Bur(r)ocracia brasileira — a máquina do governo, entre arrecadação, inflação e endividamento, esteriliza perto de 50% do que é produzido no Brasil, pelo péssimo retorno nos bens essências. Não só administra mal como dificulta a vida de quem quer trabalhar. A bur(r)ocracia produz 700 regras tributárias por dia, como obstáculos à produção, desde 1988 até 2017 produziu 5 milhões de normas tributárias, colocando o país na posição 184 entre os 190 piores países para pagar impostos. O resultado é maior contencioso fiscal do mundo — 5 trilhões de reais.