A dislexia era um verbete quase desconhecido há poucas décadas. Só tomei conhecimento da existência desta deficiência quando fui confrontado com o diagnóstico de um filho. Até então as crianças que tinham dificuldades de aprendizado escolar eram classificadas como preguiçosas ou deficientes intelectuais — “burras”. Poucos eram os que conheciam uma condição que levava as crianças a sofrer de um “distúrbio de aprendizagem”.

Os sintomas mais comuns da dislexia (em grego aversão à leitura ou discalculia, aos números) é a dificuldade de manter a atenção em um texto, trocar palavras, escrever espelhado, não memorizar o significado das palavras… e outras mais. Não há um padrão comportamental entre os disléxicos. Geralmente surge mais entre os meninos — até 17% da população — e bem menos nas meninas — 6 %, segundo estatísticas dos Estados Unidos. Admite-se que as proporções sejam iguais no Brasil.

Desafiado pelo problema de meu filho, sem ter a quem recorrer no Brasil, soube da existência da British Dyslexia Association. Fiz contato e me tornei associado para ter acesso aos seus conhecimentos. Desta convivência ocorreu-me fundar no Brasil uma entidade filantrópica com os mesmos objetivos da britânica: “Ajudar os disléxicos por todas as formas possíveis”. Assim surgiu a Associação Brasileira de Dislexia (ABD).

Desde então a dislexia passou a fazer parte da minha vida. Ao defrontar-me com o problema senti enorme empatia pelos pais e “adotei” os disléxicos como filhos. Fui feliz por ter tido pessoas que me sucederam na presidência da entidade e que a tornaram uma referência no mercado. Os seus diagnósticos são hoje aceitos até nos Estados Unidos, onde uma neta recebe ensino universitário diferenciado por ter sido atestada pela ABD como disléxica.

Sabe-se, hoje, que a dislexia não tem cura, pois não é uma doença. Ela é uma dificuldade causada por uma construção cerebral diferente, que pode ser superada com um processo diferenciado de ensino. Os disléxicos são geralmente muito inteligentes. Levando o vulgo a simplificar dizendo: “Se é burro…não é disléxico”. Esta condição dá aos disléxicos vantagens em áreas como a criatividade, raciocínios originais, que se mostraram na fama de respeitáveis disléxicos: Thomás Edison, Albert Einstein, Walt Disney…

Tudo mostrava a oportunidade de criar uma entidade para se ombrear com as existentes nos países mais adiantados nas técnicas de educação. E a ABD não só se mostrou uma decisão feliz como superou as mais otimistas expectativas dos seus iniciadores. Não só é conhecida e profissionalmente respeitada no Brasil, como é convidada especial a participar de todos os eventos internacionais da International Dyslexia Association — da qual é associada.

Na sua ação internacional, no mês de novembro, a ABD realizou o II Congresso Luso Brasileiro de Dislexia, com a presença surpreendente de 950 profissionais de quase todo o Brasil e de Portugal. Entre os participantes estavam presentes representantes do Acre, Pernambuco, Brasília, Mato Grosso — infelizmente nenhum de Goiás.

Na ocasião, falando como fundador da ABD, pedi permissão ao público, pois, às vésperas dos meus 90 anos, sentia-me com a liberdade de aconselhar os mais jovens — a totalidade da plateia. Disse: “A vida só faz sentido se é uma caminhada em que se lança sementes de bondade. Não importa quantas, nem onde, nem para quem, nem se vão frutificar. Lancem prodigamente sementes, segundo sugeria a Bíblia — dando com uma mão mesmo que a outra não saiba. Isto é generosidade. Lancem tantas sementes de bondade quantas possam, só quem planta bondade pode colher felicidade”.

A história da ABD foi uma dessas semeaduras. Sementes foram lançadas por muitos pais e profissionais com a mão direita sem que a esquerda soubesse. Foram quarenta anos de gestos de generosidade, que ajudaram muitos disléxicos, seus pais e seus mestres por todos os meios possíveis, que tornaram os disléxicos em filhos adotivos da ABD.

Esse Congresso deu-me a oportunidade de agradecer aos profissionais dedicados à dislexia por terem ajudado os meus filhos e netos a superar os “transtornos de aprendizado”. Tenho orgulho deles, como também dos que tornaram a ABD em uma referência internacional e fizeram conhecido o desafio dos disléxicos neste mundo competitivo.

A ABD cumpriu a sua missão de fazê-los compreendidos pelos seus pais, professores e pela sociedade. Antes da ABD eles sentiam-se “burros, depois dela eles são disléxicos” — o que fez muito para a sua autoestima. A sociedade precisava saber que os disléxicos também são filhos de Deus.