Entre as crenças de Rousseau (“Contrato Social”) e Hobbes (“Leviatã”) está a distância do bem e do mal. O primeiro acreditava que o homem nasce bom, mas degenera na vida social. Ao contrário de Hobbes — que via a maldade como parte da natureza humana. A história dá razão a este de que o homem é o lobo do homem. No reino animal também há eventos de maldade, mas só os humanos a institucionalizaram. O homem, a par dos inúmeros atos pessoais, na sua história, escreveu capítulos negros. O ser humano é mau por natureza.

Um indivíduo ou um ato mau pode ser, olhado com benevolência, uma exceção, uma degeneração, motivada pela impulsividade. Entretanto, a maldade organizada, institucionalizada, como foram a escravidão, a Santa Inquisição e o Holocausto, sem esquecer das tiranias comunistas, não merecem perdão. Não há como não pintar com as piores cores o crime praticado contra muitos ao longo do tempo.

A escravidão é, de todas as violências, a que mais tempo durou e mais vítimas fez. Foi praticada desde a antiguidade pelos assírios, egípcios, hebreus e só oficialmente foi abolida em 2007, na Mauritânia.

A Santa Inquisição, instituída pelo papa Gregório IX, em 1231, para combater os hereges, fez vítimas durante quatro séculos. Assim como a escravidão, não foi obra de um homem, mas de uma instituição.

No que se diferencia do Holocausto, que teve vida mais curta (de 1933 a 1945), sob organização dos nazistas liderados por Adolf Hitler. Ainda que não tenha ficado nada a dever pela crueldade — 6 milhões de vítimas nos campos de concentração e extermínio —, mas muito menos do que nos 70 anos de Stálin (União Soviética), Pol Pot (Camboja) e Mao Tsé-tung (China) ao longo dos governos comunistas (cerca de 100 milhões de pessoas assassinadas).

De todos esses sacrifícios humanos a que tem merecido menos divulgação, proporcional à sua dimensão, a que mais vítimas fez e por mais tempo foi praticada, foi a escravidão.

Uma falha amenizada pelo livro “Escravidão”, do jornalista e escritor Laurentino Gomes (1º volume da trilogia, 479 páginas, Editora Globo), que aborda desde o primeiro leilão de escravos em Portugal, em 8 de agosto de 1444 até a morte de Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1695. O texto é leve, mas conta uma história trágica — um genocídio. É um relato histórico com sabor de romance. Não só é rico sobre o trágico evento como entretém pelo texto simples e muito bem fundamentado.

É uma leitura para entender boa parte da nossa história. O padre Antônio Vieira dizia: “O Brasil tem seu corpo na América mas a alma na África”. E tinha conhecimento de causa. Os jesuítas, irmandade à que pertencia, explorou em suas inúmeras fazendas, com a mesma crueldade dos colonizadores, o trabalho escravo.

Somos hoje  a maior população negra no mundo, depois da Nigéria; importamos 5 milhões de escravos africanos dos 12,5 milhões vindos para a América no período de três séculos e meio. Época houve que o número de negros escravizados superava a população branca. E fomos dos últimos a abolir a escravidão. O negro virou sinônimo de escravo no Brasil.

No processo escravizador, chocante foram  as perdas humanas, pelo maltrato, desde a captura na África até os leilões dos escravos. Mais da metade morria antes de serem vendidos. Os mais fracos eram lançados aos tubarões ainda vivos. A desumanidade ia ao ponto de os marcar com ferro em brasa, como se faz com o gado. Grande número morria de infecção no processo. A crueldade não tinha limites, como pode-se ler nessa rica história.

Nas palavras do autor: “Nenhum outro assunto é tão importante e definidor da nossa identidade nacional. Estudá-lo ajuda a explicar o que fomos no passado , o que somos hoje e também o que seremos daqui para a frente”.