Jorge Wilson Simeira Jacob
Jorge Wilson Simeira Jacob

A economia tem razões que a própria razão dos economistas desconhece

As consequências do intervencionismo podem ser o excesso ou a escassez da oferta, com a desorganização do sistema produtivo

A comunicação humana é uma ciência que pode ser também uma arte. Comunicamo-nos não só por palavras, mas também por gestos, sinais e símbolos. Esta capacidade está tão enraizada nos nossos costumes que não nos damos conta da sua importância. Sem esta condição de colocar em comum ideias e sentimentos, a vida social seria impossível. Compare uma reunião em que todos estivessem paralisados ou em outra em que as vozes se alteram, dá-se soco no ar ou levantam-se copos para brindar. Os grandes comunicadores — escritores, oradores, mímicos — conseguem emocionar as suas plateias com o domínio da técnica e da sua arte. Guerreiros convenceram milhões a morrer inutilmente levados por sua retórica. Políticos levaram maiorias a apoiar tiranias com suas ideias criminosas. Religiosos conseguiram seguidores dispostos à privação e até ao martírio pessoal. Nada disto seria possível sem lideranças com o domínio da comunicação.

Adolf Hitler, mestre na manipulação das massas, usava e abusava dos recursos da comunicação. Os seus comícios eram intencionalmente realizados em grandes espaços, com multidões, para anular a individualidade. O objetivo era impor o   interesse “social”. Os objetivos do partido eram prioritários. O indivíduo nada mais era do que massa de manobra. Os símbolos do nazismo adornavam os edifícios. As suásticas enchiam os espaços. Tudo era organizado para emoldurar o discurso do Führer. Nunca antes a técnica da comunicação foi aplicada com tanta arte. A suástica foi usada para representar todo um conceito, equiparando-se, enquanto durou, ao uso da cruz para sintetizar o cristianismo, a maçã-mordida, a Apple, a foice e o martelo, o comunismo. As bandeiras identificam os países, clubes, de esportes e carnavalescos. Os símbolos geralmente são simples e diretos, dizem tudo por si só, já as palavras são complexas. Exigem interpretação. De todos os instrumentos é a de mais difícil uso pela imprecisão. Podem mesmo ter significados antagônicos. Cada palavra pode ter diversos significados, dependendo da cultura do interlocutor, da sua região e mesmo estado emocional. Um obrigado pode significar uma recusa ou aceitação, dependendo do contexto.

Friedrich August Von Hayek, no “The Use Of Knowledge”, indica o preço como um transmissor de informação insubstituível, contrapondo-se às ideias dos que advogavam os controles de preços. Segundo ele não há alternativa ao preço para conseguir dar contas das infindáveis informações que levam à determinação do valor de um bem. Uma ideia bem explorada por Milton Friedman, um grande comunicador, na série “Free To Choose” (YouTube) com a história do lápis, a mostrar as vantagens do livre mercado. Mostrou Friedman, com boa didática, que o preço, olhado no seu uso comum, refere-se ao valor de algo, mas, se melhor analisado, debaixo do contexto econômico, o preço é um instrumento de comunicação, um símbolo, pois tem outro significado. É como um chip de computador de tantas informações que contém. Assim as variações do preço de um produto está a indicar o aumento ou redução da sua procura. Esta variação corre por todo o processo de produção e distribuição. Se os preços sobem é sinal para aumento da oferta, se cai, para a redução. Se há um aumento no consumo de lápis, os preços tendem a subir. Em melhorando as margens, o sistema é motivado ao aumento da produção, que resulta no reequilíbrio da oferta e da procura. Os produtores providenciam mais madeira, mais grafite, mais embalagem. Com os preços aumentados, os fornecedores, ficam dispostos a investir em horas extras ou adotar insumos mais caros. Neste exemplo, fica visto ser o preço, além de um determinante de valor, um elemento de comunicação. Concorda sabiamente Friedman com Hayek, que quando o governo interfere, congelando, limitando, subsidiando, os preços, ignoram que as relações econômicas entre as pessoas são mais invisíveis do que aparentam. As consequências do intervencionismo podem ser o excesso ou a escassez da oferta, com a desorganização do sistema produtivo, que geralmente exige outras ações do governo para corrigir a distorção, que vai causar outras … em uma sequência de remendos, sem fim.

A la Pascal, a economia tem razões que a própria razão dos economistas desconhece.

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